Toda a aldeia já sabia há muito tempo que o Oleg ia chegar. As raparigas preparavam-se, faziam penteados. Mas a Aninhas era órfã, para que lhe serviam esses truques de moça? Era como era. E foi nela que ele se apaixonou logo de imediato.

Sobre a vinda do Miguel ao vilarejo, há muito que toda a aldeia de São Martinho sabia. As raparigas começaram logo a preparar-se: penteados novos, vestidos engomados. Mas a Mariana, órfã, para que havia de gastar tempo com esses truques? Era como era. E foi precisamente nela que ele se apaixonou à primeira vista.

Na aldeia toda invejavam a Mariana por ter conseguido conquistar um rapaz como ele. Logo que o Miguel apareceu por São Martinho, todas as moças se encantaram: alto, forte e bonito. Além disso, era rapaz da cidade, instruído, formado em Lisboa, com pais abastados.

O avô Joaquim, que tinha sido presidente da junta, sempre se gabava de ter dado boa educação a todos os filhos; agora só aguardava os netos e preparava-se para se vangloriar dos seus feitos.

Sobre a chegada do Miguel, como já disse, soube-se por toda a aldeia há semanas. As raparigas atarefadas, ensaiavam novos visuais. Porém, Mariana, sem família próxima, não via motivo para tais artimanhas femininas. Era simples e verdadeira. E foi nisso que Miguel se encantou.

Por mais que as outras tentassem chamá-lo à atenção, de nada serviu. Depois das férias, Miguel levou-a consigo para Lisboa. O avô Joaquim advertiu: “A Mariana já muito sofreu nesta vida, olha que não a faças infeliz.” Ele prometeu que não.

Viver na cidade era outra correria. Mariana esperava que Miguel se mantivesse atencioso e cuidadoso, mas as coisas começaram a mudar. Durante os preparativos para o casamento ainda partilhavam as preocupações e alguns momentos de ternura.

Depois da lua de mel tudo mudou. Miguel parecia ter vergonha da jovem esposa. A sogra, Dona Adelaide, tratava-a friamente, com desdém claro. Mariana sentia-se sempre inferior ao filho bonito dela.

Cozinhava mal, não sabia lavar as camisas, nem esfregar devidamente o chão. Mariana sofria em silêncio, mas onde havia de escapar se viviam todos no mesmo apartamento? E emprego? Não conseguiu arranjar, e Miguel nem a deixava tentar:

O que vais tu ganhar com esse teu curso? Fica em casa, pronto.

E ficou. Quando engravidou, Miguel parecia o homem mais feliz do mundo. Tudo parecia endireitar-se. A sogra calou as críticas, até ralhava com o filho se o via menos dedicado à esposa. Mas depois uma desgraça aconteceu: Mariana perdeu o bebé, e tudo piorou.

Não serves para nada, nem cabeça, nem corpo. Só tens cara laroca, para quê? suspirava a sogra, e Miguel sorria de lado, como se nem falassem da sua mulher.

Uma segunda gravidez já não lhe trouxe felicidade. Acabaram-se os carinhos, só havia impaciência, pois já não gostava do corpo mudado. Dona Adelaide ralhava com o filho para não maltratar Mariana: “A criança deve nascer no amor”, dizia.

Mas amor, já não havia. Dormiam em quartos separados, Miguel passava a vida no trabalho e chegava tarde, quando ela já dormia.

Mariana chorava noites inteiras, mas para onde ir, sem pais ou família? Lutava para manter a família de pé, guardava as dores só para si.

Na hora de ir para o hospital, ninguém por perto. Miguel não aparecia há mais de uma semana. Mariana chamou o INEM sozinha. Teve a filha e nem sabia para onde voltar. Ao sair, surpreendeu-se ao ver um carro junto ao portão com balões coloridos. Sorriu, mas era só a sogra e o avô Joaquim, elegantes e de flores nas mãos.

Obrigado, minha querida neta, por este presente magnífico. Não há ninguém igual à nossa Leonor rejubilava o avô. Dona Adelaide, embora contida, não largava os olhos da neta; girava sempre à volta da pequenina.

Em casa, a mesa estava posta. A sogra fez o bolo de laranja que Mariana tanto gostava.

Nunca pensei que o Miguel fosse um canalha destes desabafou enfim Dona Adelaide. Anda nas aventuras, deixou-te com o bebé. Não faz mal, vamos continuar sem ele. Veremos quanto tempo aguenta sem nós. Não te preocupes, expulso-o do apartamento, cá ficamos nós. Até pode ir atrás de outra, nós ficamos bem.

Como vamos chamar a menina? perguntou logo o avô Joaquim Talvez Filomena, como a tua mãe, lembras-te?

Mariana chorou. Há muito não se deixava ir assim nas lágrimas. E a sogra acariciava-lhe os cabelos:

Descansa, ainda vais ser feliz. Vê como te fica bem ser mãe. Ele é que não te soube valorizar.

Vou para a aldeia. Lá seremos mais felizes.

Muito bem apoiou o avô. Hás-de criar a neta connosco.

***

Dois anos depois de Mariana ter voltado à aldeia, foi pedida em casamento pelo André, rapaz simples do campo. Antes de conhecer o Miguel, Mariana nunca lhe teria dado atenção. Agora, as prioridades eram outras: precisava de alguém que a amasse e a protegesse.

Aceita, Mariana, não há rapaz melhor. Conheces-lhe o coração desde pequena. E se o Miguel voltar?

Mariana não deixou acabar.

Não volta. E além disso, já não o amo.

Então está decidido sorriu o avô. Temos de preparar o casamento.

***

No dia do casamento apareceu Dona Adelaide.

Como tratas a Mariana? perguntou ela logo ao André, com ar reprovador. Hoje veio a pé do trabalho. Em casa está tudo desarrumado, e as meias da Leonor nem passadas estão.

E a senhora, quem é? estranhou André.

Sou a sogra.

Ex-sogra corrigiu André.

Pronto, pronto, deixem-se disso riu Mariana. Ex-sogra nunca existe de verdade.

Eu só quero o melhor, desculpem. Só tenho medo que me proíbam ver a minha neta.

Venha quando quiser respondeu André. Mas a nossa família somos nós que a construímos, sem intromissões.

Mariana olhou para André com orgulho: Este nunca vai deixar alguém magoar-nos, pensou e sorriu.

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Toda a aldeia já sabia há muito tempo que o Oleg ia chegar. As raparigas preparavam-se, faziam penteados. Mas a Aninhas era órfã, para que lhe serviam esses truques de moça? Era como era. E foi nela que ele se apaixonou logo de imediato.