Há pessoas que, quando entram na casa dos outros, esquecem-se completamente de que são apenas convidados. Tornam-se invasivas, dão palpites onde não devem e nem se preocupam em regressar cedo às suas casas.
Sempre fui uma mulher muito acolhedora, daquelas que gosta de ter gente à mesa, mas esse entusiasmo desvaneceu-se com o tempo. Quando ultrapassei os quarenta anos, deixei de convidar gente para minha casa. Para quê continuar a fazê-lo? Só serve para me incomodar com visitantes deste calibre.
A última vez que celebrei o meu aniversário foi num restaurante em Lisboa. E confesso, adorei. Decidi que a partir de agora será sempre assim. Permitam-me explicar porquê.
Preparar uma festa em casa é caro. Mesmo uma simples jantarada implica gastar uns bons euros. E se se tratar de uma reunião de Natal, nem queira imaginar o gasto. Os convidados aparecem com um presente simbólico são tempos difíceis, compreendo e depois ficam até altas horas. Eu só desejo descansar, não perder metade da noite a lavar pilhas de loiça e a arrumar tudo.
Já não espero ninguém entre as paredes do meu T2. Limpo e cozinho ao ritmo que me apetece. Antes, depois de uma festa de Natal em casa, sentia-me sempre esgotada e mal-humorada. Agora, no fim de cada Natal, tomo um banho quente e deito-me cedo, livre da confusão.
O tempo que me sobra uso para mim e faço dele o melhor possível. Os meus amigos podem passar para beber um chá, mas não fico ansiosa se não tenho bolachas caseiras ou algo especial preparado. Hoje falo sem rodeios. Se estou cansada e preciso de sossego, não hesito em sugerir que chegou a hora de ir embora. Pode parecer pouco simpático, mas já não me preocupo. O meu conforto está em primeiro lugar.
Mas aquilo que mais me surpreende é ver que as pessoas que vivem a saltitar para as casas dos outros raramente abrem as suas portas. Para elas, é bem mais fácil aproveitar tudo sem terem o trabalho da arrumação ou da confeção.
E os outros? Costumam receber visitas? Será que se podem considerar verdadeiramente acolhedores?







