Eu e o meu marido sempre trabalhámos arduamente desde o início da nossa vida juntos. Queríamos que os nossos filhos tivessem tudo, que nunca lhes faltasse nada. Por isso, depois do nascimento da nossa filha, o meu marido começou a trabalhar em dois empregos para nos sustentar. Sempre procurámos educar a nossa filha para que fosse uma pessoa educada, sensível e generosa. O tempo passou depressa demais. Quando demos por isso, a nossa filha já tinha crescido.
Era uma bonita jovem, com muitos admiradores à sua volta. Com o tempo, comecei a reparar que ela andava mais distraída, como se flutuasse nos seus próprios pensamentos. Descobrimos depois a razão: tinha-se apaixonado por um rapaz. Fiquei muito feliz quando ela nos contou. Pedimos até que nos apresentasse o tal rapaz. Perguntávamo-nos quem teria tido a sorte de conquistar o coração da nossa menina. Ela prometeu que um dia o traria a casa.
Recentemente, contou-nos que os planos estavam feitos e ia finalmente trazê-lo cá a casa. Passei o dia inteiro na cozinha, a preparar vários pratos tradicionais desde bacalhau com natas a pastéis de nata para a sobremesa. O meu marido pôs o apartamento impecável. Estávamos ansiosos, a imaginar como seria o encontro. A nossa filha parecia radiante de felicidade; sorria sem parar, mal tocava com os pés no chão, parecia que voava. Eu e o meu marido olhávamos para ela e sentíamos uma alegria sem palavras ao ver a nossa menina tão feliz.
Finalmente, o rapaz chegou. Fez-me logo boa impressão: educado, simpático, bem disposto, conversador. Sentámo-nos todos juntos à mesa. Apesar disso, houve algo que não me saía da cabeça durante toda a noite. Tinha a sensação de já ter visto aquela cara em algum lado. O rosto dele era-me muito familiar, mas não me conseguia lembrar de onde. Toda a noite conversámos e rimos ele mostrou-se um excelente rapaz e todos acabámos por nos sentir à vontade.
Quando foram embora, veio-me a memória de repente: o rapaz aparecia numa reportagem sobre burlas em Lisboa. Lembrei-me da foto dele num comunicado das autoridades, a pedir para informar caso alguém soubesse do seu paradeiro. Contei logo ao meu marido e à nossa filha o que me lembrava. Ela desatou a chorar, convencida de que eu tinha inventado tudo para arruinar a felicidade dela.
Mas não era verdade. Quis apenas protegê-la e alertá-la para possíveis complicações. Importamo-nos profundamente com quem ela escolhe para partilhar a vida. Como resposta, a nossa filha fez rapidamente as malas e saiu de casa.
Já passou um mês sem notícia, sem me atender as chamadas. Já começo a pôr tudo em causa. Será que me enganei? Será que o namorado da minha filha é, afinal, apenas um rapaz normal? Sinto o peso das dúvidas e dos remorsos a cada dia que passa.







