Surpresa em Portugal: cadela encontrada numa casa abandonada alimentava criaturas inesperadas, e não cachorrinhos

As pessoas ficaram espantadas: uma cadela num casarão abandonado não alimentava filhotes

Hoje foi um daqueles dias em Lisboa em que o céu ameaçava chuva, mas acabou por não cair nada de jeito. Trazia os sacos das compras do Pingo Doce sem entusiasmo e as pernas já me pesavam. Não ajudava a saudade da minha neta Mariana, que prometeu telefonar-me e evaporou-se, nem a humidade deste inverno tão instável um dia chove, no outro está tudo enlameado. Ia perdido nos meus pensamentos, até que tropecei na calçada escorregadia e quase fui ao chão.

Virei-me de repente uma cadela ruiva, magra de meter dó, atravessava-me as pernas numa pressa desalmada, com um pedaço de pão na boca. O pelo era só nós e, coitada, via-se-lhe as costelas todas.

Onde vais tu com tanta pressa, desgraçada? saiu-me mesmo sem querer.

Nem me ouviu. Ia tão focada, parecia que a esperavam algures. Apertei o passo atrás dela, curiosidade a remoer-me.

Aposto que tem cachorrinhos, deve estar a cuidar deles algures murmurei para mim. Está quase primavera, começam a nascer por todo o lado.

Continuei caminho, mas aquela cena não me saía da cabeça. Algo ali não batia certo.

No dia seguinte, igual: a cadela atravessava de novo o largo com o pão entre os dentes, sempre na direção do casarão abandonado no topo da rua, onde em tempos viveu a Dona Serafina. Já lá vão uns seis meses desde que ela morreu. A casa ficou às moscas, uma tristeza.

Ó Dona Marta, está aí a tua amiga ouvi gritar a vizinha Palmira da varanda. Todos os dias a mesma coisa. Onde é que ela vai buscar o pão?

Sei lá eu, respondi, parando a olhar a cena.

Vê lá bem, traz sempre qualquer coisa na boca. Anda nos contentores, só pode. Deve ser para os filhotes.

E tens a certeza que são filhotes?

Então não são? Estes bichos só pensam nisso quando a primavera vem.

Assenti, mas as dúvidas já fervilhavam. Filhotes fazia sentido Mas algo ali escapava-me.

Vi a cadela sumir-se por uma fenda no muro do casarão e hesitei.

“Que disparate, Marta Mas pronto, se é para calar a língua do bairro, vou eu ver”, convenci-me.

Espremi-me pela mesma abertura gemendo do ferro enferrujado. Dentro do quintal, o mato ia até à minha cintura; cacos de vidro, tralhas velhas, uma miséria.

De dentro, ouvi um choro baixo, quase imperceptível.

Fui seguindo o som, dei a volta ao barracão meio caído e gelei.

A cadela ruiva estava ali, parada junto a uma velha casota. À frente dela, presa a uma corrente curta e ferrugenta, uma cadela preta, já com o focinho grisalho.

Sem ver.

Os olhos brancos, baços, o corpo só osso e pó. A cadela preta jazia de lado, a respirar devagarinho.

A ruiva pousou o pão à frente dela com todo o cuidado, empurrou-o com o focinho. A preta, hesitante, foi tateando até conseguir trincar.

A ruiva ficou sentada, sem abanar o rabo só a vigiar.

Quando o pão desapareceu, a ruiva lambeu-lhe devagar o focinho e deitou-se ao lado dela.

Eu ali fiquei, plantado, sem saber se chorava ou não.

Meu Deus ela alimenta-a. Mesmo ela própria cheia de fome, reparte.

Não faço ideia quanto ali fiquei. Só despertei quando a ruiva ergueu o olhar na minha direção, com aquele ar de: E agora, ajudas ou atrapalhas?

Espera aí, sussurrei.

Pus-me num trote que já não lembrava, joelhos a gemer, mas o impulso levou-me até casa. Lá, saí a catar comida: frango cozido, arroz, fiambre, agarrei numa tigela de água e enfiei tudo num saco.

Enquanto voltava, tudo estava igual: a ruiva deitada junto à cadela cega.

Vá, ofeguei, pousando-me. Agora é connosco.

Dei frango à ruiva, mas ela nem tocou. Só tinha olhos para a amiga preta.

Tu és maluca? Também precisas de comer, magrinha como estás.

Percebi finalmente. Pus a carne à frente da preta. Ela animou-se, tateou e devorou o frango.

A ruiva engoliu em seco; só quando a preta estava saciada, ela foi buscar os restos.

Assim mesmo murmurei.

Ambas beberam água devagar. Olhei-as e limpei as lágrimas.

Ó palerma, o que choramingas? ouvi de repente. Era a Palmira, espreitando pelo muro.

Quando percebeu a cena, arregalou os olhos.

Afinal era isto! Não eram filhotes que ela alimentava.

A Palmira ficou em silêncio, depois suspirou:

Quem deixou cá esta infeliz?

Deve ter sido a Serafina. Tinha-a presa, morreu, ninguém quis saber da cadela.

Seis meses sozinha

Seis meses sozinha aqui presa ao frio. Só a ruiva lhe trazia comida. Todos os dias.

A Palmira sentou-se ao meu lado, passou-lhe a mão na cabeça.

Mereces medalha.

Ao fim da tarde, o bairro todo estava ali. Umas levaram pão, outras cobertores velhos. Os homens tentaram cortar a corrente, mas era grossa demais.

