Sem Volta: Um Caminho Sem Retorno

Sem caminho de volta

Esperança pousou a chávena na mesa e olhou para o marido. Ele estava no corredor, diante do espelho, ajeitando o colarinho da camisa nova. Era justa, com um padrão de quadradinhos pequeno, dessas que os miúdos de vinte e poucos gostam de usar, não homens que dentro de um mês fazem cinquenta primaveras.

Jorge, vais trabalhar ou tens outro plano qualquer?

Claro que vou trabalhar. Para onde mais iria?

Só estava a perguntar. Nunca te passaste por aí com uma camisa dessas.

Virou-se a olhar para ela. O olhar diferente do costume, quase impaciente, como se ela fosse um obstáculo em vez de mulher.

Esperança, as pessoas renovam o guarda-roupa. É normal.

Eu não disse nada.

Exacto. Não dizes nada, mas olhas.

Vestiu o casaco. Não o velho, cinzento, que já pairava no cabide há sete anos, mas sim um novo e azul-escuro, mais curto, que combinava ironicamente com a camisa de rapaz. Esperança acompanhou-o com o olhar, suspirou, pegou na chávena e foi até à cozinha. Estamos em início de março, aquele março típico de Lisboa cinzento, molhado, só falta alguém cair num buraco de tanto desespero. No parapeito da janela morava um vaso de sardinheira, que ela regava pontualmente todas as terças-feiras. As folhas de um verde vivo, aquele cheiro forte, de casa cheia. Esperança encostou a testa ao vidro e lembrou-se da última vez que ela e Jorge foram juntos a algum lado. Outubro. Ao teatro. Adorou a peça, ele calado o caminho todo de regresso a casa.

Vinte e cinco anos. Ela já desistira de contar quantos dias dariam.

Esperança trabalhava na contabilidade de uma pequena empresa de construção na Amadora. Lugar calmo, gente na sua quase sempre igual, até os computadores são mais antigos do que o chefe. Respeitavam-na. Tratavam por D. Esperança até os mais velhos. Ela era certeira, pontual, nunca chegava tarde nem saía antes. Em casa também reinava a ordem: trocava a toalha da mesa todos os domingos, sempre o mesmo linho riscado, lavadinho e passado. O robe macio, cor de leite morno, já vai para três anos, e em perfeito estado. Gostava dos seus rituais: à noite livro, chá, e compota de groselha preta que fazia em agosto. A vida bem alinhada, como um vestido por medida: nada a mais, tudo no lugar.

As mudanças em Jorge começaram pelo Carnaval. Matrícula num ginásio, não fosse alguém confundir-lhe a cintura com um gasómetro. Normal, não fosse o tom: não disse quero cuidar-me, disse cansei-me de ser um trambolho. Esperança nem pestanejou. Homens antes dos cinquenta são um livro aberto: crise de meia-idade, pesos, dietas, a tentar provar ao mundo (e a si próprios) que ainda são uns galãs. Fosse antes isso do que outro vício.

Depois veio o perfume. Doce, meio em químico, nada daquela madeira discreta que ele usava. O hall cheirava a duty free depois da sua passagem. Esperança leu o frasco nome inventado, francês, preto com prata. Deixou como estava, que ali não era museu para analisar embalagens.

Novas camisas, depois jeans justinhos, aqueles com rasgões em sítios onde só adolescentes se atrevem. Viu por acaso quando organizava o armário. Voltou a pendurá-los, fechou a porta e fingiu que não era nada consigo.

Em março começou a demorar mais. Primeiro uma vez por semana, depois carregava a dose: jantar com colegas, “tenho de acabar um projeto”, fui ao bar com o Augusto. Esperança acenava com a cabeça. Anos de confiança não se escoam num mês, vinte e cinco anos são mais do que número, são músculo de acreditar. Ou eram.

Havia uma dor surda, doce, meio nostalgia, como dor de cicatriz depois do banho frio.

Em abril, reparou que o telemóvel não largava o bolso. Antigamente esquecia o telemóvel até na casa de banho. Agora desaparecia com ele debaixo do braço. Se tocava, afasto para o corredor. Um dia ela entrou na cozinha justamente quando ele virou o ecrã para baixo, perguntando logo se precisava de ajuda para o jantar. Ele, que achava que cortar cenoura se fazia num casino.

