Toda a escola começou a comentar que a aluna do 10.º ano estava grávida. As especulações sobre quem poderia ser o pai do bebé espalharam-se como fogo, mas Ana permaneceu em silêncio.

Madalena sonhava que tinha dado à luz a sua filha aos quinze anos, enquanto ainda frequentava o décimo ano numa escola em Lisboa, onde os corredores pareciam feitos de azulejos de cerâmica azul. Durante mais de cinco anos, manteve o segredo do pai da criança, como se fosse um nome trancado num antigo baú na cave da sua memória. Dona Beatriz, mãe de Madalena, só descobriu tarde o estado da filha, pois sempre pensara que o seu corpo robusto era apenas sinal de boa saúde. Preocupada com o súbito aumento de peso, levou Madalena a um endocrinologista, onde tudo se desvendou num só instante, como a abertura de uma janela numa noite escura. Dona Beatriz ficou atordoada, quase furiosa, pois criara Madalena sozinha e, de repente, tinha uma neta numa idade em que ainda se brinca na rua.

Madalena cerrou os dentes e recusou-se a revelar o nome do pai da sua filha, deixando toda a escola numa nuvem de murmúrios. Apesar de tudo, Madalena avançou como se navegasse contra o vento. Naquele verão do sonho, quando o cheiro da sardinha invadia as ruas, nasceu a sua filha uma menina com olhos cintilantes como o Tejo ao pôr-do-sol. Dona Beatriz pediu licença de maternidade para cuidar da neta e Madalena dedicou-se aos estudos, conseguindo uma bolsa de estudo estatal para a Universidade de Coimbra. Entre aulas e trabalhos de meio turno numa confeitaria, conseguiu sustentar-se e à filha, por vezes recebendo uns euros de uma fonte misteriosa, que guardava só para si, como se fossem moedas de ouro de um conto antigo.

À medida que a menina crescia, Madalena persistia em manter segredo sobre o pai. Aos três anos, Madalena conduzia a filha pelas ruas de Lisboa, entre livros e folhas de publicidade, enquanto alugavam um pequeno apartamento com paredes cheias de sonhos. A menina mostrava uma curiosidade e inteligência surpreendentes fazia perguntas que pareciam sair da boca de um poeta ou de um explorador.

O sonho avançava. Madalena terminou a universidade, conquistando um contrato na mesma empresa onde antes trabalhara part-time. Naquele verão, quando a filha estava prestes a completar seis anos, Madalena surpreendeu todos ao trazer para casa um homem. Chamava-se André e tinha apoiado Madalena discretamente durante todos os anos, mantendo-se invisível por causa das suas ambições de entrar para a Academia Militar. André enviava-lhe dinheiro em segredo, encontrava-se com a filha às escondidas nos jardins onde cresciam laranjeiras, sempre com olhos atentos.

Depois de concluir a Academia, André decidiu casar com Madalena, que esperara por ele seis longos anos, numa espera que parecia esticar os dias como um lençol ao sol. Tiveram recentemente um filho; a filha crescia, terminando o terceiro ano, tornando-se cada vez mais brilhante e querida, uma joia reluzente no coração daquela família que, no sonho, parecia viver numa casa feita de luz e saudade.

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Toda a escola começou a comentar que a aluna do 10.º ano estava grávida. As especulações sobre quem poderia ser o pai do bebé espalharam-se como fogo, mas Ana permaneceu em silêncio.