Amanhã trago a rebarbadora, decidiu o senhor Álvaro.

No dia seguinte, cumpriu e novo ajuntamento no quintal.

Calma, Álvaro! avisava a Palmira. Não a assustes!

A rebarbadora fazia faiscas, a preta tremia, mas, finalmente, a corrente cedeu.

Pronto! Está livre! suspirou ele, suando.

Baixei-me devagar, fiz-lhe uma festinha na cabeça.

Vais comigo, sim? Dou-te comida e calor. E levo a ruiva também. Ficas comigo?

A cadela preta mexeu o rabo um bocadinho, a cara cheia de gratidão.

Tentei pegá-la, mas era pesada.

Deixa, ajudo eu disse o Álvaro, debruçando-a ao colo, Onde mora?

Terceiro andar, porta vinte e um.

Atravessámos o pátio em silêncio. A ruiva vinha atrapalhada, colada às nossas pernas.

Calma, amiga, sussurrei-lhe, levo-vos às duas.

À porta do prédio, o grupo habitual das reformadas fazia sentinela.

Ó Marta, o que é isso? disparou a Dona Otília, arregalando os olhos. Levas os cães pra casa?

Levo.

Estão todos cheios de pulgas! Vão tresandar!

Dou-lhes banho.

E os vizinhos? O que vão dizer?

Que digam o que quiserem! atirei, sem me conter. A preta esteve aqui meses presa, cega e a morrer à fome, e ninguém viu nada! Só esta ruiva é que notou. E nós? Passámos sempre ao lado!

Sentei-me exausta. As vizinhas baixaram o olhar.

Não sabíamos, murmurou uma. Morreu a Serafina, ninguém quis saber do cão.

Pois é! sequei as lágrimas. Ninguém quis saber!

Entrei, o Álvaro foi atrás de mim, a ruiva nunca largava o nosso lado.

Em casa, puz um cobertor no chão, e o Álvaro deitou a preta com cuidado.

Pronto, suspirou. Precisa de mais alguma coisa?

Não, obrigada. Dou conta do recado.

Quando fechei a porta, apoiei-me contra ela. A ruiva sentou-se junto à preta, olhos fixos em mim. Aquela expressão tão cheia de agradecimento apertou-me o coração.

Bem, suspirei. Vamos lá às apresentações. Eu sou a Marta. E vocês?

A ruiva latiu baixinho.

Vais chamar-te Riscada. E tu tu serás Pretinha. Está feito.

Levei-lhes comida, puz frente à Pretinha. Ela cheirou, mas hesitava o medo ainda forte.

Vá lá, incentivei-lhe, oferecendo um pedacinho à boca.

Ela pegou-o com doçura na minha mão.

Boa menina, murmurei. Come tudo.

Fui dando os pedaços, com calma. A Riscada observava, até que me pousou a cabeça no colo. Foi ali, senti: era mesmo gratidão.

À noite, ligou-me a Palmira.

Então, tudo bem aí?

Está, dormem as duas.

E tu?

Nem por isso. Fico a pensar.

Pensar em quê?

Parei um pouco.

Em nós, pessoas, que por vezes somos piores que os animais. Se não fosse esta cadela, a preta morria aqui sozinha. Nós nem reparamos não queremos ver.

Anda, descansa lá.

Não consigo, Palmira! Não consigo! Sinto vergonha, entendes? Vergonha mesmo!

Desliguei, sentei-me junto das cadelas a dormir; dei por mim a chorar baixinho.

Uma semana depois, a Pretinha já se levantava, embora trémula. A Riscada nunca a largava guia-leal.

Tens aqui uma guia de primeira, Pretinha! dizia-lhe eu.

A história espalhou-se como fogo; a Palmira tratou disso.

Já ouviste a Marta? cochichavam as vizinhas. Ficou com dois cães!

Dizem que uma ficou cega e presa meses.

E a outra cuidava dela! Imagina!

Que bonita amizade!

Sempre que saía com elas, alguém sorria e outro abanava a cabeça.

Marta, tu sim, és gente de verdade, elogiou o Álvaro.

Eu? Nada, disse-lhe. Quem merece isso é a Riscada. Só não fechei os olhos a tempo.

Numa tarde, bateram à porta. Era uma jovem, com ar simpático.

Desculpe, é a Dona Marta?

Sou eu. Quem é?

Chamo-me Leonor. Ouvi falar das suas cadelas. Queria saber se posso ajudar, sou veterinária. Posso ver da Pretinha? Não cobro nada.

Fiquei desconfiado:

Nada mesmo?

Nada. Só quero ajudar. Posso entrar?

Leonor examinou a Pretinha devagar, depois explicou:

Ela é idosa, doente. Não volta a ver. Mas pode viver bem, com bons cuidados.

E quais são?

Ela deixou-me vitaminas, remédios para as articulações, creme para as patas. Tudo explicado.

Quanto lhe devo, doutora?

Nada, é oferta minha. Pela história bela que o bairro todo ouviu.

Os olhos humedeceram-se-me de novo.

Muito obrigado.

A si. Por elas.

Quando fechou a porta, sentei-me. A Pretinha encostou-se aos pés, a Riscada deitou-se encostada a mim. E pela primeira vez em muitos anos, senti-me sinceramente necessário.

E aprendi ali: os cães sabem cuidar uns dos outros. Pior somos nós, que tantas vezes preferimos passar ao lado em silêncio. Mas nunca é tarde para ser mais verdadeiro.

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