Saída da Cozinha
Dona Mariana, pôs de novo a panela no lugar errado disse o Guilherme, o cozinheiro mais novo, com as mãos sempre húmidas, apontando com a cabeça para a prateleira sobre o lava-louça . Aqui é só para limpos. Os sujos ficam ali.
Guilherme, eu já trabalho aqui há três meses. Já sei bem onde ficam os limpos, onde ficam os sujos.
Ainda bem. Então, coloque no sítio certo.
Mudei a panela, calada. Já não tinha forças para discutir, desapareceram como a minha antiga vida, a cadeira na redacção, o candeeiro com abajur verde que tanto gostava, e o pequeno ateliê que tive de entregar a uns estranhos para pagar os tratamentos da mãe, as injeções, a cuidadora.
A noite decorria normalmente no restaurante Solar do Douro. Do salão, para lá da parede, vinham vozes e gargalhadas, o tilintar de copos e o cheiro a carne cara com molho de vinho tinto. Eu estava diante do grande lava-louça de inox, a lavar pratos empilhados, ainda quentes, manchados de restos de comida a que já não podia sequer aspirar. Tinha as mãos vermelhas da água, o avental molhado até à cintura.
Pensava muitas vezes no meu bloco de desenho. Estava guardado no cacifo, lá no balneário pequeno, de argolas, com uma capa mole cor de erva seca. Comprei-o em fevereiro com o que restava do adiantamento, porque sem ele já não aguentava. Sem desenhar, perderia o tino, esqueceria quem sou. Mulher de cinquenta e sete anos a lavar pratos? Talvez sim por fora. Por dentro, sou outra coisa.
À noite, no quarto alugado da Rua das Flores, com o velho radiador a ressoar como uma panela, vizinhos barulhentos atrás da parede, sentava-me à mesa com a luz do candeeiro e desenhava só para mim. As mãos, cansadas da água quente, recuperavam milagrosamente a precisão. Desenhava ruas, passantes, a velha vizinha do cão, um ramo gelado visto pela janela, o rosto da empregada do supermercado, cansado e bondoso. As linhas fluíam leves, como se a mão ainda recordasse tudo, mesmo quando a cabeça duvidava.
Durante cerca de vinte anos fui ilustradora. Comecei numa pequena revista, depois na editora Alvorada, a fazer livros infantis. Adorava desenhar coelhos e raposas como se fossem pessoas disfarçadas em peles e sentimentos, inventando as suas manias, receios. Adorava receber as edições e folhear: este foi meu.
Depois veio a crise. Primeiro, cortaram tiragens. Depois, o departamento. Por fim: Dona Mariana, gostamos muito do seu trabalho mas Nunca vem coisa boa depois do mas. Aos quarenta e quatro fiquei sem emprego, sem controlo sobre a vida, a custo de chão a fugir-me dos pés.
A relação já estava por um fio nessa altura. O Júlio, meu marido, era bom homem, mas sempre fraco nos momentos decisivos. Com dinheiro, era generoso. Sem ele, tornou-se irritadiço, azedo, foi arranjando desculpas para chegar a casa cada vez mais tarde. Custou-me muito a acreditar, até não conseguir mais. Separámo-nos, discretos, como quem se despede cansado demais para discutir.
Depois a minha mãe adoeceu.
Acidente vascular cerebral lado esquerdo. Hospital, depois casa, depois mais hospital. Todos os dias cruzava o Porto inteiro, pagava cuidadoras, remédios, tratamentos. O que ganhava como freelancer era incerto e insuficiente. O ateliê tornou-se luxo impossível. Desisti. Procurei trabalho certo, com salário fixo. Lavei pratos porque era o que havia.
A mãe morreu em outubro passado. Calada, no sono como se se cansasse. Fiquei sozinha, mergulhada em dívidas, num quarto alugado e a lavar pratos cinco dias por semana.
Assim cheguei aqui.
Dona Mariana, já há outra pilha, gritou Guilherme ao fundo.
Já vou.
Peguei no tabuleiro e fui até ao lava-louça.
Nessa noite, os clientes do Solar do Douro eram como sempre. Senhoras com vestidos, homens de blazer. Por vezes grupos de jovens barulhentos, outras, casais que nem se olhavam, cada um no seu telemóvel. Eu via-os só através do som. Do lado de cá da porta inox, limitava-me a ouvir: vozes, risos, discussões ocasionais.
