Mãe, estás a brincar comigo? Que férias? Que termas no Luso? Nós já temos os voos marcados para Cabo Verde, falta uma semana! Percebes que nos vais fazer perder uma pipa de massa?
A voz da Sónia mal cabia naquela cozinha apertada, saltando pelos azulejos enquanto ela batia as ancas nas cadeiras sem notar. A Dona Rosa sentava-se no seu banco, com as mãos tão apertadas uma na outra que lhe ficaram brancas. Olhava a filha, uma mulher cuidada e zangada, e não percebia em que momento aquela Sónia pequenina, a quem fazia tranças, se tinha transformado nisso.
Sónia, não grites, por favor, olha que eu ando mal do coração pediu, num fio de voz. Eu já vos avisei em janeiro que queria ir tratar da saúde no verão. Nem ando quase, os joelhos estão uma miséria. O médico disse que as termas eram essenciais. Gastei o que juntei da reforma em seis meses a contar os cêntimos. Porque hei de cancelar tudo?
Porque somos família! gritou Sónia, parando defronte dela com as mãos na cintura, cheia de verniz caro. Porque as avós servem é para ajudar com os netos! Acha que está em idade de ir gozar resorts, enquanto eu e o Rui esfalfamos o corpo? Já vamos há mais de um ano sem férias, mãe! Achámos um hotel em conta, levar os miúdos é caríssimo para nós, e sinceramente queremos descansar em condições, não andar atrás deles pela praia. Tens de os levar para a aldeia, está decidido.
Rosa suspirou, cansada daquele não se fala mais nisso que ouvia há praticamente dez anos. Primeiro, Mãe, ficas com o Filipe, tenho de voltar ao trabalho que há crédito da casa para pagar. Depois Olha, o Martim nasceu, agora bezuntam-te dois. Não é nada que te faça confusão. E ia fazendo. Sacrificava-se, corria sempre ao primeiro apelo, dava a volta às maleitas, carregava miúdos e mochilas. Mas o Filipe já tinha doze anos, o Martim nove. Dois furacões que em três dias desmantelavam a velha casa da aldeia. Necessitavam que lhes fizesse as refeições, lavasse roupa, desse atenção, e Rosa já mal chegava ao jardim das hortênsias, quanto mais para aventuras.
Sónia, não consigo, disse-lhe, firme, olhos nos olhos. Já não dou conta. Os miúdos são irrequietos, querem correr, andar de bicicleta, ir ao rio. Eu não tenho forças para os acompanhar. E se calha o diabo? Fico com isso atravessado na consciência. E tenho tudo pago. Vou no dia três para o Luso.
Sónia calou-se. Olhava a mãe como quem avalia uma parede antes de lhe dar uma martelada. O silêncio só era interrompido pelo zumbido do velho frigorífico da Sanyo, herança do pai.
Então, queres saber? A tua saúde vale mais do que os netos? Gostas mais de ti do que da tua família?
Quero, sim, olhar para mim, Sónia. Depois de sessenta e cinco anos sempre a pensar nos outros, gostava de pôr-me em primeiro lugar. Isso é crime?
Pronto. Sónia endireitou-se, gelada. Vamos então ser adultas. Vives num T3 no coração de Lisboa, sozinha, enquanto nós, com os rapazes, estamos numa caixa de fósforos em Marvila, a pagar tudo à conta, até ao carro. Sabes lá o que custa. E tu aqui, refastelada, a inventar razões.
Esta casa foi sacrifício meu, dos meus pais, lembras-te? E ainda vos dei parte do que recebi para a entrada do vosso apartamento, que vendi a garagem do pai.
Isso foram trocos! cortou Sónia. Agora, ouve com atenção. Vais para as termas e deixas-nos agarrados? Então eu tiro conclusões. És velha, incapaz, perigosa até para ti própria. Vais esquecer o gás, deixar a torneira aberta…
Estás a ameaçar-me com o quê? O coração deu-lhe uma guinada.
Estou a avisar. Existem excelentes lares privados e públicos em Portugal. Lá tens médicos, refeições, staff permanente. A casa vende-se, paga-se a residência, ou alugamos e metemos para o crédito. Já não vais precisar de tanto espaço, já que não cuidas dos netos. Afinal, um dia tudo isto será nosso. A diferença é só o tempo.
