Tenho 27 anos e vivo numa casa onde estou sempre a pedir desculpa por existir. O pior é que o meu ma…

Tinha vinte e sete anos quando lembrança ficou gravada: vivi numa casa em Lisboa onde constantemente pedia desculpa por simplesmente existir. O mais assustador era ouvir o meu marido dizer que isso era normal.

Estava casada fazia dois anos, com o Diogo. Não tínhamos filhos. Não por falta de sonho sonhava com crianças, família mas sempre disse, desde o início: primeiro temos de construir um lar verdadeiro. Um espaço de serenidade. Respeito. Paz interior.

Só que, no nosso lar, a paz desapareceu faz muito tempo.

E não foi por falta de dinheiro. Nem pelo trabalho do Diogo. Nem doenças graves ou tragédias.

Tudo começou por causa de uma mulher. Dona Amélia, a mãe do Diogo.

Achava, no princípio, que ela era apenas rígida. Controladora. Daquelas mães portuguesas de antigamente, sempre com opinião pronta e mãos a mexer.

Tentei ser simpática. Agradável. Engolir em seco.

Dizia-me: Ela é mãe dele com o tempo acalma vai aceitar-me só preciso de esperar.

Mas o tempo não trouxe acalmia, apenas coragem à dona Amélia.

Quando me humilhou pela primeira vez, foi coisa pequena. Disse, como quem brinca:
Vocês, jovens esposas querem tanto respeito

Sorri, desconfortável, evitando conflito.

Depois vieram as ajudas.

Aparecia para deixar frascos de doce, trazer bolos, dizer que vinha saber como estava.

Mas fazia sempre igual: inspecionava. Tocava em tudo. Perguntava:
Por que está assim aqui?
Quem te mandou pôr isso ali?
Eu, no teu lugar, nunca faria isso

O pior era que dizia tudo isto diante do Diogo.

E ele nada. Não a contrariava.

Sempre que tentava falar, respondia logo:
Deixa, não faças caso.

Comecei a sentir-me louca.
Parecia exagero. Talvez eu fosse a problemática.

Depois vieram as visitas sem aviso.

Campainha, chave na fechadura. E lá estava ela.

Sempre com a mesma frase:
Eu não sou de fora. Aqui é como minha casa.

As duas primeiras vezes engoli. À terceira, pedi calma:
Dona Amélia, avise antes de vir. Às vezes estou exausta, às vezes passo, outras vezes a trabalhar.

Olhou-me como se eu fosse atrevida:
Tu é que me dizes quando posso visitar o meu filho?

Naquela noite, Diogo fez-me cena.
Como pudeste ofendê-la?

Fiquei incrédula:
Não ofendi. Só pedi respeito.

Respondeu:
No meu lar não vais pôr a minha mãe fora.

O meu lar.
Não o nosso.
O dele.

Desde então, fui definhando.

Deixei de andar à vontade pelo apartamento, sempre à espera da próxima visita.

Não pus música alta.
Não ria com gosto.

A cozinhar, temia críticas.
A limpar, que reclamasse da sujidade.

Pior de tudo: comecei a pedir desculpa sem cessar.
Desculpe.
Não volta a acontecer.
Não era essa a intenção.
Não foi bem assim.
Não quis dizer isso.

E assim, uma mulher de vinte e sete anos pedia desculpa até por respirar.

Semana passada apareceu, na ausência do Diogo.

Eu estava de pijama, cabelo apanhado. Apanhada por uma constipação.

Abriu a porta e entrou, sem tocar à campainha.

Olha como estás O meu filho merece isto?

Não respondi.

Foi à cozinha e abriu o frigorífico.
Não há nada de jeito.

Depois revistou os armários.
Essas chávenas deviam estar noutro lado.

E começou a reorganizar, resmungar, arrumar.

Fiquei quieta.

E, de repente, virou-se:
Vou dizer uma coisa para não esqueceres: se queres ser esposa de verdade fica no teu lugar. Nunca acima do meu filho.

Senti algo quebrar dentro de mim.

Não foi uma lágrima. Nem um grito.

Apenas a certeza de que cheguei ao fim.

Quando Diogo chegou, ela reinava já no sofá. Eu, em voz baixa, pedi:
Temos de conversar. Assim não aguento mais.

Ele desviou os olhos:
Agora não.

Tem de ser agora.

Suspirou:
O que foi desta vez?

Não me sinto bem no meu lar. Ela entra sem avisar. Humilha-me. Fala comigo como criada.

Ele soltou um riso:
Criada? Deixa-te de disparates.

Não é disparate.

Ouvi a voz dela, do sofá:
Se não aguenta, não é mulher de família.

E aconteceu o pior.

Diogo não falou.
Nem uma palavra, sequer em minha defesa.

Sentou-se ao lado dela.
E só disse:
Não faças drama.

Olhei para ele e vi finalmente com clareza.

Não estava entre duas mulheres.
Já tinha escolhido um lado.

Olhei para a Dona Amélia. Depois para ele.
Disse apenas:
Está bem.

Não discuti.
Não chorei.
Não expliquei.
Levantei-me e fui ao quarto.

Arrumei a roupa numa mala.
Peguei nos documentos.

Ao sair para o corredor, Diogo levantou-se assustado.
Que estás a fazer?!

Vou embora.

Estás louca!

Não. Acordei.

Dona Amélia sorriu, certa de vitória:
Vais voltar. Não tens para onde ir.

Olhei para ela, serena:
Vocês querem um lar onde mandam. Eu quero um lar onde se possa respirar.

Diogo agarrou a minha mala:
Não vais sair só porque a minha mãe te incomoda.

Olhei nos olhos dele:
Não é por ela que vou embora.

Ele gelou:
Então, por quem?

Por ti. Porque escolheste o teu conforto. E deixaste-me só.

Saí.

E sabem o que senti ao cruzar a porta?

Frio. Sim.
Mas uma leveza imensa.

Pela primeira vez em meses, não precisei pedir desculpa a ninguém.

E vocês, pensariam em ficar por causa do casamento, a aguentar tudo, ou sairiam no exato momento em que o vosso marido já não defendesse o vosso valor?

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