Mas havia um cliente especial. Vinha quase todas as semanas. Só sabia dele porque a Beatriz, empregada de mesa, contou-me num intervalo:
O senhor ali da mesa seis, sempre sozinho. Pede sempre o mesmo, come devagar, nunca mexe no telemóvel. Só olha a janela. Estranho.
Talvez seja só solitário, respondi.
Eu também sou sozinha, mas pelo menos sento-me com amigas!
Não discuti. Há solidões diferentes a de não ter com quem ir, e a de estar no meio da multidão e continuar sozinho, por já não haver quem entenda o que carregamos por dentro.
Vinha todas as quartas e sextas. Pedia borrego ou novilho, um copo de tinto, às vezes sopa. Deixava sempre gorjeta generosa, sem ostentação. Chama-se António Simões, soube-o depois. Na altura, só lavava os seus pratos e pensava no meu bloco.
Nessa sexta-feira tudo correu como sempre. Eu, na pia; a água a ferver, o vapor a picar-me os olhos, Guilherme ao telefone num canto, a lava-louças a vibrar. O som suave das conversas do salão.
De repente, apercebi-me de algo diferente. Não soube logo o quê, apenas senti qualquer coisa mudou. Após um grito curto, assustado, as vozes tornaram-se mais intensas, preocupadas. Um grito a sério.
Limpei as mãos ao avental e fui ao corredor. A porta metálica para o salão estava entreaberta. Empurrei-a.
Na mesa seis, o senhor robusto, cabelo grisalho, fato cinzento-escuro com expressão de pânico. Não caía, mas tentava respirar, mãos ao pescoço. Reconheci imediatamente o gesto: engasgamento. Uma vez, com o vizinho de cama da minha mãe, foi igual.
Dois empregados, de olhos arregalados, batiam-lhe nas costas sem saber o que fazer. A gerente, Dona Matilde, uma mão à boca: Alguém chame o INEM! Alguns clientes levantaram-se.
Aproximei-me, sem pensar só agi. Atrás do senhor, envolvi-o com os braços, fechei o punho sobre o abdómen, cobri com a outra mão e puxei para cima, com força: uma, duas, três vezes. Era pesado, quase me pendurei nele. Até tossir e expelir o que o sufocava. Primeiro arfou, depois foi recuperando a respiração.
Soltei-o e recuei um passo.
Foram três segundos de silêncio. Depois, um reboliço de vozes. Dona Matilde correu ao homem, Beatriz trouxe-lhe água. Um cliente aplaudiu logo outros imitaram.
Ali fiquei, no meio do salão, com o avental encharcado e mãos vermelhas, sem saber bem o que fazer dali.
É enfermeira? perguntou Matilde.
Não. Lavo loiça.
Virei costas e fui para a cozinha.
As mãos tremiam levemente à torneira. Guilherme olhava-me, boquiaberto.
O que foi aquilo?
Engasgamento. Já passou.
Salvou-o?
Deixa-te disso, há pratos por lavar.
Peguei na esponja, continuei. Montanhas de loiça à espera.
Vinte minutos depois, a porta da cozinha abriu-se coisa rara, aliás expressamente proibida aos clientes. Mas era o homem do fato cinzento. Entrou, olhou em volta, perguntou:
Onde está a senhora que me ajudou há pouco?
Guilherme apontou para mim em silêncio.
Aproximei-me com as mãos ensaboadas, a terminar uma terrina. Só aí olhei para ele de perto: alto, ombros largos, uns cinquenta e poucos, cabelo escuro com fios prateados, rosto cansado, olhos cinzentos, fundos. Uma tristeza antiga no olhar.
É a Dona Mariana? Disseram-me…
Sim.
Ficou calado, procurando as palavras. Por fim, disse de modo desarmado:
Quero agradecer. Não sei como. Só… obrigado.
Não há necessidade, está tudo bem.
Não, não está. Se não tivesse aparecido tão depressa…
Qualquer um teria feito. Bastava saber o que fazer.
Mas foi a senhora. E sabia.
Arrumei a terrina, peguei num prato. Ele não se movia.
Isto é seu? perguntou subitamente.
Olhei. Ele fitava o meu bloco, pousado na bancada. Trouxe-o do cacifo para desenhar no intervalo, mas ainda não tivera tempo.
