Tenho 30 anos e aprendi que a traição mais dolorosa não vem dos inimigos. Vem de quem te chama de “m…

Tenho trinta anos, e neste sonho estranho percebo que as facadas mais dolorosas não vêm dos inimigos. Vêm das pessoas que nos dizem, com voz doce: Mana, estou sempre contigo.

Há oito anos, existe na minha vida uma melhor amiga. Uma daquelas amizades que parecem família, quase irmandade. Sabia tudo sobre mim. Já chorámos no mesmo abraço, já rimos até o sol nascer por trás das colinas de Sintra. Conversámos sobre sonhos, medos, roteiros de viagem, planos para o futuro.

Quando me casei, foi ela a primeira a apertar-me com força nos braços e a dizer:
Mereces. Ele é um homem bom. Guarda-o.

Acreditava-lhe. Senti sinceridade.

Mas agora, nesta Lisboa de neblina e mar, olhando para trás, vejo que há pessoas que não te desejam a felicidade. Esperam só que tudo trema, silenciosas, como samba de Alfama à noite.

Não sou dessas que têm ciúmes das amigas por causa do marido. Sempre acreditei: se uma mulher tem dignidade, nada tem a temer. E se um homem é correto, não há espaço para suspeita.

O meu marido nunca me deu razão para dúvida.
Nunca.

Por isso, o que aconteceu, bateu-me como água fria da ribeira. E o pior: não sucedeu de repente.
Foi sussurrado, aos poucos.
Com coisas minúsculas que ignorei para não parecer paranoica.

Primeiro, o modo como ela passou a vir mais cá a casa.
Antes, normal noites de rapariga, bica, conversa.
Depois, foi diferente. Vestia-se demais. Saltos altos pela calçada, perfume intenso, vestidos que brilhavam.
Eu dizia para mim: É mulher, é natural

Mas veio mais.
Entrava, e parecia que não me via primeiro.
Sorria primeiro para ele.
Bem, estás cada vez mais giro como consegues?

Eu ria, nervosa. Ele respondia com educação:
Estou bem, obrigado.

Ela passou a perguntar-lhe coisas que não eram da conta dela:
Outra vez a trabalhar até tarde?
Estás cansado?
Ela cuida de ti?

Ela eu.
Não dizia tua mulher. Dizia ela.

Nisso, algo murmurava dentro de mim.
Mas nunca gostei de discussões. Tenho fé nos costumes bons. E não queria pensar que a minha melhor amiga podia ir além do que é uma amizade.

Comecei a notar detalhes.
Quando estávamos os três, ela falava como se eu fosse elemento secundário.
Como se entre eles houvesse algo especial.
E o pior: ele não via.
Ele é daqueles homens de bom coração, sem malícia.
E eu acalmei-me nisso, durante muito tempo.

Até às mensagens.

Uma noite, ao procurar fotos das férias no telemóvel dele não sou de vasculhar, só queria uma foto para postar vi um chat com o nome dela. Não procurei, apareceu.
A última mensagem dela:
Diz-me sinceramente se não fosses casado, terias escolhido a mim?

A sala rodou à minha volta, como no elétrico antigo. Li a mensagem três vezes.
Perguntei a mim própria se era recente.
Era desse mesmo dia.

O coração, vazio como as ruas ao domingo, batia estranho.

Fui à cozinha, onde ele fazia chá de lúcia-lima.
Posso perguntar uma coisa?
Claro, diz.

Olhei-o sem piscar.
Porque é que ela te escreve assim?

Ele embaralhou-se.
Escreve o quê?

Não levantei a voz. Falei calmo.
Se não fosses casado, terias escolhido a mim?

Ele empalideceu, como quem vê o Tejo ao entardecer.
Leste o meu telemóvel?

Sim. Vi por acaso. Mas esta frase não é acaso. Isto não é normal.

Ficou nervoso.
Ela só está a brincar.

Ri-me baixo.
Isto não é brincadeira. É um teste.

Não há nada entre nós, juro.

Então, o que respondeste?

Silêncio. Um silêncio mais cortante do que a faca.

O que respondeste? insisti.

Virou-se, relutante.
Escrevi que não falasse assim. Que a valorizo.

Valorizar.
Não pára.
Não respeita a minha mulher.
Apenas valorizo.

Olhei-o.
Percebes como isso soa?

Por favor, não faças disto drama
Não é nada. É um limite, e tu não puseste.

Tentou abraçar-me.
Vá lá não discutamos. Ela está sozinha, está a passar um mau bocado.

Afastei-me.
Não me culpes por reagir. A minha amiga escreve ao meu marido sobre o que seria se. Isso é humilhação.

Ele disse:
Vou falar com ela.

Acreditei-lhe.
Porque sou dessas pessoas que acreditam.