Rosa sentiu a vista turva. O ar faltava-lhe. Filha sua, que tanto custou a criar nos anos de vacas magras, agora sentava-se à sua frente e falava-lhe de lar.
Tu queres encafuar-me num asilo? Comigo viva?
Não é asilo, é lar de qualidade, respondeu Sónia, dura. Se não fazes de avó, não serves para viver sozinha. Meto um papel à Segurança Social a dizer que estás confusa, que já não te podes governar. Um médico amigo atesta que tens demência inicial. A idade encaixa. O tribunal trata do resto.
Sai. murmurou Rosa.
O quê?
SAI DAQUI! gritou, num ímpeto. Vai-te! Não tragas aqui os miúdos! Eu estou bem, lúcida, e esta casa é minha!
Sónia ergueu-se, olhou em volta, desaprovadora.
Claro, continua a berrar. Se precisares de ambulância, peço; é logo registado que estás fora de ti. Tens até amanhã, mãe. Ou levas os miúdos e isto fica por aqui, ou inicio o processo. Tu conheces-me, sabes que não largo.
A porta bateu, e Rosa ficou sozinha. Voltou a sentar-se, desabando. As mãos tremiam tanto que nem água conseguiu servir-se. As lágrimas escorriam, quentes. Onde errara para que a filha se tornasse assim?
Passou o serão às escuras, os pensamentos a esvoaçar na cabeça como pássaros aflitos. Visualizou-se num lar: paredes anónimas, cheiro a medicação, estranhos em todo o lado, grades nas janelas. A Sónia era determinada, conhecia gente. E o genro Rui era dado a dizer sim a tudo, desde que não lhe incomodassem o domingo.
Quase não dormiu. Pela manhã, quando o sol lhe tocou as cortinas, sentiu a raiva começar, fria e clara. Sempre viveu para os outros: o marido que partiu cedo, a filha, o emprego. Sempre calou, fez tudo para que ninguém se ofendesse, sempre cedeu. Agora viam nisso fraqueza.
De manhã tomou a pastilha da tensão, vestiu o melhor fato, agarrou a pasta dos papéis da casa e saiu. Não foi ao Minipreço nem ao Centro de Saúde. Foi a uma sociedade de advogados.
O advogado, ouvindo o relato já um pouco desorganizado, franziu o sobrolho mas sorriu de leve:
Dona Rosa, não se preocupe. Internar alguém em lar contra a vontade é quase impossível sem decisão judicial. Para isso precisava que fosse considerada incapaz. Era preciso exames, avaliações, levaria tempo e seria facilmente pior para quem mente. Se está lúcida e dona da casa, ninguém mexe em nada. Trate apenas de tirar uma certidão do médico de família a atestar que está de perfeita saúde mental. E pesquise o testamento. Se ele está em nome da sua filha, talvez valha a pena rever, por precaução.
Ao sair, sentiu como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Parou numa clínica, fez a consulta, saiu com a declaração carimbada que atestava sanidade total. Depois foi ao Banco, transferiu parte das poupanças para outro depósito a que a filha não tinha acesso.
Chegou a casa já era quase hora do almoço. O telefone tocava, sempre a Sónia, mas Rosa não atendeu. Procurou a velha mala, usada nos tempos em que ia a Viseu com o marido. Começou a fazer a mala: vestidos leves, fatos de banho, sapatos cómodos, livros.
À noite tocaram à porta. Insistente. Rosa espreitou: era a Sónia, sozinha.
Abriu a porta, mas manteve a corrente.
Mãe, não atendes? Estamos preocupados! a voz vinha irritada, mas mais baixa. Parecia ter mudado de estratégia. Preciso falar contigo. Deixei lá as coisas dos rapazes, amanhã trazemos eles.
Não os vais trazer, Sónia, disse tranquila. Eu vou viajar.
Viajar para onde? Não tinhas prometido que ficavas? Lembras-te do assunto do lar?
Lembro, pois. Fui hoje ao advogado e ao psiquiatra. Toma.