É.
Posso ver?
Dei de ombros. Pegou nele, abriu. Na primeira página, a velha do cão, a tal que via todas as manhãs. Trabalhei vários dias naquele desenho, pondo rugas, botas pesadas, modo como segura a trela não com força, mas por hábito.
Ele virou mais páginas.
A seguir, um ramo gelado. Depois, um miúdo no baloiço inventado, mas quase real. Um esboço do mercado, corrido mas vívido. Muitas mãos, sempre gostei de desenhá-las, desde a escola de artes.
Virou folhas, demoradamente.
É artista afirmou, não perguntou.
Fui. Agora sou lavadora de pratos.
Porquê?
Muitas razões.
Fez que sim. Passou à página do mercado, fechou o bloco, pousou. Quase foi embora. Mas, em vez disso, disse:
Chamo-me António Simões. Sou arquiteto. Tenho uma proposta, mas primeiro, explique: não consegue mesmo trabalhar na sua área?
Olhei-o, já com curiosidade. Guilherme fingia descascar batatas, mas escutava tudo.
Depende do que chama trabalhar.
Trabalhar mesmo. Receber pelos desenhos.
Olhe, senhor António, acabou de quase sufocar-se. Mais vale ir para casa descansar.
Descanso depois. Mas diga: quer voltar ao seu trabalho, ao de verdade?
Havia uma franqueza estranha nele, não insistente, não de negócio, só direta, limpa.
Depende do que for.
Tirou um cartão simples, só nome e telefone.
Ligue-me amanhã. Ou dê-me o seu número, se preferir. Explicarei tudo. Não é favor, preciso mesmo de alguém com o seu olhar.
Que olhar?
Apontou o bloco.
Esse.
Despediu-se com uma inclinação discreta. Guilherme encarou-me, espantado.
Que cena! murmurou.
Vai mas é descascar batata, respondi.
Guardei o cartão no bolso do avental. As mãos de novo molhadas, a sala ao lado novamente em paz, como se nada fosse.
Passei a noite às voltas na cama, fita a lareira silenciosa, sem conseguir dormir. Pensava no bloco, em como ele vira as páginas. Há tantos anos ninguém olhava assim para os meus desenhos: sem pena, só atento, sem lisonja. Nem sequer elogiou. Só viu. E algo mudava-lhe no rosto ao ver.
No sábado, peguei no cartão, segurei-o muito tempo. Depois, liguei.
Atendeu de imediato, como se esperasse.
Bom dia, Dona Mariana.
Como sabe o meu nome?
Perguntei à gerente. Ontem. Diga-me um pouco de si, se quiser, e explico o projeto.
Falei resumidamente: editora, ilustrações, crise, mãe, divórcio. Depois foi ele.
Tinha fundado o ateliê de arquitetura há doze anos, depois de sair de uma grande empresa. Equipa pequena, projetos diversos, prédios e espaços públicos. Ganharam o concurso para renovar o parque da marginal projeto sério, de peso. Tinha planos perfeitos, mas faltava vida.
Tudo certo nos papéis. Mas olha e sente-se nada explicou. Precisamos de visualizações, de desenhos que mostrem às pessoas onde estarão avós, crianças, leitores à sombra. Percebe?
Percebo.
Vi ontem nos seus desenhos. Sabe dar vida.
Fiquei em silêncio. Perguntei:
Até quando?
Quatro semanas. Apresentação ao município. Se aprovarem, o parque avança. Realmente.
Qualquer coisa mexeu dentro de mim. Mais do que esperava.
Está bem. Quando posso ver os planos?
Hoje mesmo, se quiser.
O ateliê localizava-se num prédio antigo no centro do Porto, no terceiro andar, escadas de madeira e corrimão branco. Salas altas, projetos colados nas paredes, modelos nas prateleiras. Cheirava a papel, lápis e um pouco a café.
Quatro colegas: o Miguel, jovem de auscultadores sempre ao pescoço; a Luísa, cerca de quarenta, corte prático, fazia os cálculos estruturais; o senhor Joaquim, já idoso, encarregue das maquetes; o Hugo, mais novo, do digital.
