TODOS NÓS JULGÁVAMOS ELA Mila estava de pé na igreja e chorava. Já lá iam uns quinze minutos. Para …

TODOS NÓS A JULGÁVAMOS

Marília estava parada num banco da Igreja de Santa Maria e chorava. Já lá iam uns bons quinze minutos disto. Aquilo era estranho, quase surreal, uma visão líquida e tremida dentro do meu sonho. O que faz ali esta dondoca? pensava eu, enquanto as paredes da igreja dobravam como papel. Se há alguém que eu não esperava encontrar naquele santuário, era mesmo ela.

Nunca tinha falado com Marília, mas via-a vezes sem conta. Morávamos no mesmo prédio, percorriamos o mesmo Jardim da Estrela. Eu ia sempre atrás dos meus quatro filhos, ela deslizava altiva com os seus três cães: o Teco, o Max e a Fina.

Nós eu, as outras mães e as avós sentadas nos bancos do jardim, vizinhos, quem passava todos a julgávamos. Suponho, no fundo sonolento da minha cabeça, que até os pombos a julgavam.

Marília era lindíssima, bem vestida, parecia leve como uma pluma e segura de si, quase indiferente à vida dos outros. Sempre com uma mala caríssima e uns sapatos que brilhavam só de olhar.

Ora vejam, já trocou de homem outra vez resmungava Dona Noémia, agarrada ao seu xaile castanho, no degrau da entrada.
Já vai no terceiro.
Tem dinheiro a rodos, pode-se dar a esses luxos concordava Dona Zefa, apertando o cachecol, os olhos presos naquele carro reluzente onde Marília entrava com o namorado novo.

O filho da Dona Zefa, o António, já com quarenta e sete, nunca conseguiu juntar para um Renault Clio em segunda mão.

Era melhor pôr-se a ter filhos, que o tempo não volta atrás! gritava o Senhor Vasco, costumeiro opositor das senhoras. Mas nesse ponto, todos no jardim faziam coro no murmúrio reprovador.

Quando soubemos que mais um dos namorados de Marília se fora, a assembleia do banco do jardim lançou sentenças: É do que ela precisa! Aposto que o apartamento dela cheira a cão a quilómetros! Uma vergonha!

No fundo, quem mais não suportava Marília éramos nós, mães com filhos em bando. Enquanto corríamos atrás dos pequenos pelos montes, baloiços, relva, pombais e caixotes do lixo, ela desfilava com os seus cães, com um olhar quase trocista na nossa direção. Como quem diz: vocês decidiram parir, agora aguentem. Eu vivo em paz, viajo pelas ilhas dos Açores, vou a Paris quando me apetece.

Está-se mesmo a ver, é uma daquelas sem filhos por opção. São todos assim sentenciava a minha amiga Filomena, mãe de três rapazes.
Ricas malucas, acham que a felicidade é só bicho confirmava a Carla, já de barriga de gémeos, tentando desincrustar do muro a filha mais velha.

É puro egoísmo, viajar por tudo o que é sítio, enquanto nós nem a Nazaré conseguimos ir ver o mar! suspirava a Mariana, mãe de cinco.

Pois é, pois é assentia eu, sempre pronta a concordar com tudo e todos, enquanto limpava as lágrimas de lama da minha Toninha, sempre de joelho esfolado.

Mais valia ter tido um filho em vez desses cães todos atirou um dia uma avó qualquer, de mão dada ao neto.

Isso não é da sua conta! ripostou Marília, e chegou ainda a abrir a boca para dizer mais, mas engoliu as palavras e seguiu, altiva e distante, com os seus cães ora saltitantes, ora em câmara lenta.

Mal-educada! lançou a velha atrás dela, o eco a dissolver-se na luz dourada do final de tarde.

Observei Marília mais um pouco no templo, entre as sombras das velas e o brilho das lágrimas. Depois saí para o átrio inundado de sol onírico.

Espere lá! ouvi atrás, voz arrastada do fundo de um sonho. Espere…

Era Marília. Vinha ao meu encalço pelo passeio ondulante.

Você é aquela que anda sempre com as quatro meninas no parque?
Sou E você com os três cães.
Sim Posso falar um bocadinho consigo? Sabe, eu admiro muito ver você com as filhas, e as outras mães também fico encantada disse, corando, quase desfazendo-se em névoa.