Passou uma cópia do atestado pela brecha.
Em plena posse das faculdades mentais. leu Sónia, perdendo cor. Andaste a tratar destas coisas, mãe?
Tratei, filha. E ainda me informei sobre difamação e atentados à liberdade individual. E passei no notário. Consultei sobre uma doação da casa para uma associação de idosos carenciados… Se algum dia me quiserem encostar num canto, eles tratam de tudo por mim.
Sónia empalideceu ainda mais mãe sua, em coisas sérias não era de promessas vãs.
Que conversa é essa? Vais dar a casa a estranhos? Vais deixar a tua filha sem nada?
Então e a filha quer encafuar a mãe no lar para ir de férias à vontade? Ouve, Sónia. Amanhã de manhã vou para o Luso. Três semanas. Deixo as chaves à vizinha, a Dona Emília. Se precisares de alguma coisa, fala com ela. Não recebes chaves nenhumas, aliás, hoje mudei as fechaduras.
Mudaste as fechaduras? Isto já é paranoia, mãe!
Só prudência. Não quero voltar a casa e encontrar-vos instalados, os meus móveis à porta. Amo os netos, mas não sou criada. E esta casa é minha. Querem férias? Contratem ama, metem os rapazes num campo de férias, vendam mais uma coisa. São os pais, desenrasquem-se. Já dei o que tinha a dar.
Ia fechar a porta, mas Sónia cravou-lhe o pé.
Espera, mãe! Acabei por me exaltar ontem, desculpa disse, agora num tom vulnerável. Os nervos, o trabalho, isto tudo Não posso perder as viagens, os custos são brutais! Ajuda-nos só desta vez! Eles vão portar-se bem, dou-lhes o tablet, nem dás por eles!
Não. A minha decisão está tomada. Tira o pé, tenho de descansar. Acordar cedo amanhã.
O olhar da Sónia era uma mistura de raiva, mágoa e respeito? Ou temor? Tinha medo de perder a herança.
Vai às termas, então! Mas não contes connosco para te aturarmos quando precisares! Nem para ires ao hospital!
Também não conto. Agora é comigo e com os meus advogados. Adeus, Sónia. Boa viagem.
A porta bateu e Rosa rodou todos os fechos. O coração ainda disparava, mas o alívio era maior. Tinha feito o que tanta vida nunca ousou: pôs fim ao abuso.
Na manhã seguinte apanhou o táxi, alinhou mala de rodas, chapéu, fato de domingo, e saiu com dignidade do prédio. No carro ao lado estava o genro, acenou-lhe com desdém. Seguia ordens da filha o que a mãe dizia, o genro fazia.
No comboio a caminho das termas, Rosa olhou a paisagem de sobreiros e girassóis deslizar pelas janelas, sentiu as tensões a desvanecer enquanto o chá fumegava no copo de tima. No compartimento ia a Dona Celeste, outra senhora também da sua idade, rumo à saúde.
Os meus sempre souberam, netos só ao sábado, quando posso, dizia Celeste, barrando pão com queijo. Queixaram-se, mas ficaram a respeitar. As avós também querem ter o seu tempo.
Pois é, eu tive de aprender a malhar o pé, sorriu a Dona Rosa. Mas valeu a pena.
Três semanas voaram. Banhos, massagens, passeios nos jardins, ar puro das serras do Bussaco. Rosa parecia outra. Pôs-se direita, ganhou cor, as dores atenuaram-se. Fez amizade com várias senhoras, chegou a ir ao teatro com um antigo militar simpático do Porto. Redescobriu-se mulher, não apenas peça da engrenagem familiar.
O telemóvel só ligava esporadicamente. Mensagens da Sónia: primeiro, furiosas “Estragaste-nos as férias, tivemos de pagar um balúrdio para levar os miúdos!”; depois lamurientas “O Filipe apanhou febre, temos de arranjar quem fique com ele!”; ao fim secas “Quando chegas?”
Rosa respondia sinteticamente: “As melhoras”, “Chego dia 25”.
Voltar a casa deixava-lhe apreensão. O que ia encontrar? Uma cena? Mudança de fechaduras?