O António abriu os planos do parque numa mesa, explicou sem rodeios: aqui a alameda, ali o lago, ali a zona das crianças, e eu tentei ver tudo não como linhas, mas como lugares vivos. Vi mentalmente o idoso e o cão cedo, a mãe do carrinho ao meio-dia, dois apaixonados à tardinha.
Posso visitar o local? perguntei.
Claro, quer ir agora?
Quero.
Fomos juntos. Caminhámos uns quinze minutos em silêncio. Levei o bloco. O António avançava devagar, parecia absorver cada detalhe do caminho talvez treino de arquiteto.
A marginal, ao sábado, vazia. Ainda não era bem primavera, árvores despidas, chão cinzento, mas o rio já solto e escuro, pacífico. Havia uns quantos por ali. Onde deveria ficar o parque, apenas dois bancos verdes velhos, duas árvores. Chão batido.
Olhei, abri o bloco.
Vai desenhar agora? perguntou curioso.
Só um esboço. Para fixar o cheiro deste sítio.
O cheiro?
Sim. Rio, terra, folhas. Mais tarde, isso lê-se no desenho.
Ele calou-se. Tracei rapidamente umas linhas margem, árvores, os vultos que passavam, uma mãe, duas crianças.
António ficou mais à beira, a olhar o rio, distante.
A sua mulher gostava destes lugares? perguntei, sem olhar, depois pedi desculpa.
Não faz mal. Ela gostava era do mar, dizia que o rio lhe trazia tristeza por ser lento. Morreu há oito meses, cancro, depressa demais.
Sinto muito.
Obrigado.
Falámos pouco mais. Desenhei. Ventava frio, mas já com cheiro a água, não a gelo.
Voltámos ao ateliê, tomamos café e ele explicou o que precisava: vinte pranchas, várias zonas do parque, diferentes horas do dia, gente real. Não postais, vida autêntica. A comissão tinha de conseguir imaginar pessoas a viver ali.
Percebi. Dê-me uma semana para os primeiros cinco desenhos. Logo vê se serve.
Combinado.
Regressei ao quarto da Rua das Flores. O radiador cantarolava. O bloco pousado na mesa, peguei no lápis: por onde começar?
O primeiro desenho ficou pronto de madrugada alameda pela manhã, quase deserta, um senhor passeando um cão sob as árvores de verde novo, mulher num banco a ler, e ao fundo alguém esbatido. Luz leve, silêncio de aceitação.
No dia seguinte, mostrei o desenho ao António. Observou longo tempo.
É isto. Exatamente isto.
A Luísa, a estruturalista, aproximou-se silenciosa. Após uns instantes:
Muito bom disse, sem adornos.
Não era alegria propriamente, era satisfação sensação de missão cumprida que já não sabia sentir.
As duas semanas seguintes trabalhei sem parar. Ia para a marginal cedo, qualquer que fosse o tempo, observava. Esboçava no local, acabava em casa ou no ateliê. O António revia, às vezes sugeria: Este banco é mais para lá no plano, ou só olhava, calado.
Começámos a conversar noutros registos: sobre trabalho e não só. Às vezes passeávamos juntos pela marginal. Contava-me como idealizou o parque, a lógica de cada caminho, banco ou recanto. Falava como só quem gosta a sério do que faz.
Sabe distinguir um bom espaço público de um mau? perguntou numa dessas voltas.
Como?
Num parque aconchegante, as pessoas escolhem onde sentar; porque ali é melhor, não porque não haja alternativa. Se procuram sombra, a têm. Está bem feito.
Pensa nisso desde quando?
Desde o curso. Um professor ensinou-me: a arquitetura não é prédios, é como nos sentimos neles ou por perto. Nunca esqueci a frase.
Era bom professor.
Faleceu cedo. Mas não me esqueço da voz dele.
Falávamos com frequência destas pequenas coisas. Contei-lhe como foi inventar personagens infantis, sobretudo uma raposa querida, que desenhei para mim e perdi numa mudança. Ele ria-se sem gozo, apenas afeto.
Também tenho um projeto de estima partilhou. Uma casa pequenina no Douro, para um cliente especial. Nada grande, mas ficou perfeita. Lembro-me dela melhor que de obras importantes.
Porquê?
Porque o pequeno acerta onde o grande não chega, talvez.
Certa vez entrámos num café para nos aquecermos. António olhou o vidro, disse de repente:
Não tem ar de quem adora lavar pratos.
