A Leonor estava deitada no sofá, perdida a olhar para o teto. Preocupações rodopiavam-lhe na cabeça e não a deixavam adormecer. Como é que se pode dormir quando a sua menina, a sua vida, está doente? Porque é que a levei ao infantário? pensava. Se ficasse mais um dia ou dois em casa, talvez não tivesse apanhado esta doença O coração apertou-se-lhe no peito, faltava-lhe o ar. Levantou-se lentamente e aproximou-se da janela. O céu cinzento, carregado de nuvens, pairava pesado sobre a vila. Já era o terceiro dia seguido com aquela chuva miudinha, chata, típica do outono. Suspirou, cansada.
Na cama, Matilde mexeu-se entre sonhos, gemeu baixinho e tossiu. A mãe foi rapidamente até ela, tocou-lhe na testa a arder. Mesmo sem termómetro sabia que a febre voltara em força. Com gestos silenciosos, pegou no termómetro e colocou-o debaixo do bracinho da filha.
Quarenta graus! Meu Deus, o que faço eu agora?
Matilde abriu os olhos.
Mamã, está tanto calor
Já vai passar, meu amor. Aguenta mais um bocadinho.
O Telmo, marido de Leonor, acordou também e foi sentar-se ao lado. Leonor, nervosa, preparava nova dose de xarope para baixar a febre, mas de pouco serviu. De madrugada, as luzes azuis da ambulância iluminaram o pátio da vila. Levaram Leonor e Matilde para o hospital de Vila Real.
A enfermeira olhou com pena para a mãe pálida e assustada, afagou-lhe o braço e, com mãos experientes, espetou a agulha com soro no bracito da Matilde.
Vai correr tudo bem, não se preocupe murmurou.
Leonor apenas suspirou, agradecida.
E a verdade é que, passado pouco tempo, Matilde sentiu-se melhor. Pediu água. Leonor virou-se e notou que, na cama ao lado, uns grandes olhos azuis, muito abertos, observavam-na. Eram de uma menina franzina, com cabelos loiros embaraçados, semi-transparentes de tão fina, não lavados há dias. Tinha uma t-shirt desbotada e collants com buracos nas extremidades. Debaixo da cama, estavam uns ténis velhos em sacos plásticos azuis, em vez de chinelos.
Olá.
Boa tarde. Vocês chegaram esta noite?
Sim, foi esta noite.
Como se chama?
Eu chamo-me Leonor, e esta menina é a Matilde. E tu?
Eu sou Benedita.
Já estás aqui há muito tempo?
Sim. Vou embora já na sexta-feira.
Ainda falta. Hoje é só segunda
A tua mãe está contigo?
Não a minha mãe faleceu quando era pequena o meu pai começou a beber e também já não está cá. Levaram-me para o lar, é lá que vivo. Aqui gosto muito mais dão bom comer e os maiores não me batem
Levantou-se e calçou os ténis.
Daqui a pouco é o pequeno-almoço. Quer que traga para vocês?
Não é preciso, querida, eu trato disso
Leonor ficou a olhar para a menina, e uma tristeza funda tomou-lhe o peito. A vizinha da frente, que assistiu ao diálogo, comentou baixinho: Boa rapariga, a Benedita. Um doce. Teve é azar na vida
Leonor nem teve tempo de responder; o telemóvel tocou.
Estou? disse ela.
Como está tudo aí, filha? E a Matilde?
Mãe, estamos no hospital.
Ai, meu Deus, o quê?!
Não te preocupes. A febre subiu muito, mas agora está melhor. Acham que é bronquite. Está a dormir.
A mãe soluçou do outro lado: Coitadinha da minha menina Em que hospital estão? Vou já para aí. Queres que leve alguma coisa?
Mãe, esqueci-me dos chinelos e do pijaminha cor-de-rosa da Matilde. E mãe aqui está uma menina do lar. Podes trazer champô, sabonete? E lembras-te das coisinhas da Sónia, estão aí por casa?
Que menina, filha?
Depois conto. Traz duas camisolas, um roupão, leggings, e sobretudo uns chinelinhos, para menina de seis anos, pode ser?
Claro que sim, querida.
No dia seguinte, Matilde já estava mais animada e brincava com a nova amiga. Leonor foi falar com a enfermeira.
Desculpe, ninguém vem visitar a Benedita?
Não. Só vêm buscar-la no dia da alta.
E ela pode ir ao banho?
A enfermeira sorriu, com tristeza: Não só pode, como precisa. Só que, aqui, nem sempre há tempo
À noite, foi com alegria que Benedita apareceu toda lavadinha, de pijama bonito, e chinelos cor-de-rosa com uns cãezinhos bordados. Irradiava felicidade. Guardou tudo com cuidado debaixo do colchão.
