Sérgio comprou o melhor ramo de flores e foi para o encontro. De bom humor, esperou junto à fonte, c…

8 de junho

Hoje acordei com uma ansiedade gostosa. Resolvi comprar o melhor ramo de flores da florista do bairro, junto à praça da Ribeira, e preparei-me para o encontro com a Matilde. Fiquei ali, de espírito leve, junto ao chafariz da praça, segurando as flores, e sentia-me todo esperançado. Mas Matilde não aparecia. Procurei-a com o olhar e, meio sem jeito, liguei-lhe. Não atendeu. Deve estar atrasada, pensei, e liguei mais uma vez. Desta vez, atendeu.

Então Matilde, já chegaste? apressei-me eu a perguntar.
Está tudo acabado entre nós! respondeu ela, de repente.
O quê? Mas porquê? fiquei sem reacção.
Por causa do teu ramo! disse ela, de um jeito que me desarmou.
O que tem o ramo, Matilde? insisti, perplexo, sem perceber o motivo.

Voltando atrás na manhã, ainda me lembro bem da aflição na florista. Margaridas brancas, gerberas cor-de-rosa, lírios, crisântemos em jarros, tudo arranjado com um requinte que só a D. Lurdes sabia fazer. Mas eu, perdido entre tantos cheiros e cores, não conseguia decidir.

Sabia que Matilde tinha uma conversa acerca de flores que me passou completamente ao lado. Lembro-me vagamente de ela falar que detestava algumas, mas noutras podia perder-se a olhar durante horas mas, verdade seja dita, nesse nosso primeiro encontro no Café Coimbra, eu mal lhe prestei atenção. Aquela alegria de conhecer alguém novo, um fino a mais, o som do fado baixinho ao fundo, e ali estava eu, deslumbrado não só com a conversa mas com o brilho do seu cabelo, o decote elegante, os olhos grandes e vivos.

Importava mesmo o nome das flores? O que interessava era o clima daquele fim de tarde. Não consegui, por mais que tentasse, lembrar-me das preferidas dela.

Veja aqui estas gerberas, senhor! Raras, é um lote especial, nem parecem de Junho! insistia a D. Lurdes.

Estava já na hora de decidir e, como sempre, nesse minuto crucial, sofri mais uma chamada da minha mãe. Ela tem ligado mais do que o habitual.

Ó Miguel, ficaste indeciso? Olha que é sexta-feira, podias vir cá passar o fim-de-semana?

Agora não posso, mãe. Há coisas por resolver…

O teu avô está sempre a perguntar por ti, está desejoso. Só olha para a porta

Mãe, desculpa. Sério, tenho tanta coisa em mãos

E desliguei, a sentir aquela pontada de culpa que já se tornara hábito. Sei que queria que eu fosse até Vilarinho, ver o meu avô e ajudá-los. Eu amava a minha mãe, adorava o meu avô, mas a minha cabeça andava noutro sítio.

As preocupações eram outras. Pensava na Matilde, como fazer com que as coisas avançassem. Se hoje tudo corresse bem, podia convidá-la a ir passar um domingo na Quinta do Alvito, perto, discreta, convite que ela, esperava eu, não recusaria.

O diabo da minha memória Que flores seriam mesmo? E há sempre aquela resistência: será assim tão importante? Será que as mulheres se lembram mesmo dessas minudências?

A D. Lurdes, que já se fartava das minhas hesitações, ficou calada, a ver se eu decidia de uma vez.

Matilde falou sobre espinhos de rosas Talvez não deva levar rosas.

Decisão tomada, agarrei num ramo de gerberas grandes e cor-de-rosa, um gesto simples, só um mimo. Estava quase na hora de voltar ao escritório; o almoço acabava em minutos.

Marcámos encontro junto ao novo chafariz dos Clérigos. Eu ainda me atrasei, o chefe meteu uma reunião inesperada e tudo ficou ao contrário mas vinha com o coração leve, especialmente porque o chefe tinha dado a entender que, em breve, me podia calhar uma promoção.

Avisei Matilde por mensagem do atraso e, quando comecei a ver a chamada da minha mãe enquanto estava na reunião, não dei sequer por ela. Tinha mais em que pensar.

Corri para o encontro. O sol já declinava, a cidade cheirava a manjerico e brisa atlântica, e eu, ramos na mão, cheguei à praça.

