Lembro-me ainda como se fosse ontem, apesar de já terem passado tantos anos. Era uma manhã pesada em Lisboa, com o céu carregado de nuvens cinzentas e o ar húmido, avisando de chuva grossa iminente. Já sentia que o tempo ia virar, mas decidi insistir e terminar, finalmente, o que andava a adiar há semanas: cortar os ramos secos da velha macieira que crescia encostada à casa dos meus avós.
Logo cedo, coloquei a escada junto ao tronco, com toda a precaução, certificando-me de que não balançava. Subi uns quantos degraus, sierra em mão, pronta para tratar daqueles ramos teimosos. De repente, senti algo puxar com força as minhas calças por trás.
Virei-me, surpreendida, e dei por mim a olhar para o meu fiel cão, Gaspar, que tentava quase subir atrás de mim, as patas a escorregar nos degraus metálicos, as unhas a fazer barulho, e aqueles olhos enormes presos nos meus, cheios de ansiedade.
Então, Gaspar, o que te deu? sorri nervosa. Vai para lá, não faças disparates.
Afastei-o com a mão, mas ele não arredou pata. Antes pelo contrário, subiu mais um pouco, cravou as patas dianteiras na escada e, sem hesitar, agarrou as minhas calças com os dentes, puxando com insistência.
Quase perdi o equilíbrio.
Estás doido, Gaspar? Larga! resmunguei, já irritada.
Mas ele continuou firme, puxando para baixo, ladrando e insistentemente a tentar impedir que subisse mais. Aquilo não era brincadeira. Nunca lhe tinha visto aquele olhar.
Por um instante, confesso que fiquei furiosa e tentei forçá-lo a sair dali. Mas nem assim. Senti que havia mais qualquer coisa, que ele tentava avisar-me de algo.
Ainda fiz menção de subir mais, mas mal pus o pé no degrau seguinte, Gaspar puxou de tal forma que tive de segurar rapidamente a escada com as duas mãos, antes que caísse.
Suspirei, vencida, e comecei a descer.
Chega, Gaspar! Se não te calmas, vou-te pôr no quintal! disse, meio a brincar, meio a sério.
Gaspar encolheu a cabeça, como se entendesse a repreensão, mas levei-o mesmo ao cercado e fechei o portão. Voltei depois à escada, convencida que, agora, nada me ia atrapalhar.
Mal pus o pé no primeiro degrau, ouvi um estalo seco acima da minha cabeça.
O barulho ecoou alto, como madeira a partir. Olhei instintivamente para cima e vi, horrorizada, uma enorme rama seca a soltar-se da macieira.
Caiu precisamente onde, um segundo antes, estava o meu corpo. Estatelou-se no chão com estrondo, escaqueirando-se em pedaços a poucos centímetros de mim.
Fiquei ali, colada ao sítio, sem força nas pernas, o coração a bater tão rápido que mal conseguia ouvir outra coisa. Só então percebi tudo Gaspar não fazia birra, nem brincava; salvava-me.
De alguma forma, Gaspar pressentiu o perigo antes de mim. Talvez tenha ouvido o crepitar dentro do tronco, ou quem sabe sentiu a árvore a ceder. Vi-o a olhar para mim através da rede do quintal, atento, a cauda a abanar suave, como se esperasse finalmente que eu percebesse.
Aproximei-me, abri a porta, ajoelhei-me ao lado dele. Gaspar veio logo encostar-se, quente e protetor.
Abracei-o e, com a voz embargada, murmurei:
Salvaste-me a vida, Gaspar.
Desde esse dia, nunca mais ignorei os instintos do Gaspar, nem os sinais que a vida me foi dando.