Você?!? mal consegui reagir, a frase sem filhos, egoísta, dondoca quase a saltar-me da boca.

Acabámos sentadas num banco de jardim, com o céu a desbotar e as árvores a flutuar, e Marília abriu o peito, deixou correr o desabafo, entre soluços e suspiros surreais.

Contou-me que crescera numa família feliz do Minho, sonhando sempre com muitos filhos. Casou-se de paixão verdadeira, mas duas gravidezes interrompidas e o veredicto infertilidade afastaram o marido. O segundo também fugiu pelo mesmo motivo, após tratamentos dolorosos, terminados numa gravidez ectópica quase fatal.

Veio então um terceiro amor fugaz, covarde, desinteressado de tudo exceto do carro novo de Marília e das viagens dela. Mal ouviu bebé, evaporou-se.

Eu teria dado tudo só para ter um filho!

Pensei que só gostasse de cães murmurei, sentindo-me idiota.

Gosto muito de cães sorriu ao longe Mas isso não tira o meu amor às crianças.

Para não enlouquecer de solidão, adotou primeiro o Teco, depois acolheu o Max temporariamente que ficou para sempre. A Fina foi resgatada num inverno frio, perdida na rua.

Encheu a casa de bichos, mais valia ter tido um filho, ouvi ecoar a voz da avó do jardim.

Tic-tac, o eco distante do Senhor Vasco, deslizando entre nuvens de algodão coloridas.

O tempo já corria depressa: Marília tinha quarenta e um, mas parecia ter trinta. Decidiu adotar uma criança de uma casa de acolhimento. Não importava a idade, só queria ser mãe.

Encantou-se com o pequeno Nuno, de seis anos. Ou melhor, foi ele quem a escolheu. Aproximou-se dela e perguntou: Vais ser a minha mãe? Vou!, respondeu ela, coração a desdobrar-se como origami.

Mas o destino, com os seus caminhos labirínticos, não a deixou levar o miúdo. Descobriram que a mãe, doente psiquiátrica, não tinha perdido os direitos parentais.
Fiquei devastada… É tão injusto. A criança a precisar de família nada a fazer?

Mais tarde, apareceu Leonor, uma menina de quatro anos. Já tinha sido devolvida duas vezes demasiado inquieta para gostos alheios.

Contavam no lar que, da última vez, arrastou-se de joelhos a implorar: Mamã, não me deixes! Não volto a portar-me mal, prometo!

Quando conheceu Marília, Leonor perguntou logo:
Também me vais devolver?
Nunca disse Marília, voz a tremer como folhas.

Houve obstáculos burocráticos, que Marília preferiu não detalhar. Mas esta é a minha filha, vou lutar por ela!

Foi nesse dia que entrou pela primeira vez naquela igreja desdobrada dos meus sonhos, dizia Já não sei para onde ir…

O padre apareceu como num quadro barroco, e ficaram muito tempo a falar. Marília apontava coisas num caderno, parecia que tomava notas de alguma fórmula secreta para mudar vidas.

Vai correr tudo bem! Com Deus! ouvi a voz dele, e vi-a sorrir, quase luminosa.

Voltámos juntas pelo bairro de Alfama, as calçadas enrolando-se em caracóis surreais sob os nossos pés.

Acha que sou arrogante? perguntou, voz fatigada de explicações. Eu só estou cansada, não consigo justificar tudo, já ouvi de tudo…

Fiquei calada, consciente da lama que nos escorre dos pensamentos.

Marília convidou-me a levar as meninas lá a casa para brincar com os cães. Concordei, prometendo ir mais tarde.

Naquela noite, acordei a pensar: De onde vem tanta sujidade em nós? Como é tão fácil pensar mal dos outros?

Desejei, naquele instante de sonho, que Marília tivesse paz. Que Leonor a abraçasse com força e dissesse: Mamã!, sabendo que nunca mais seria devolvida. Que à volta saltitassem felizes o Teco, o Max, a Fina

E talvez, quem sabe, acontecesse um milagre: um homem bom para a Marília, mais um irmãozinho ou irmãzinha para Leonor. A vida tem destas voltas.

E que ninguém jamais ousasse outra vez dizer-lhes uma palavra má.

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