Tamara Ivanovna descobriu que o seu marido estava a ter um caso com a vizinha da casa de campo quando foi lá pedir sal emprestado para conservar pepinos.

Olha, deixa-me contar-te o que aconteceu este verão lá na aldeia sabes aquela zona onde todos têm a sua casinha de campo, uns metros de horta, filas de tomates e feijão verde… Pois foi lá que a Maria das Dores apanhou uma daquelas surpresas de novela.

Ela tinha ido bater à porta da vizinha ao lado, a Dona Eugénia, para pedir um pouco de sal grosso estava a preparar os pepinos para os pôr de conserva, como só ela sabe fazer. Mas quem lhe abriu a porta, espantado e já meio apressado, foi o António, o marido dela! De cuecas e camisola interior, ali mesmo, de peito feito.

O que é que tu fazes aqui, António? mal conseguiu a Dores perguntar.

Ele ficou branco como cal, depois corou, depois lá voltou à cor normal.
Ó Dores… eu… deixa-me explicar…

Atrás dele, deu à costa a Dona Eugénia, já viúva há uns bons anos, com um roupão mal apertado, enfim, percebes a cena.
António, quem é? perguntou ela, até ver a Dores ali especada. Ai nossa Senhora…

Os três ali à porta, com cara de quem se engasgou com uma espinha de sardinha. A Dores deu meia volta, saiu disparada, quase a correr para o portão do quintal.

Dores! Espera! O António, nem se lembrou que ia praticamente só de cuecas, saiu atrás dela à rua.

Toda a rua do bairro das casas de campo, doze quintais enfileirados, ficou a espreitar pelas janelas e portas. O senhor António, o presidente da associação dos hortelãos, a correr atrás da mulher quase nu, um verdadeiro espectáculo.

Isto hoje está melhor que a televisão! resmungou o senhor Manuel do lado.

A Dores entrou em casa, bateu com a porta e trancou-a. O António ficou do outro lado, a bater a pedir perdão.

Dores, abre! Deixa explicar…

Há quanto tempo? gritou ela da cozinha.

O quê?

Há quanto tempo é que andas com ela?

O António calou-se. Depois respondeu, baixinho:
Dezoito anos.

A Dores deixou-se escorregar encostada à porta até sentar-se no chão. Dezoito anos! O Tiago, o filho mais novo, tinha precisamente dezoito…

O portão rangeu e a Eugénia entrou já compostinha, de cabelo puxado atrás e um vestido decente.

Dores, temos que conversar disse ela, sentando-se ao lado da vizinha no degrau do alpendre. O António ficou ao largo, envergonhadíssimo.

Dezoito anos! repetiu a Dores, de olhos fixos no chão. Como é que isso aconteceu?

Lembras-te quando estiveste nas costas, operada? respondeu a Eugénia. Estiveste dois meses internada no Hospital de Santa Maria.

A Dores lembrou-se aqueles meses em que tudo ficou por fazer: as conservas, os tomates, os legumes… E achou estranho como é que o António tinha aguentado.

Eu fui ajudando continuou a Eugénia. No campo, na comida. E depois…

Foi acontecendo rosnou o António.

Dezoito anos! gritou a Dores, levantando-se. Dezoito anos a fazer-me de parva!

Ninguém te fez de parva respondeu a Eugénia, também a levantar-se. Viveste a tua vida, nós a nossa.

A vossa?! Ele é meu marido! Pai dos meus filhos!

E então? Alguma vez deixou de ser teu marido? Alguma vez faltou comida aos filhos? A casa alguma vez esteve ao abandono?

A Dores quase lhe acertava com a mão, mas o António segurou-lhe o braço:
Dores, não faças isso!

Não me toques!

Ela entrou e trancou a porta. Do lado de fora já se sentia o burburinho dos vizinhos, todos prontos para comentarem a desgraça alheia.

Dispersar, que já acabou o circo! ordenou o António, mas ninguém arredou pé.

À noite, a Dores ficou sentada na varanda, o António a dar voltas ao quintal.

Dores, diz qualquer coisa…

Dizer o quê? Vamos divorciar-nos?

Divorciar? Temos sessenta anos!

E então? Só se divorcia quem é novinho, é?

Dores, são quarenta anos juntos!

Dezoito deles a traíres-me com a Eugénia.

Vivi sempre contigo! Só que… de vez em quando ia lá.

De vez em quando?!

Bem… duas vezes por semana, talvez.

Duas vezes por semana durante dezoito anos não é ‘de vez em quando’, António. É um calendário fixo.