A grande amiga, Leonor desde os tempos de Engenharia, trouxe tranquilidade como um furacão:

Esperança, não queres ver? Clássico. Crise de homem. O meu comprou uma mota aos quarenta e oito, andou de cabedal três meses e vendeu tudo a seguir. É esperar passar.

O Jorge não é desses…

São todos, até serem.

Leonor, não inventes.

Olha, só estou a avisar.

Esperança olhava cada vez mais e percebia cada vez menos. Jorge jantava, dormia, conversava sobre a torneira a pingar, tudo igual mas diferente. Não era rude, nem ausente, simplesmente lá, mas sem estar. Como quem almoça na cantina, mas sonha com bifana noutro lado.

Perguntou-lhe numa noite, chá e biscoitos em cima da mesa.

Jorge, está tudo bem contigo?

Normal.

Tens andado distante…

Ele não levantou os olhos da chávena.

Cansaço. O trabalho está puxado.

Só queria saber.

Está tudo bem.

Maio trouxe calor, as petúnias no parapeito, compradas ao mesmo velhote do mercado de Benfica de todos os anos. Vermelhas, brancas só podiam ser escolhidas para combinar com qualquer camisa. Era a sua fatia de prazer, nada de exigências ou perguntas.

Jorge chegou várias vezes perto da meia-noite nesta fase. Jantares de negócios. Ela não contestava. Ficava a ouvir o ranger do soalho e a torneira discreta na casa de banho, como se ele pedisse licença até ao silêncio.

Finalmente, num daqueles serões, atirou o incómodo sobre a mesa.

Jorge, tens outra pessoa?

Pausa. Dois segundos. Três. Longos para um claro que não dizer-se sem hesitar.

Porque perguntas?

Só perguntei.

Esperança, não inventes coisas.

Está bem. Não perguntou mais.

Sentiu, nesse dia, dentro de si alguma coisa deslocar-se. Não partir, não cair. Só mudar de sítio, como o sofá arrastado para o lado errado.

No verão, Jorge “dormiu em casa de um amigo” uma, duas vezes, três… Ela embalava a camisa no saco, calada. Pensava se afinal Leonor não tinha razão. Pronto, uma crise. Isso passa. Homens nestas idades perdem-se. Depois voltam. Não se deita vinte e cinco anos ao lixo como se fosse meia velha.

A meio de julho, sentou-se à frente dela, à mesa da cozinha. A tal camisa de quadradinhos, de jogador de padel, de março, bem colorida. Pousou as mãos, entrelaçou os dedos, olhou para a janela onde morava a sardinheira. Esperança, chá na mão, pensou: Pronto, chegou a peça final do puzzle.

Esperança, temos de falar.

Então fala.

Vou embora.

Baixou a chávena. O chá ainda quente, cerâmica a ferver nas mãos.

Vais para onde?

Ela chama-se Inês. Tem vinte e dois anos. Conheci-a há seis meses.

Alguém regava os vasos no prédio ao lado. Água a pingar compassada.

Desde fevereiro disse Esperança.

Mais ou menos.

Quando começaram as camisas novas.

Esperança…

Não é acusação, é inventário.

Ele esperava lágrimas, drama, qualquer coisa que o deixasse sair “em vantagem”. Mas ela largou-lhe a tristeza tão seca como uma torrada.

Tu não percebes insistiu ele. Preciso de voltar a sentir que estou vivo. Que tenho futuro. Olha para nós. Virámos velhos.

Tens quarenta e nove anos, Jorge.

Pois.

Não te percebo.

Levantou-se. Deu umas voltas. Pousou a chávena na banca da cozinha excesso de energia sem saber onde a meter.

Somos só vizinhos, Esperança. Sempre a mesma coisa. Toalha, sardinheira, chá à mesma hora. Isto não é viver. É marasmo.

É casa, disse ela baixinho. Foi o que construí em vinte e cinco anos.

Eu sei. E agradeço. Mas já não dá.

