Querido diário,
Hoje cruzei-me na Rua de Santa Catarina com uma conhecida, a Matilde, que passeava distraída com a filhinha de um ano e meio, a Mariana. Ia tão absorta nos seus pensamentos que, se não a chamasse, passava por mim sem me ver. Quando me reconheceu, vi-lhe um breve sorriso, mas logo aquele ar distante e preocupado voltou a impor-se-lhe no rosto. Não consegui evitar perguntar-lhe o que se passava. Foi então que desabafou comigo tudo aquilo por que vinha passando na família.
Contou-me que se casaram apaixonados. O namoro foi uma época bonita, repleta de serenatas, flores, passeios pelos jardins do Palácio de Cristal e momentos só para os dois. Depois do casamento, o marido, o Rui, era carinhoso, dizia-lhe sempre que a amava e fazia questão de a levar ao colo casa adentro, símbolo da felicidade deles. Procuravam harmonia e compreensão um no outro, mesmo quando os dias não corriam tão alinhados.
No entanto, desde que nasceu a pequena Mariana, tudo virou do avesso. O Rui experimentou o que era realmente ser pai e parece que aquilo não lhe agradou muito. Trabalhando em casa, sentia-se constantemente perturbado pelos choros e manhas da bebé. Apesar de ser a Matilde quem tinha mais incumbências com a filha, também ele, por vezes, se chateava e a acusava de tudo e mais alguma coisa.
A situação agravou-se quando a Matilde entrou de licença de maternidade e as receitas familiares caíram. O Rui aproveitou esse pretexto para pôr todo o peso das responsabilidades nos ombros dela. Passado algum tempo, exigiu-lhe que regressasse ao trabalho e sugeriu que um dos avós ficasse a cuidar da menina.
A Matilde explicou vezes sem conta que os pais dela e os sogros, já de certa idade, não tinham condições nem energia para ficar com uma criança tão pequena. Mas o Rui só pensava no dinheiro e, para garantir que não era ele a cuidar da filha nem um minuto a mais do que o suposto, investigou creches integrais, alternativas e mais alternativas. Passou também a controlar cada euro parou de lhe dar dinheiro para as compras, preferindo ir ele próprio ao supermercado, pois achava que a Matilde desperdiçava o dinheiro em coisas desnecessárias.
Sem encontrar refúgio em casa, ela começou a sair mais vezes para levar a Mariana a brincar nos jardins, na Praça dos Leões, ou pelo Parque da Cidade, para espairecer e não aturar o mau humor do Rui.
No final, a Matilde, já de olhos marejados, perguntou-me se achava que devia divorciar-se. Disse-me que não conseguia, porque apesar de tudo ainda gostava do Rui e continuava muito ligada a ele. Além disso, não queria separar a família por medo que a Mariana sofresse sem ambos os pais juntos. Estava tão cansada de ouvir que não fazia dinheiro suficiente, quando a escolha de estar em casa fora necessária para cuidar da filha.
Despedi-me com aquelas frases que acabam por ser sempre as mesmas nestas situações: Sê forte, As coisas hão de melhorar, Tudo se há de resolver. Fiquei com um aperto no peito e só espero, sinceramente, que tudo se componha para ela.