Entrou no apartamento cheirosa a cerrado. As plantas estavam regadas Dona Emília não falhava. Em cima da mesa, um bilhete: “A Sónia veio cá duas vezes pedir chaves, disse que tinha água a escorrer. Não lhas dei. Entrei eu com o canalizador não havia nada. Coragem, Rosa!”
Sorria. Boa vizinha.
À noite Sónia apareceu. Tocou à campainha, sem escândalo. Rosa abriu. A filha estava cansada, bronzeada, mas desanimada.
Olá, murmurou, entrando. Chegaste?
Cheguei. Queres chá?
Foi para a cozinha, sentou-se no banco do dia do desentendimento.
E as férias, correram bem? Rosa preparava a água.
Foram caras, com os miúdos. Nada do que tínhamos planeado. O Rui está zangado, tivemos de pedir outro crédito
Mas os rapazes viram o mar e ganharam memórias. Isso é que conta.
Sónia mexia na caneca, sem falar.
Mãe Foste mesmo ao notário por causa da doação?
Fui.
E assinaste?
Ainda não. Mas os papéis estão prontos. Depende do que fizerem.
Sónia fitou-a, olhos marejados.
Mãe… desculpa. Passei-me. Estava esgotada. Sabes bem como sou. Não queria meter-te num lar, era só para assustar, achei que ias ceder.
Mal escolheste a arma, Sónia. O medo estraga tudo, até a confiança. Agora não descuro nem o meu copo de água quando vindo das tuas mãos.
Credo, mãe, não digas isso! Sónia chorava. Fui tola. Sempre pronta a contar contigo, a dar tudo, mal a coisa falha não soube lidar. Tu revoltaste-te. Perdoa-me.
Rosa tocou-lhe no ombro. A acidez passou, ficou só tristeza.
Não me revoltei. Só lembrei que também sou pessoa. Tenho o direito ao meu espaço. Continuo a querer ajudar, mas dentro das minhas possibilidades, sem imposição. Se quiserem deixar os rapazes, telefonem primeiro, perguntem como estou. Se puder, aceito. Se não, desenrasquem-se.
Está bem, mãe. Percebi.
E as chaves ficam comigo. Telefonem sempre que quiserem cá vir. De repente sinto-me mais tranquila assim.
Sónia assentiu, limpando as lágrimas.
E o testamento continua igual?
Continua. Quando eu me for, a casa é tua. Mas só nessa altura e não há pressa. No Luso até me disseram que tenho coração de trinta anos!
Tomaram chá. Fragilidade entre mãe e filha, mas sem guerra. Era um armistício. Sónia despediu-se prometendo passar no fim-de-semana com os rapazes (“mas é só por umas horas para comer uns crepes!”), e Rosa trancou a porta atrás dela.
Foi à janela, olhou para a avenida acesa. Sentia-se comandante do seu barco. A vida tinha-lhe andado ao leme, mas agora quem comandava era ela.
No sábado, os netos vieram. Estavam crescidos, bronzeados.
Avó, vimos uma alforreca! gritava Martim. E o pai ficou vermelho como um pimento!
Comeram crepes, ouviram histórias de Cabo Verde. Sónia sentada, sem ordens, sem críticas, levou rapidamente os pequenos para casa.
Obrigada, mãe, vamos embora. Ainda têm de ler o livro das férias.
Rosa sentou-se na sua poltrona, acendeu o candeeiro de pé e pegou no livro que começara no comboio. Sentia-se bem. Sozinha? Um pouco. Mas era uma solidão tranquila, de quem não aceita já viver como sombra dos outros. Percebeu que para ser amada, não tinha de ser submissa, e para ser respeitada, por vezes bastava pôr o pé no chão nem que fosse só uma certidão médica e saber os seus direitos.
No outono inscreveu-se na piscina municipal e no Clube Sénior. Descobriu que a vida aos 65 ainda oferece muito desde que ninguém escreva o guião por nós.
Obrigado por lerem a minha história! Se quiserem, deixem um “gosto” ou comentário a contar se já tiveram de defender os vossos limites perante a família.