Olhou para ele pela primeira vez como se fosse, de facto, estranho em casa própria. “Será que foi sempre assim?”, pensou.

Levas as tuas coisas já hoje?

A pergunta caiu como prego. Ele, apanhado de surpresa.

Não… depois vou buscar.

Como quiseres.

Ergueu-se, deitou o resto do chá fora, sem pressa, apoiou a chávena junto à dele. Pano de louça, secou as mãos, saiu da cozinha. Abriu a janela. Ar quente, cheiro a asfalto e a tília do jardim. Respirou fundo. Amanhã tinha de regar as petúnias e já não havia azeite.

Nestes momentos, a lista do supermercado salva mais do que qualquer psicólogo.

As primeiras semanas pareceram um clube de silêncio. Não pesadas em modo de não conseguir sair da cama, mas tudo soava diferente ao vazio. O espaço ocupado pelos pertences dele, o cabide, a prateleira da casa de banho tudo esvaziado. Comprou um cabide novo só para pendurar a mala e tapar o buraco físico.

Leonor apareceu logo ao sábado seguinte, com um empadão de bacalhau (de quem sabe onde está a vida) e ficou até ao escurecer.

Então, como estás?

Normal.

A sério?

Sim. Mal, mas normal. Percebes a diferença?

Percebo Leonor suspirou. Ao menos explicou?

Disse tudo. Que está velho, que entrei num pântano contigo.

Pântano…

Uhum.

Isso é problema dele. Só dele.

Mais chá. A cozinha aquecida, a luz do candeeiro, o empadão já só restos. Esperança pensou: saber fazer casa não se esquece. Só que agora não serve para dois.

Leonor, ela tem vinte e dois anos.

Eu ouvi.

Não é ciúme, é matemática. Quando eu tinha vinte e dois, ele já era um homem feito. Agora anda atrás de uma da idade que eu tinha nessa altura.

Eles acham que o tempo volta para trás.

Não volta.

Vai perceber isso, não te preocupes.

Esperança calou-se. Pensava que também ela ainda queria perceber alguma coisa, mas não era fácil saber o quê. Por enquanto, andava como móvel de sala puxado um palmo. Tudo igual, mas andar já não era o mesmo.

No emprego ninguém soube de nada, nem ela contou. Apenas repararam que andava mais calada, mas D. Esperança sempre foi de poucas palavras. Uma colega nova, Mariana, perguntou se estava tudo bem. Ela respondeu que sim, só um pouco cansada. Mariana trouxe-lhe um café; há pequenos gestos que valem ouro.

Agosto passou em modo de suspensão. Não bom nem mau. Só suspenso. Fez doce de groselha, como todos os anos, apanhando a espuma para o frasco especial. Este ano as groselhas estavam grandes, doces. As prateleiras cheias, e havia nisso uma paz que não sabia explicar. Era aquilo não dependia dos outros.

Um sábado, Jorge ligou para combinar levar o resto das coisas. Chegou de manhã, passou emburrado pela casa, fez a mala livros, ferramentas, papelada. Demorou-se na cozinha a olhar para a mesa e para a sardinheira.

Como tens andado?

Normal.

Não fiques zangada, Esperança.

Não estou. Estou viva.

Ele fez que sim e foi-se embora. Ela fechou a porta, ouviu os passos a abafar-se nas escadas e foi fazer ovos mexidos. Três ovos, salsa. Comeu, lavou o prato, foi olhar as petúnias. Já estavam quase secas, setembro aí estava.

O divórcio ficou tratado em outubro sem dramas, quase administrativo. Arranjou uma advogada despachada, ainda jovem mas com pinta de quem já viu tudo. O apartamento era dela desde antes do casamento, partilhas nem vê-las. Jorge nem pestanejou a vida nova devia ser mais cara do que negociar pratos antigos.

Saiu do tribunal, parou nas escadas. Céu cinzento, chuvisco. Levantou o colarinho e seguiu à pastelaria. Comprou uma carcaça com sementes de papoila. Em casa fez chá, cortou o pão. Foi lanchar olhando a chuva com a sensação que o outono tem de arrastar tudo consigo.

