Que vergonha, toda a vizinhança já limpou a horta e a nossa parece uma nódoa nos olhos. Até que faríamos nós próprios, mas eu estou preso pelo reumático e a mãe tem as costas travadas

Que vergonha, toda a gente já limpou a horta e a nossa ali, como uma nódoa. Faríamos nós próprios, se não fosse a minha artrose e as dores nas costas da tua mãe.

Manel, vim aqui para te pedir um favor o pai torcia o boné nas mãos será que nos dás uma ajuda, comigo e com a tua mãe, a apanhar as batatas? É um embaraço, todos já têm a horta pronta e a nossa está um nojo. Quiséssemos e fazíamos, mas a artrose não me larga e a tua mãe mal se mexe.

Manel, calçando as botas, resmungou:

E para que semeiam tanta batata? Não passam fome, pois não? Hoje não posso, pai, tenho de ir a Vila Real.

O pai ia responder, mas abanou a mão e saiu. No quintal, pegou na forquilha e, coxeando, lá foi para a horta.

Graça, que trazia um xaile de lã apertado nas costas doridas, apressou o passo para junto dele.

Achas que os filhos vão aparecer?

Ele resmungou:

Pois sim, espera sentada. Vai buscar o balde e vamos ao trabalho. Criámos cinco, nenhum tem tempo para os pais. Anda, velha, mexe-te, ao menos até ao fim da tarde avançamos um bocado.

Entretanto, Maria, mulher do Manel, ralhava com ele:

Que gente é esta? Cada um no seu mundo, nem ajudar os velhos. Que vergonha. Se os meus ainda cá estivessem, eu ia a voar soluçou.

Manel deu-lhe um abraço:

Tens razão, não é bonito. Vivemos aqui ao lado e mal nos vemos. Olha, faço assim: peço folga no trabalho. Tu liga aos outros.

Maria sentou-se ao telefone, aberta a agenda.

Como não podem? Trabalho? Há sempre trabalho, tirem folga! Não têm vergonha, os pais a rebentar-se e vocês sem mexer um dedo. Não têm quem fique com os miúdos? Levem-nos, vêem o campo, melhor que ficarem no sofá com o telemóvel. Esperamos por vocês!

Entre conversas e resmungos, Maria lá convenceu toda a gente.

Entretanto, o velho Nicolau sentou-se para descansar.

Ó Graça, se calhar vamos andar aqui até ao Natal a apanhar batata. Para quê tanta batata? E tu sempre “e se amanhã falta aos filhos?” Onde estão eles agora? Não mexem um dedo. Antigamente era diferente, lembras-te? Juntávamo-nos e antes do almoço estava tudo apanhado. Outro tempo…

Graça ficou atenta:

Escuta, parece que chegou alguém! Vai ver, homem.

Nicolau foi a cambalear ao portão. Riso, vozes altas. Graça, apoiada nas costas doridas, chegou atrás.

Nossa Senhora, quanta gente! Vieram os filhos e os netos. Que alegria.

Então, pai, mostra onde tens as enxadas, forquilhas, baldes comandava Manel.

O velho Nicolau, de lágrimas nos olhos, exclamou:

No sítio de sempre! Já esqueceste?

E começou a azáfama. Uns cavavam, outros apanhavam, outros levavam as batatas para secar debaixo do telheiro. Mandaram Graça para dentro.

As noras arregaçaram as mangas, prepararam o almoço para todos; mas Graça não se conteve: ia aqui, ia ali, a controlar tudo como boa dona de casa.

Na horta, era só risos.

Lembras-te, Manel, em miúdo atiraste-me com uma batata à cabeça? Agora vinga-te! ria Henrique.

O velho resmungava, a brincar:

Já têm barba na cara e ainda feitos rapazes!

Finalmente, a batata estava toda apanhada, as folhas postas de lado, a colheita no sítio certo. Era hora de petiscar.

A mesa grande posta no pátio, alegria pelos cantos, recordações de infância partilhadas.

Graça, de vez em quando, limpava uma lágrima. Bons filhos. Os vizinhos passavam, cumprimentavam, elogiavam. Alguns suspiravam lembrando os seus, que raramente aparecem.

Maria perguntou baixinho a Manel:

O que disseste no trabalho?

Ele abraçou-a pelos ombros:

Falei a verdade: os pais precisam de ajuda. Disseram logo para ir. Ajudar os pais é sagrado.

Entre as tarefas e o corre-corre do dia a dia, não se esqueçam dos vossos pais; às vezes têm vergonha de pedir ou não querem aborrecer, mas para eles, um dia em família vale mais do que ouro.

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Que vergonha, toda a vizinhança já limpou a horta e a nossa parece uma nódoa nos olhos. Até que faríamos nós próprios, mas eu estou preso pelo reumático e a mãe tem as costas travadas