Não disse isso.
Então por que o faz há tanto tempo? Podia procurar ilustração.
Instabilidade, António. Um dia há trabalho, no outro não. Com dívidas para pagar…
E agora?
Faltam-me pouco para saldar tudo.
Ele acenou.
Já saiu do Solar do Douro?
Tirei licença sem vencimento até ao fim do projeto.
E depois?
Fitei a chávena.
Logo vejo. Pelo menos sabe que sei desenhar.
Ele fitou a rua. Ficou no ar algo por dizer, mas não forcei.
O ritmo era agradável: marginal de manhã, desenho durante o dia, revisão à noite. Imaginei diferentes cenários: casal no banco a olhar o rio; idosa a dar migalhas aos pombos; jovens de bicicleta; famílias com crianças ao domingo, mulher com carrinho sob uma copa florida.
António pedia ajustes, Esse banco mais para o lado, Faça aqui à noite, temos postes de luz diferentes. Mostrava no plano. Eu corrigia.
Chegámos a discordar:
A alameda está muito direita, António. As pessoas enjoam da monotonia apontei.
Os cabos e condutas impedem curvas.
Ao menos deixem as árvores fora da linha…
Aí, temos de falar com a Luísa.
Ela deixou. No fim, a minha alameda ficou sinuosa, com sombras verdadeiras e canto de surpresa ao fundo.
Assim está bem mostrei.
António olhou, disse:
Tinha razão.
Os colegas foram-me aceitando sem cerimónias. O Hugo, do digital, perguntava porquê desenhar à mão:
As mãos sentem o papel, ajudam a pensar expliquei.
Ele acenou, atento.
O senhor Joaquim, das maquetes, certo dia trouxe-me chá, em silêncio gesto melhor que palavras.
Também houve dificuldades três desenhos da zona infantil não saíam. Desenhei, rasguei, voltei a começar. Só quando fui ao parque do bairro, sentei-me e observei as crianças, as mães distraídas mas atentas, consegui acertar. Copiei as expressões, gestos, correria ficou vivo.
Esses três fiz em dois dias.
Mostrei-os ao António:
São verdadeiros. Onde os foi buscar?
Aqui ao lado, são do bairro.
Nota-se.
Na última semana, tudo quase pronto, apresentação à vista. António esticava horas de trabalho, muitas vezes via luz no ateliê perto das dez da noite.
Um dia, ficámos só nós dois, tarde. Ele ao computador, eu no derradeiro desenho, o silêncio só cortado pelos sons do papel, lápis, o suspiro dele.
Perguntei:
A sua mulher viu este projeto?
O início. Ganhámos o concurso já ela estava doente. Ficou contente, disse que passearia ao parque. Não teve tempo.
Foi por isso que andava cabisbaixo no restaurante, sozinho, a comer sem sabor?
Ele olhou-me.
Como sabe?
A Beatriz contava. Ficava triste por si.
Ele sorriu.
Não fazia ideia que notavam.
Quem está sozinho pensa que ninguém repara. Mas todos veem.
Ficou um momento calado.
Também se sente só?
Senti. Agora, não sei. Tenho trabalho de que gosto, por si só já é muito.
É. Muito mesmo.
Permanecemos um pouco sem dizer nada confortável, não constrangido.
Quando a Gisela se foi, perdi o sentido de tudo. Só falávamos de descanso mais tarde. E depois… depois, nada.
Compreendo. Eu disse o mesmo à minha mãe.
Também partiu?
O ano passado.
Fez que sim. Não perguntou mais, só assentiu, como quem entendeu o essencial.
Saímos juntos nessa noite, já escuro, fresco. Apertei o casaco.
Vai a pé?
Vou de autocarro até à Rua das Flores.
Acompanho até à paragem.
Caminhámos em silêncio. À meio caminho, António falou:
Dona Mariana…
Só Mariana.
Mariana. Depois da apresentação, aconteça o que acontecer, quero oferecer-lhe um lugar fixo connosco. Sempre precisamos deste olhar de quem vê as pessoas nos desenhos. É uma proposta séria.
Parei.
Não é por agradecimento?
Se fosse, trazia-lhe flores. É pura necessidade.
Ri-me, sinceramente.
Vou pensar.
Não demore.