Benedita, porque escondes as tuas coisas? perguntou Leonor, admirada.
Para não me roubarem
Leonor só conseguiu suspirar, pesarosa.
Quando apagaram as luzes, Benedita fechou os olhos e sonhou acordada: via-se a andar por uma rua cheia de sol e árvores, de mãos dadas com Matilde e Leonor. Sonhava ter uma mãe e um pai. Que a embalassem, lhe dessem beijos de boa noite, que a lavassem, vestissem um pijama quente. Sonhava com um pai a fazê-la rir, lançando-a no ar numa gargalhada feliz. Imaginava toda a família junta e ela a ajudar a lavar a loiça, a brincar com Matilde, a aprender a ler e contar. Só queria ser amada. Só queria ter uma mãe
Suspirou. No lar, não a maltratavam, mas a educadora, Dona Helena, raramente mostrava carinho. Os meninos gozavam e roubavam-lhe coisas ou comida. Uma vez, Benedita deixou cair um prato de sopa e, como castigo, ficou trancada num quarto escuro, cheio de pó. O Zeca troçou: Agora vais dormir com os ratos! Benedita sempre temeu ratos. Chorou muito, com medo, sozinha na penumbra. Ao anoitecer, caída no chão gelado, apanhou uma constipação que a levou ao hospital
As lágrimas correram-lhe pelo rosto ao recordar tudo isto, até que sentiu uma mão acariciar-lhe a cabeça. Abriu os olhos.
Dona Leonor
Não chores, meu anjinho vai ficar tudo bem vais ver
Num ímpeto, Leonor abraçou-a.
Não chores, querida minha
Benedita acalmou-se. Sentiu-se, enfim, amada, como se fosse a própria mãe a abraçá-la.
Dona Leonor
Sim, querida?
Quem me dera que fosse minha mãe
Os olhos de Leonor encheram-se de lágrimas. A decisão foi tomada ali, de coração. Só faltava conversar com a família.
A mãe de Leonor compreendeu de imediato e apoiou-a, tal como a sogra, que também crescera sem pais. Só Telmo não partilhou logo do entusiasmo.
Estás maluca? Sabes o que isso significa para a vida toda?
Sei. E também sei que, se não o fizer, vou arrepender-me todos os dias da minha vida. Tu percebes isso?
Ele desviou o olhar.
Quero conhecê-la.
Vais conhecer.
Nessa noite, foram juntos ao corredor. Telmo pegou Matilde ao colo, beijou-a.
És a minha alegria. Tantas saudades
Virou-se para a esposa, que lhe sorriu e disse: Olha, Telmo, esta é a Benedita.
A menina acenou e ergueu os seus grandes olhos para o homem.
Olá, senhor!
Olá, Benedita! Muito prazer.
O prazer é meu
Qualquer coisa tocou o coração de Telmo. Olhou para Leonor, os olhos húmidos. Acenou afirmativamente.
Poucos meses depois, estacionou um carro à porta do lar de crianças. Leonor e Telmo saíram. Pela janela, as crianças acenavam.
Benedita, Benedita, vêm-te buscar!
Radiante, Benedita correu para os novos pais.
Olá, Benedita! Viemos por ti! Vamos para casa?
O coração pequenino, tão sedento de felicidade, bateu forte: Sim, mamã! Sim, mamã! Sim, papá!
Leonor ajoelhou-se, recebeu-a nos braços, sentiu aqueles bracinhos finos apertarem-na com toda a força. Matilde estava ali ao lado, de mão dada à irmã nova, sorrindo, já cúmplice de segredos e brincadeiras.
Telmo embalou-as, abraçando as duas meninas ao mesmo tempo. Depois, de mãos dadas, os quatro saíram do portão. No céu, a chuva tinha enfim parado. Uns raios de sol irrompiam por entre as nuvens e as folhas das árvores brilhavam, lavadas, como se o mundo começasse de novo.
No carro, Benedita encostou a cabeça ao ombro de Leonor, o olhar pousado na estrada que se desenrolava adiante, levando-a para casa. Pela primeira vez, sentiu que o futuro podia ser bonito que a esperança, afinal, podia vencer.
E assim, entre sorrisos, histórias inventadas e promessas sussurradas, Benedita começou a escrever, na família que a escolheu, o seu próprio capítulo de felicidade. E soube, naquele instante, que já não precisava de sonhar com um lar: estava, enfim, mesmo a viver nele… de verdade, e para sempre.







