Toda a aldeia já sabia há muito tempo que o Oleg vinha aí. As raparigas preparavam-se, faziam penteados. Mas a Aninhas, pobrezinha orfã, para que havia de se enfeitar? Ficou como era. E foi nela que ele se apaixonou à primeira vista.

Toda a aldeia já sabia há semanas que o Hugo vinha aí. As raparigas andavam num frenesim, a fazer caracóis e a experimentar penteados. Mas a Filomena, coitadinha, órfã desde pequena, nem se dava ao trabalho dessas manhas femininas. Era como era: simples, cabelo apanhado numa trança apressada. E não é que foi por ela que o Hugo se apaixonou logo à primeira?

A inveja logo se instalou. Afinal, foi logo a Filomena, logo ela, a arranjar um rapaz daqueles: alto, bem-parecido, uns ombros de meter respeito, citadino e ainda por cima doutorado em Paris, com pais endinheirados em Lisboa. O avô dele, senhor António, tinha sido presidente da Junta, um homem respeitado que, de tanto endeusar os netos, já só falava das proezas deles nas tascas do povo.

Contava-se na aldeia que o Hugo vinha, e a excitação pairava no ar. Raparigas faziam fila na cabeleireira da Dona Adelaide, mas para a Filomena, essas vaidades não faziam sentido. Foi assim mesmo, só com o sorriso sincero e o olhar tímido, que lhe roubou o coração.

De nada valeram as tentativas das outras em o encantar; Hugo só tinha olhos para a Filomena. No fim das férias, levou-a consigo. O avô António ainda lhe segredou antes de partirem: Menina sofrida esta Filomena. Sê bom para ela. Hugo prometeu, com aquele jeito aparvalhado de quem está mesmo apaixonado.

Mas a vida na cidade, isso era um reboliço! Filomena torcia para que o Hugo continuasse carinhoso, mas as coisas rapidamente mudaram. Enquanto o casamento era só preparativos e doces de ovos, tudo ia bem. Depois da lua de mel, tudo mudou: Hugo passou a evitá-la, quase como se tivesse vergonha da recém-casada.

A sogra, Dona Emília, só lhe dirigia a palavra por obrigação, e sempre com as sobrancelhas levantadas: tudo estava errado. A sopa muito grossa, as camisas mal passadas, nem a esfregona usava como devia. Filomena respirava fundo, mas ali, a dividir o T2 com a sogra, pouco podia fazer. Tentar arranjar trabalho? Nem pensar, Hugo nem deixava:

Vais ganhar quanto com esse canudo, Filomena? Fica sossegada, descansa.

Ela assim ficou. Quando engravidou, Hugo andava nas nuvens, beijava-lhe a barriga e já falava em enxovais. Até a sogra ficou mais doce, ralhava mais era com o filho: Vê lá como tratas a tua mulher! Só que a felicidade foi curta. Filomena perdeu o bebé, e tudo escureceu.

Não serves para nada, minha rapariga! Nem cabeça nem saúde, só essa carinha laroca resmungava Dona Emília, enquanto Hugo sorria, com aquele ar de quem não está nem aí.

A segunda gravidez já não trouxe sorrisos ao marido. O carinho desapareceu, e até se incomodava com as curvas da Filomena. A sogra ralhava com o filho, mas de pouco servia: o amor já lá não morava. Dormiam em quartos separados, Hugo sumia o dia todo, só chegava a casa quando Filomena já dormia.

Noites inteiras a chorar baixinho, Filomena aguentava estoicamente, porque pais não tinha, e não desejava esse destino à filha. Lutou para segurar a família, engolia as mágoas, tentava sorrisos.

Quando chegou a hora de ir para a maternidade, estava sozinha. Hugo andava desaparecido fazia uma semana. Filomena chamou ela própria o INEM. Quando deu à luz, nem avisou. Não sabia sequer para onde voltar. Mas, à porta do hospital, viu um carro cheio de balões coloridos. O coração acelerou. Deve ter sido o Hugo, pensou, mas nada. Estavam lá apenas Dona Emília e o avô António, de fato domingueiro e flores na mão.

Muito obrigado pelo presente, netinha! Não há bisneta igual à nossa Margarida exclamava o avô, radiante.

Já Dona Emília tentava conter o sorriso bobo mal disfarçado, mas não largava a neta nem por um minuto. Em casa, a mesa estava posta, e a sogra até tinha feito o bolo de laranja preferido da Filomena.

Nunca pensei que o Hugo me saísse um traste destes desabafou a sogra, sem papas na língua. Anda na má vida, largou-te assim com a menina. Mas deixa estar nós cá nos arranjamos sem ele. Vais ver quanto tempo aguenta longe. Vou tirá-lo da casa, que o espaço não chega para todos. E com sorte ainda traz outra para cá.

Como vamos chamar a menina? perguntou o avô António. Que tal Cecília, como a tua mãe se chamava?

Filomena caiu em lágrimas. Há muito precisava de um colo. E Dona Emília passou-lhe a mão pelo cabelo, sussurrando:

Não chores, minha filha. A felicidade ainda te bate à porta. Olha como és bonita a ser mãe. Ele é que não soube ver.

Vou para a aldeia, sinto que lá somos mais felizes.

Muito bem disse o avô, firme. Juntos tratamos da pequena.

***

Dois anos depois de regressar à aldeia, Filomena recebeu um pedido de casamento do Manuel, um rapaz do campo, de mãos grossas e coração doce. Antes de conhecer o Hugo, a Filomena nem lhe teria dado conversa. Agora, sabia o que queria: alguém que a amasse e a protegesse.

Aceita, rapariga, não há marido melhor. Já o conheces desde pequena. E se o Hugo aparecer?

Filomena nem deixou acabar a frase.

Ele não volta. E, para ser franca, já nem gosto dele.

Assim é que é! festejou o avô António. Vamos lá planear este casamento à antiga!

***

No dia do casamento, lá apareceu Dona Emília.

Então, Manuel, como tratas a Filomena? Vem da escola a pé, a casa um caos, e as meias da Margarida nem passadas!

E você é quem? ripostou Manuel, sem paciência.

A sogra!

Ex-sogra, se não se importa! corrigiu o noivo.

Ora, deixem-se de discussões riu-se Filomena. Ex-sogra nunca perde o título, está visto.

Saem-me as coisas da boca sem pensar só quero ter a certeza de que me deixam ver a neta.

Venha sempre que quiser respondeu Manuel, sereno. Mas a nossa família construímo-la nós, à nossa moda.

Filomena sorriu para Manuel, cheia de orgulho: Este não me deixa cair, pensou, finalmente em paz.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Toda a aldeia já sabia há muito tempo que o Oleg vinha aí. As raparigas preparavam-se, faziam penteados. Mas a Aninhas, pobrezinha orfã, para que havia de se enfeitar? Ficou como era. E foi nela que ele se apaixonou à primeira vista.