No dia seguinte, ela ligou-me.
A voz melosa feito fado antigo.
Querida, precisamos falar. Houve um mal entendido.

Sentámo-nos numa pastelaria de Campo de Ourique. Ela com aquele olhar inocente que sempre usava.
Não sei o que imaginaste Apenas conversámos. Ele é meu amigo.
É teu amigo. Mas eu sou tua amiga.

Tu tornas tudo complicado.
Eu vi.

Ela suspira fundo, de modo dramático.
Sabes qual é o problema? Tu és muito insegura.

Essas palavras foram punhal.
Não por serem verdade.
Mas por serem comodas.

Defesa clássica: se reages, és louca.

Olhei-a, serena.
Mais uma vez que cruzes fronteira no meu casamento, acaba-se o diálogo. Acaba-se o esclarecimento. Acaba-se tudo.

Ela sorriu.
Claro. Desculpa. Não voltará a acontecer.

Era aí que devia deixar de acreditar.
Mas acreditei de novo.
Porque, às vezes, é mais fácil crer.

Passaram duas semanas. Ela procurou-me menos. Mal escrevia.
Pensei: tudo terminado.

Até que numa noite, em casa de familiares nos arredores do Porto, vi algo que sacudiu o mundo.

O telemóvel do meu marido ficou sobre a mesa; esqueceu-o depois de atender a mãe.
O ecrã iluminou.
Mensagem dela:
Ontem não consegui dormir. Pensei em ti.

Não senti dor.
Senti clareza.

Não chorei. Não houve cena.
Apenas olhei para o ecrã.
Como se vísse verdade nua, sem filtro.

Guardei o telemóvel na bolsa.
Esperei até sermos só nós em casa.

Assim que fechei a porta:
Senta-te.

Ele sorriu desconfiado.
O que é?

Senta-te.

Sentiu o peso, obedeceu.
Pus o telemóvel à frente dele.
Lê.

O rosto mudava.
Não não é o que pensas.

Não me faças de estúpida. Diz-me só a verdade.

Tentou justificar-se:
Ela escreve eu não respondo assim ela é sensível

Interrompi.
Quero ver toda a conversa.

Cerrou mandíbula.
Isso já é excessivo.

Sorri.
É excessivo pedir a verdade ao meu próprio marido?

Levantou-se.
Tu não confias em mim!

Não. Tu deste-me motivo para não confiar.

Então ele admitiu. Não por palavras.
Abriu o chat.
E eu vi.

Meses.
Meses de mensagens.
Não diárias, não diretas.
Mas aquelas que fazem pontes suspensas entre dois.

Com como estás.
Com pensei em ti.
Com só contigo posso falar.
Com ela não me compreende às vezes.

Ela eu.

E o pior: uma frase dele,
Às vezes imagino como seria a minha vida se te tivesse conhecido primeiro.

Não respirei.
Ele olhava o chão.

Não fiz nada murmurava. Nunca nos vimos

Eu não perguntei se se encontraram.
Porque mesmo sem isso
isso é traição.
Em silêncio, sem corpo mas traição.

Sentei-me, pernas tremiam como comboio no cais de Cais do Sodré.
Disseste que ias falar com ela.

Ele, num fio de voz:
Tentei.

Não. Tu esperaste que eu não descobrisse.

E disse algo que me destruiu:
Não tens o direito de me obrigar a escolher entre vocês.

Olhei-o.
Fundo.
Eu não te obrigo. Tu já escolheste. Quando permitiste isto.

Chorou. Chorou de verdade.
Desculpa não queria

Não gritei.
Não humilhei.
Não devolvi.

Levantei-me e fui ao quarto.
Comecei a arrumar as roupas em silencio.

Ele veio atrás.
Por favor não vais embora.

Não lhe voltei o olhar.
Onde vais?
Para casa da minha mãe.

Estás a exagerar

O exageras aparece quando a verdade incomoda.

Respondi baixo:
Não exagero. Não consigo viver num triângulo.

Ajoelhou-se.
Vou bloqueá-la. Vou acabar com tudo. Juro.

Olhei-o, pela primeira vez.
Não quero que bloqueies por minha causa. Quero que bloqueasses porque tens limite. Porque és homem. E tu não tens.

Ficou calado.

Peguei na mala.
Parei à porta e disse:
O pior não é o que escreveste. O pior foi deixares que eu fosse amiga de quem aos poucos tentava tirar-me do lugar.

E saí.

Não porque desisti do casamento.
Mas porque recusei lutar sozinha por algo que devia ser dos dois.

E pela primeira vez em anos, disse a mim mesma:
Prefiro a dor de uma verdade à falsa calma de uma mentira.

E tu? O que farias no meu lugar perdoarias se não fosse física, ou isso já seria traição para ti?

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Tenho 30 anos e aprendi que a traição mais dolorosa não vem dos inimigos. Vem de quem te chama de “m…