Reservou mesa para dez pessoas para o seu 80º aniversário. Mas a única pessoa que se aproximou dela foi o gerente do restaurante… para pedir que devolvesse as cadeiras.

Hoje foi um desses dias que ficam gravados na memória. Escrevo isto sentada à minha secretária, ao som distante do elétrico lá em baixo, com a luz quente do candeeiro a aquecer-me os pensamentos.

Reservei uma mesa para dez pessoas no restaurante O Solar da Graça, ali ao pé do Campo Pequeno, para festejar os meus 80 anos. Tinha escolhido este cantinho porque sempre adorei Lisboa à sexta-feira à noite aquele burburinho de gente, a música, os cheiros misturados da cozinha, o barulho dos copos a tilintar. Lá fora, formava-se fila à porta, todos ansiosos por entrar.

Mas à minha mesa número 4, pelo meio daquele barulho todo, imperava um silêncio pesado. Eu, com o meu vestido azul marinho, guardado para ocasiões especiais, com a faixa brilhante sobre o ombro a dizer: 80 e maravilhosa. E depois as cadeiras. Todas vazias à minha volta, com os chapéus de papel coloridos que pus em cada lugar sonhara que a organização do espaço podia trazer a família de volta.

Trouxe de casa as letras douradas Parabéns Carmen, pendurei-as com as minhas próprias mãos. E olhava de vez em quando para o telemóvel. Esperava ainda um telefonema, uma mensagem, um já chegamos. Nada. Nem sinal deles.

O gerente, um senhor pacato chamado Sr. Manel, aproximou-se com um bloco e a caneta na mão. Minha senhora, suspirou, é sexta-feira. Está a casa cheia, há muitos à espera. Se os seus convidados ainda não chegaram, vou ter de separar as mesas. Posso arranjar um lugarzinho ali ao balcão. Está bem?

Tentei engolir o nó na garganta. Se calhar apanharam trânsito, murmurei. Mal sustive a voz. Mas tem razão. Não é justo ocupar tanto espaço. As mãos tremiam-me ao tirar as decorações, sentindo-me envergonhada, quase invisível.

Foi então que um senhor, com ar cansado, levantou-se da sua mesa e veio na minha direção. Trazia um prato na mão e vestia uma t-shirt via-se logo que viera direto do trabalho, talvez de uma oficina.

Nunca mais!, disse alto, rindo-se para o gerente para que todos ouvissem. Desculpe o atraso. Está insuportável para estacionar à sexta-feira nesta cidade!

Parei, espantada. Olhei-o com os olhos rasos de lágrimas. Como? balbuciei surpresa.

Ele puxou a cadeira em frente à minha e sentou-se, como se sempre tivesse feito parte deste quadro. Baixou um pouco a voz. Ouvi tudo. Não queria deixá-la sozinha. Também fiquei pendurado hoje estou há vinte minutos a olhar para o prato, sem ninguém para conversar. Odeio jantar sozinho. Posso juntar-me ao seu aniversário?

Olhei para as mãos dele, com sinais de trabalho e cheiro a óleo, para as cadeiras vazias e, devagar, um sorriso aqueceu-me o rosto. Aquele sorrir que acorda o peito.

Pois, disse ajeitando a minha faixa, não vamos desperdiçar os croquetes! Mas aviso já: falo pelos cotovelos!

Ele sorriu. Assim está bem, que eu sou bom a ouvir.

Chamava-se Jorge.

E aquela não foi apenas uma refeição. Foi um verdadeiro festejo improvisado, mas sentido e sincero.

O Jorge contou-me sobre o trabalho na oficina lá na Avenida de Roma das dores nas costas e da solidão de quem tenta arranjar conversa nesta Lisboa de encontros e desencontros.

Eu disse-lhe do António, o meu marido, que me trazia rosas amarelas todos os anos. Sempre amarelas, para iluminar o lar, dizia ele. Falei-lhe dos meus três filhos, todos para lá do Porto agora, perdidos em agendas, aviões e aquela promessa adiada de logo ligo.

Recordei-lhe a infância em Ponte de Lima onde o tempo era calmo, o cheiro do pão atravessava as ruas e os domingos sabiam a assados, conversas e café de cafeteira antiga.

Rimos muito. Rimos tanto que, a certa altura, algumas pessoas começaram a olhar. Mas não com pena. Havia um brilho de inveja boa nos olhos como quem desejava estar ali connosco.

A Joana, a empregada de mesa ruiva e miúda, que ia prestando atenção à distância, percebeu tudo sem uma palavra. Foi até ao balcão, murmurou qualquer coisa, e desapareceu na cozinha.

Uns minutos depois, as luzes diminuíram de intensidade. E toda a equipa apareceu, não com um bolo pequenino, mas com uma taça enorme de gelado, chocolate, chantilly e uma vela faiscante no topo.

De repente, toda a sala começou a cantar: Parabéns a você

Tapei a boca, surpreendida, com lágrimas a correr. Mas, desta vez, era de alegria. Daquele alívio bom.

No fim, veio a conta, e eu ia pegar logo na carteira. O Jorge foi mais rápido: Hoje sou eu que convido. Obrigado por tornar leve o meu aborrecido fim de semana.

Quis protestar, claro. Mas olhei para ele e assenti. O importante era não estarmos sozinhos.

Lá fora, o frio já se sentia. Os candeeiros banhavam a rua num amarelo suave, daqueles que aquecem o coração e adoçam a cidade.

Despedimo-nos com o abraço de avó forte, sincero, reparador. Sabe, Jorge olhei-o nos olhos Entrei aqui a sentir-me invisível. Saio como uma rainha. Ele riu-se. Parabéns, Carmen, devolveu.

Esperei que ele visse o carro bem fechado, depois subi para o meu. Demorei a ligar o motor. Pensei na minha mãe, há duas semanas sem que lhe telefone. Porquê? Uma mania de acreditar que há sempre tempo.

Peguei no telemóvel e marquei. Olá mãe. Só queria ouvir a tua voz.

Às vezes, basta isto. Um lugar do outro lado da mesa. Ninguém, ninguém devia festejar o próprio aniversário em silêncio.

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Reservou mesa para dez pessoas para o seu 80º aniversário. Mas a única pessoa que se aproximou dela foi o gerente do restaurante… para pedir que devolvesse as cadeiras.