Ele sentou-se em frente a ela:
Dores, tu és a minha mulher, nunca deixei de te amar. Só que a Eugénia… é diferente.

Melhor?

Não melhor. Só diferente. Contigo falo de casa, dos filhos, dos legumes. Com ela desligo-me deste mundo todo.

E eu? Também queria desligar! Mas cá estou eu a fazer doces e conservas!

Pois claro! Tu estás sempre ocupada, não tens tempo para sentar e beber um copo, conversar.

A mim só falas de trabalho, dos filhos, dos netos…

Com ela falo da vida. De livros, sabes?

A Eugénia lê? espantou-se a Dores. Ela, simples, das aldeias do Minho.

Lê sim. E sabe poesia.

A Dores abanou a cabeça. O António e poesia…

E agora?

Agora, sei lá. Como tu quiseres.

Eu? E tu?

Dores, tenho sessenta e dois anos. O que é que achas que eu vou fazer nesta idade? Só quero sossego.

Mas com quem? Comigo ou com ela?

O António não respondeu logo. Depois encolheu os ombros e disse:
Não dava para ser com as duas?

A Dores pegou na primeira coisa que estava à mão um frasco de pepinos e atirou. Não lhe acertou, os pepinos esbardalharam-se contra a parede.

Vai à tua vida!

O António saiu claro que foi direitinho para casa da Eugénia.

Nessa noite, a Dores mal dormiu. Pensou nos quarenta anos juntos, nos filhos, netos, na vida partilhada, nas férias, na casa erguidas a pulso. E nos dezoito anos de mentiras.

Ou seriam mentiras? Ele nunca jurou fidelidade eterna, nunca prometeu mundos e fundos. Limitou-se a viver. Com ela, e com a Eugénia.

Na manhã seguinte, lá apareceu a senhora Zélia do lote cinco, com um bolo de laranja.

Oh Dores, ânimo!

Obrigada, mulher.

Se precisares, o Manel dá um aperto ao António, mete-o na linha!

Deixa lá, Zélia. Não somos crianças.

Mas o que vais fazer?

Ainda não sei, mulher.

Eu já o tinha posto na rua. Traidor!

Ó Zélia, e o teu lá de casa não vai ao galinheiro da Lurdes do terceiro lote?

A Zélia ficou encarnada.

O quê?

Vi-os juntos na latada.

Isso… estavam só a ver as couves.

De braço dado?

A Zélia saiu a bater com a porta.

Por volta do almoço, lá veio o senhor Manuel.

Dona Maria das Dores, olhe… ajudo-lhe a lavrar o terreno, se precisar de força.

Não precisa, senhor Manuel. Obrigada.

Era só porque o António pediu-me para avisar que passava cá à noite buscar as coisas dele.

Quais coisas? As cuecas?

Ele não especificou, eu só transmito.

À noite, realmente, o António apareceu envergonhado, com um embrulho.

Venho buscar as coisas.

Leva.

A Dores foi atrás dele.

António… mas porquê a Eugénia? O que vês tu nela?

Ele parou.

Não sei… Com ela sinto-me importante.

E comigo não?

É diferente… Tu sabes sempre o que fazer, o que dizer, quando plantar batatas, quanto dar de prenda aos miúdos. Ela depende de mim. Pergunta-me tudo.

E tu gostas de te sentir útil?

Mais do que esperto, é isso.

A Dores sentou-se na cama.

António, eu também não sei tudo. Por exemplo, não sei como se vive quando se descobre isto.

Dores…

Não sei que cara hei de fazer aos filhos. O que digo aos netos, quando perguntarem por ti.

Não digas nada!

Não. O Tiago chega amanhã, com a mulher e o bebé. E agora?

Diz que discutimos, pronto.

O António sentou-se.

Dores, não podemos fingir que nada aconteceu?

Como?

Pronto… Fazemos de conta.

A Eugénia ao lado, tu vês-na todos os dias, e faz de conta?

Mas o que propões tu?

A Dores foi até à janela. Do outro lado, a Eugénia regava os pepinos com o mesmo roupão.

Olha… vive onde quiseres. Mas se os netos perguntarem, explicas tu.

Dores!

E este ano as conservas fazes tu.

Eu não sei!

A Eugénia ajuda-te. Ela é tão letrada, desenrasca-se.

O António saiu com o embrulho. Os vizinhos todos de olhos postos nele.

De noite, a Dores ouviu barulho. Lá fora, quem era? O António a rondar a estufa.

Que fazes tu?

Vim ver os tomates. Dizem na rádio que amanhã vai estar um calor dos infernos. Tenho de abrir aquilo, senão morrem.

