Tenho de viver assim por causa da minha esposa.

Conheci há pouco tempo uma rapariga que, à primeira vista, era simplesmente encantadora. Passeávamos frequentemente juntos pelas ruas de Lisboa, fazíamos viagens curtas de carro até Sintra, íamos a cafés típicos e a sessões de cinema. Mas para mim, isso não era suficiente. Queria estar com a minha namorada sempre, não só durante os encontros. Por isso, sem hesitar, pedi-a em casamento. Para quê adiar? Amamo-nos, sentimo-nos bem juntos. Agora vivemos juntos, conhecemo-nos cada vez melhor. Casámos.

No entanto, a minha mãe não foi com a cara da Leonor desde o início. Disse-lhe isso diretamente. Leonor recusou-se a viver com a minha mãe. Eu queria que vivêssemos todos juntos; tínhamos um T2: um quarto para nós, outro para a minha mãe. Leonor não quis saber, insistiu que eu fosse morar com ela no quarto de estudantes onde estava instalada. Depois do casamento, mudámo-nos para a residência universitária dela, como ela tinha pedido.

Nunca imaginei viver num quarto de estudantes e em condições tão precárias. Detestava as casas de banho e os duches partilhados. No início, até tinha vergonha de tomar banho lá. E as baratas? Rastejam por todo o lado. Como é que se pode viver assim? Leonor não liga a isso. Diz que ninguém foi comido por uma barata ainda e que eu estou a fazer uma tempestade num copo de água. É impossível dar conta delas, há sujidade por todo o lado. Na divisão ao lado mora um casal que está sempre à bulha.

Do outro lado está uma família com uma menina pequenina que chora e grita sem parar. Não deixa dormir nem os pais, nem a nós. Recentemente, tive uma discussão com um vizinho bebeu demais à noite e começou a arranjar confusão, tentei apaziguá-lo. Desde aí anda a tentar irritar-me de todas as maneiras e provocar conflitos. Só quero sair dali. Já sugeri à Leonor alugarmos um apartamento.

Mas ela não aceita. Diz que já se habituou a viver ali e está feliz dessa forma. Se fosse o nosso apartamento, ainda vá, mas os arrendamentos em Lisboa estão caríssimos. Praticamente teria de gastar o ordenado inteiro na renda. A minha mãe já sugeriu que voltasse a viver com ela, prometendo não se meter na nossa relação. Mas Leonor não quer sequer ouvir falar nisso.

Ultimamente tem falado em termos filhos. Acredita que um bebé vai fortalecer o nosso casamento. Claro que quero ser pai e sonho com isso, mas, só de pensar nas condições em que poderia crescer a criança, desanimo. São discussões constantes entre vizinhos, gritos… Às vezes penso em divórcio. Não porque não ame Leonor, mas porque as condições não são adequadas para viver.

Quero que o meu futuro filho cresça com qualidade de vida. Não sei quanto tempo mais aguento. Sinto os nervos à flor da pele. Leonor não quer ceder em nada.

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Tenho de viver assim por causa da minha esposa.