Lia depois num artigo sobre Psicologia no casamento: o verdadeiro fim começa antes do fim oficial. Sentiu que era verdade, que tudo começou a ruir antes de o notar. Nas conversas mudas no teatro, no telemóvel virado para baixo. Não quis admitir antes. Agora, para quê negar?

Novembro trouxe frio e outro ritmo. Inscreveu-se finalmente nas aulas de aguarela, na Casa de Cultura do bairro, todas as quartas à noite. Cheiro a papel, a tinta, ninguém a conhece; podia ser quem quisesse. A professora, de argolas prateadas, atirava-lhe:

Dê mais cor à vida! Não seja tão certinha, o papel aguenta!

Esperança achou que era conselho para muito mais do que para a pintura.

Leonor ligava todas as semanas, às vezes vinha. Falavam de livros, notícias, receitas. Pouco a pouco, Jorge desaparecia dos temas, e Esperança sentia-se feliz com isso não por indiferença, mas porque o espaço da dor estava a ser ocupado pela vida cotidiana.

Às vezes, pensava nesta pergunta clássica o que fiz de mal? e, honestamente, não sabia o que poderia ter feito de diferente. A casa em ordem, fiel, trabalhadora, calma. Talvez esse tenha sido exatamente o erro achar que bastava.

Depois, deixava o pensamento ir. Não sabia o que faria de diferente, e pronto.

O inverno caiu com chuvadas. Comprou botas novas, bordô, baixas, leve salto. Uma colega disse que lhe ficavam bem. Pequena coisa, mas sorriu o dia inteiro.

Janeiro. Toca o telefone, Leonor do outro lado.

Esperança, senta-te.

Estou junto ao fogão. O que foi?

Sabes do Jorge?

Não falo com ele.

Teve um ataque. Coração. A sério. Foi no Urban, numa discoteca! Caiu na pista, ambulância e tudo.

Está vivo?

Está. Internado, mas está. Pelo que se diz, o estilo de vida não lhe estava a fazer bem. Sempre a noitada, miúda nova, ginásio, corridas… o corpo não aguenta eternamente.

Pois…

Que vais fazer?

Ainda não sei.

Ficou ao pé da janela, a ver nevar. No pátio, putos faziam um boneco de neve. Tentava decifrar o que sentia. Medo? Alguma pena? Sobretudo, lá bem no fundo, alívio por estar em casa, não ali.

No dia seguinte, ligou para o hospital. Internamento estabilizado, visitas permitidas.

Ao fim do dia, fez um saquinho. Água mineral, maçãs, bolachas caseiras. Costumava ter sempre uma dose extra no congelador. Lá foi.

No hospital, cheiro a desinfetante, a calor artificial e nervos no ar. Receção, a enfermeira mostra-lhe o quarto Jorge à janela, só, uma sombra da camisinha de março.

Magro, ombros caídos, olheiras. Não parecia galã rejuvenescido parecia um homem gasto por festas a mais.

Viu-a ficou confuso.

Esperança!

Olá, Jorge.

Pousou o saco no criado-mudo, sentou-se.

Não pensei que vinhas.

Vim.

Olhou-a, havia tudo nos olhos dele, mas ela já não precisava de entender.

Como te sentes?

Melhor. Ontem foi mau. A Inês disse que vinha, não apareceu.

Esperança olhou para as maçãs.

Eu sei.

Como?

Sou mulher.

Fechou os olhos, ficou calado. Depois:

Fui burro, Esperança.

Foste.

Não é talvez. É mesmo. Julguei… enfim. Queria sentir-me jovem, ser olhado assim outra vez.

Percebo.

Depois vi que era só um cota com algum dinheiro.

Esperança não respondeu. O céu estava limpo, gelo no beiral.

Quero pedir-te desculpa.

Agora não é tempo. Recupéra-te.

Eu precisava. Estive a comparar-te, quando devia ter prestado atenção a ti. Tu construíste casa, eu chamei-lhe pântano. Foi injusto.

Olhou para as mãos dele, as mesmas durante vinte e cinco anos.

Esperança, quero voltar.

Silêncio à altura.

Ouves-me?

Ouço.