Ó António, já foste embora.

Mas os tomates são meus! Criei-os do nada!

E então?

Então não deixo morrer nada do que plantei!

Abriu a estufa e desapareceu pelo portão.

Na manhã seguinte, chegou o Tiago, a nora e o bebé.

Mãe, onde está o pai?

Está em casa da vizinha Eugénia.

A visitar?

Não, está a viver lá.

O Tiago caiu no banco.

Como assim?!

A Dores explicou tudo, sem rodeios.

Dezoito anos?! Então quando o bebé nasceu, já…?

Já.

O Tiago foi confrontar o pai e voltou passado pouco tempo, furioso.

Ele diz que vos ama às duas!

Que sorte a minha, hein?

Mãe, talvez até seja verdade?

Achas possível? Tu conseguias amar duas mulheres?

Eu? Não, mas eu não sou o pai…

O neto veio a correr:
Avó, porque é que o avô agora dorme na casa da tia Eugénia?

Porque está a ajudá-la na horta, filho.

O Tiago riu-se.

Mãe, és terrível!

Nessa noite, o António estava de novo de regador na mão.

António, estás doido?

Isto está tudo seco! Não posso deixar morrer os meus legumes!

Vai regar o quintal da Eugénia!

Ela tem lá o dela. Mas este… é o meu.

A Dores pegou no outro regador.

Vamos despachar isto juntos, antes que piore.

Regaram em silêncio e sentaram-se no banco em frente à horta.

António, a sério, qual das duas amas mais?

Dores, que pergunta é essa?

Quero mesmo saber.

A vocês as duas, mas de maneiras diferentes.

Explica.

Tu és como a minha mão direita: sem ti não funciono, és a casa, é o pão na mesa. Ela é como uma festa, acontece raras vezes, mas é especial.

E se eu não existisse?

Cruzes Dores, não digas isso.

Mas diz lá, casavas-te com ela?

Não… Acho que não. A festa deixava de ser festa, passava a ser rotina.

Então precisas das duas?

Parece que sim.

Ficaram ali a olhar as estrelas.

António, talvez também mereça uma festa.

O António saltou do banco.

Festa? Qual festa?

Um namorado! Olha, o Manuel pôs-se logo disponível…

O Manuel?! Vou-lhe mostrar…!

Vais mostrar o quê? Dormes agora na Eugénia!

Isso é diferente!

Diferente porquê?

Tu não és assim.

Sabes lá tu quem sou eu. Se calhar leio poesia clássica também.

Não lês.

Posso começar.

Ele levantou-se, mais sério.

Dores, diz lá: afinal, o que queres tu?

E ela, parada, pensava: voltar a como era antes? Isso já não dá. Não dá para voltar atrás.

Quero paz. Quero continuar a fazer conservas. Cuidar dos meus netos.

E mais?

Mais nada. Vive onde quiseres. Mas não mintas mais.

E se o Manuel aparecer?

Não vai aparecer. Ele anda enrolado com a Natália do nono lote.

Como sabes isso?

António, não sou cega. Só fui calada, como toda a gente aqui.

No dia seguinte, o António veio com as malas.

Posso mesmo voltar, Dores?

A cama está no anexo. Enches o colchão de ar e dormes lá. Arranjas-te como puderes.

Ele foi buscar o colchão. Os vizinhos a espreitar, de ouvido em riste. A Eugénia só regava os pepinos como se nada fosse.

O Tiago saiu cá fora.

Mãe, o pai voltou?

Está a encher o colchão no anexo.

És um anjo, mãe! Perdoaste-o?

Não. Sou só parva, já é tarde para mudar.

Passadas umas semanas, o António voltou para casa. Passados meses, a Dores já nem repara quando ele vai à vizinha duas vezes por semana. Ao fim de um ano, ninguém na rua falava disso.

Havia histórias novas. A Lurdes do terceiro lote foi viver com o Pedro do quinto, e a Zélia trocou de casa com a mulher da Lurdes.

A Dores meteu mais uns frascos de pepinos em conserva. O António entretia-se a construir uma nova estufa. Do outro lado, a Eugénia lia um romance ao fim da tarde.

Afinal de contas, o que é o amor? É viver quarenta anos juntos, criar filhos, erguer uma casa, plantar um jardim.

E aceitar que perfeição não existe. Nem sequer no amor.

Sobretudo no amor.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Tamara Ivanovna descobriu que o seu marido estava a ter um caso com a vizinha da casa de campo quando foi lá pedir sal emprestado para conservar pepinos.