Entrou o autocarro, despedi-me. Ficou ainda na paragem, viu-me partir pelo vidro traseiro.
O dia da apresentação chegou numa quinta-feira.
Cedo, o ateliê fervilhava. Luísa afinava medidas, Hugo preparava ficheiros, o senhor Joaquim trouxe uma maquete final, pequena, impecável, coberta de esponja-verde. António ia e vinha, com café e nervos.
Eu revia os desenhos: vinte e dois, lado a lado. Alameda de manhã; fonte ao sol; parque infantil; a luz noturna; rapaz pensativo no banco; namorados; avó com pombos; chuva sob o toldo; ciclistas.
Nervosa? perguntou António baixinho.
Um pouco.
Estão bons.
Os desenhos ou os jurados?
Os desenhos.
Sorri.
A câmara reunia no grande edifício do centro sala alta, mesa longa, janelas enormes. Oito pessoas no júri, maioria de gravata e cara séria. António abriu com explicação técnica; Luísa interveio, depois Hugo com os modelos 3D.
Chegada a minha vez, António colocou os meus desenhos, um a um, diante da mesa.
Silêncio.
Um dos membros, já de idade, ergueu um, o da alameda, inspecionando:
Isto é desenho? Não fotografia?
Desenho respondeu António , feito no local.
Estão vivos comentou o senhor, mais para ele. Mas ouvi.
As perguntas técnicas vieram a seguir. António respondeu seguro, Luísa complementou. Fiquei ao lado, calada. No final, uma jurada requintada pediu para ficar com o desenho da avó e dos pombos sorri-lhe, sem conseguir evitar.
Deram logo a decisão: aprovado. Com alguns apontamentos práticos, que António aceitou.
No corredor, Luísa apertou a mão ao António, depois a mim. Hugo murmurou “Boa”. O senhor Joaquim, que ficou no ateliê, mandou Parabéns! por mensagem.
António veio por último. Ficámos à janela do corredor, o Porto já verde, gente sem casacos na rua.
É isso, disse.
É, concordei.
Vamos à marginal?
Agora?
Agora. Quero ver o lugar de novo.
Fomos a pé. O Porto vibrava de movimento e cheiro a primavera. António não tinha pressa, eu levei o bloco, já por costume, fazia-me falta sem ele.
Na marginal apanhámos sol e vento. O rio brilhava. Poucos bancos, gente com cães, apenas duas árvores. Mas já me era familiar, desenhei-o vinte vezes. Parecia outro.
Ficámos no remate da margem. O vento crescia, fechei o casaco.
Vai ficar bem arrisquei.
Vai sim.
Silêncio a pairar. Uma mãe com carrinho de bebé passou, apressada, ao telefone.
Mariana, disse ele.
Sim?
Olhou a água, não a mim.
Vivi muito tempo rodeado de gente e ruído. E estava vazio. Percebe?
Percebo.
Estas semanas… não sei explicar. Apetecia-me voltar a levantar-me cedo. Não para trabalhar. Só… para estar.
Fiquei a ver o rio. Corria devagar, escuro, alheio às nossas coisas.
A Gisela preferia o mar, não era? Os rios deixavam-na triste.
Sim.
Eu gosto de lentidão. Desde pequena.
Agora fitou-me mesmo. Notei-lhe o olhar limpo, sem pressões.
Ainda bem que saiu da cozinha naquele dia.
Eu também. Mas nesse momento só pensava que alguém se estava a sufocar.
Pois. Por isso mesmo.
Só depois percebi que já não falava só daquela noite. Ou não só.
António…
Sim?
Não sou hábil nestas conversas.
Nem eu.
Pronto, então estamos quites.
Riu-se, genuíno, pelo que o ouvi pela primeira vez. Um riso baixinho, quente, de quem volta a recordar como é rir.
Mariana…
O quê?
Posso convidá-la para jantar? Não no Solar. Noutro sítio, normal.
O Solar do Douro até tem boa comida.
Sim, mas não consigo encarar a gerente depois daquilo.
Imaginei a cara da Dona Matilde e assenti.
É justo.
Então aceita?
Abri o bloco, procurei uma folha, olhei o rio, as árvores, os bancos e comecei a desenhar, sem levantar os olhos.
Aceito disse, focada no traço.
Não respondeu mais nada, só ficou ao meu lado.