Quero voltar para casa. Sem ti não… Percebi que era ali que estava, não noutro sítio.

Ela levantou-se, foi à janela. Uma rola pousada no galho, quieta.

Pensou o que sentia? Procurou emoção no fundo dela e só achou paz. Não era frieza, nem raiva. Só paz. O tipo de alívio de quando finalmente pára de doer.

Jorge, vais ficar melhor. Vais recuperar.

Falo de outra coisa.

Eu percebi. E fico feliz por teres percebido. Mas eu não vou voltar.

O rosto dele tremeu.

Porquê?

Custava-lhe não ser má, mas também não mentiria.

Porque te tenho pena. Porque me preocupo, mas não é o que é preciso para se viver junto. Percebes?

Mas podias…

Não. Há coisas que não voltam. Não porque não quero. Porque já não existem mais. O poço secou.

Esperança, por favor.

Vim trazer-te maçãs e água. Isso é sincero. Voltar ao que foi, não posso. Não porque estou magoada. Apenas acabou.

Ele fechou os olhos, ficou apenas ali. Depois, baixinho:

Percebo.

Ainda bem.

Pegou no casaco, ajeitou o colarinho.

Vou avisar a enfermeira. Liga ao teu filho, ele não te deve nada, mas merece saber.

Estamos afastados…

Liga.

Pegou na mala, parou à porta:

As maçãs são boas. Come.

Saiu, fechou a porta devagar.

No corredor, aquele cheiro a hospital. Desceu as escadas, sentiu o frio e o cheiro de rua na cara. O silêncio e a luz clara de janeiro. O som do chão sob as botas novas. Seguiu para a paragem do autocarro.

O autocarro veio rapidamente, entrou, sentou-se junto à janela. Lisboa a correr do outro lado do vidro. Árvores despidas, gente com sacos do Pingo Doce, candeeiros cinzentos, tudo normal.

Pensou que o pior não é quando um homem vai para uma mais nova o pior é o depois. O que fazer dali para a frente? Nada de vinganças, nem ficar à espera. É construir, passo a passo, o dia de amanhã. E custa.

Pensou em quarta-feira. Aula de aguarela. Este mês é paisagem de inverno mistura de azul e cinzento nas sombras. Devia sair melhor. E se não saísse, tudo bem.

O autocarro parou no seu bairro. Saiu, ajustou a gola do casaco, seguiu para casa. Viu a farmácia, a padaria, o jardim com baloiço sem crianças. Subiu ao seu andar, girou a chave. Cheiro a casa, leve e limpo. Tirou as botas, calçou os chinelos. Foi até à cozinha. Viu a toalha de linho, ajeitou o canto.

Pôs água no bule, pegou na chávena. Acariciou a folha empoeirada da sardinheira. Amanhã limpo isto, pensou.

O bule chiou.

Serviu o chá, sentiu as mãos aquecidas. Na rua, os candeeiros acendiam um a um como sempre em janeiro, cedo e a contragosto.

Bebeu o chá, pensou: Sexta tenho de ir ao mercado comprar leite e ovos. Mais maçãs, para fazer tarte que a Leonor tanto pede. É isso sexta vai ao mercado.

E quarta, pinta neve à maneira dela.

***

Lá fora, Lisboa de janeiro continuava a barafustar e viver à sua maneira. Ali dentro, na cozinha com a sardinheira no parapeito, era só silêncio. E era o seu silêncio. Não o cedia a ninguém.

O telemóvel na mesa ele podia ligar, pedir outra vez. Ela sabia que atenderia, que perguntaria pela saúde dele, recomendaria obedecer aos médicos. Porque não sabia ser de outra forma.

Mas voltar, não voltava.

Sabes uma coisa, Dona Esperança disse para si, voz nítida na cozinha vazia. Não era um pântano. Era vida. Só não era a tua.

Bebeu o resto do chá, lavou a chávena. Ligou o candeeiro baixo. Detestava luz forte para ler.

Pegou no livro, voltou à página marcada. Do outro lado da janela, começava a nevar devagar.

A sardinheira, firme. A toalha, alinhada.

Tudo no seu lugar.

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