Matilde não estava. Esperei, dei voltas à fonte, tentei ligar. Nada. Sentei no banco, inquieto. Talvez estivesse atrasada.

Lembrei-me de que não tinha ainda respondido à minha mãe. Hesitei: talvez Matilde ligasse naquele instante. Esperei mais dez minutos e liguei-lhe eu.

Desta vez atendeu.

Matilde, onde estás? Já estou aqui à espera.
Eu sei que estás. Estou no café em frente, no primeiro andar. Já vi-te há muito.
Sério? Não te vejo. Queres vir cá fora?
Chegaste tarde… cortou ela.
Desculpa, Matilde, mas liguei a avisar. O trabalho prendeu-me, foi imprevisto.
E as flores!
O que têm as flores? perguntei, perdido.
Nem te lembras sequer das que eu gosto!

Não havia aquelas hoje! tentei argumentar.
Rosas! As minhas preferidas, que estão em todo o lado! Falei-te tantas vezes das minhas rosas… E tu

Eu posso remediar Vou já aí ter.

E, sem saber bem o que dizer, entrei no café. Matilde estava sentada, de costas, junto à janela, fria como nunca a vira. Aproximando-me, nem me atrevi a entregar-lhe o ramo; deixei-o em silêncio na mesa. Ela nem olhou.

Sempre fui dado à palavra, mas, agora, usei toda a minha lábia para tentar corrigir o erro. Pareceu resultar. Ela acalmou, até sorriu.

Tomámos um café, conversámos meia dúzia de coisas banais e saímos, sem que ela sequer tocasse nas flores.

Esqueceram isto! veio atrás de nós uma empregada jovem, simpática, segurando o ramo.
Fique com ele, é para si! disse-lhe eu, a sorrir.

Oh, obrigada! a surpresa no rosto dela disse tudo. Viu-se encantada.

Mas Matilde emburrou de novo.

Matilde, eu posso comprar-te já um ramo enorme de rosas
Deixa. Não preciso de mais flores hoje, obrigada.

Descemos as escadas ao silêncio, eu atrás dela, derrotado. Nessa altura, chamada da minha mãe.

Estou a ligar numa má altura?
Matilde nem ouviu.

Não, mãe, estás a ligar mesmo no momento certo. Amanhã vou aí.

Despedi-me de Matilde naquele momento. Nenhum de nós fez esforço, já estava tudo decidido. Sabia bem não nos voltaríamos a ver.

No dia seguinte, fui conduzindo, pela estrada fora, entre campos verdejantes e nuvens brancas de papoilas e malmequeres. Um manto infindável de natureza envolvia-me.

Parei junto ao campo, saí, deixei-me perder naquela paleta viva de cores. Escolhi, como a D. Lurdes na florista, algumas flores selvagens, compus eu próprio um ramo para levar aos meus.

Tinha a certeza: àquele destino, nunca me enganava.
Quando cheguei à casa, dividi o ramo em duas partes.

A minha mãe, radiante, abraçou-me, beijou-me as faces como antigamente. O avô, com mãos trémulas, recebeu as flores com uma alegria contida, os olhos húmidos por detrás dos óculos.

Há quanto tempo não recebia flores! Sentou-se, cheirou o ramo, fechou os olhos e, num instante, via-se que regressava aos campos de infância, à juventude, à promessa da vida.

Agarrei-lhe na mão, sentei-me ao seu lado, deixei a cabeça tombar-lhe no colo. Ela foi-me acariciando, receosa de estragar as flores do neto

Ali, soube que, um dia, iria conhecer uma mulher como a minha mãe e a minha avó, e que nos amaríamos com aquela ternura de quem sabe olhar e sentir o outro. Bastava saber perceber o momento certo.

A avó, como sempre, hesitou antes de dar parte das flores à minha mãe:
Espera Vai buscar água ao poço uma jarra larga põe com cuidado, deixa aqui, quero ver

Ofereci um simples ramo. Flores do campo, como há milhares, mas essas essas eram especiais, porque partiram de mim.

Hoje, compreendi: para quem nos ama de verdade, não interessa tanto o tipo de flor, mas o gesto e o tempo juntos. E essa lição fica comigo.

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Sérgio comprou o melhor ramo de flores e foi para o encontro. De bom humor, esperou junto à fonte, c…