Era uma vergonha. Todas as hortas já limpas e a nossa, ali, como um espinho nos olhos da vizinhança. Nós próprios trataríamos disso, se não fosse a artrite que me atacou e as dores nas costas da mãe.
Joaquim, eu vim aqui por isso dizia o pai, retorcendo o boné nas mãos. Será que vocês podiam dar uma ajuda a mim e à tua mãe para apanhar as batatas? Sinto até vergonha, toda a gente já tem tudo arrumado e a nossa parece um matagal. Nós lá conseguiríamos, mas as maleitas são como praga, nunca vêm sós. Eu com as mãos que não aguentam e a mãe toda torcida.
Joaquim, calçando cuidadosamente as botas de borracha, resmungou entre dentes:
Mas para que havemos de plantar tanta batata? Não passamos fome, pois não? Ó pai, hoje não consigo, tenho de ir a Lisboa resolver papelada.
O pai ainda pensou dizer algo mais duro, mas engoliu em seco, virou costas e saiu. No quintal, pegou na forquilha e, coxeando, foi para a horta.
A Antónia, com um xale de lã apertado à cintura a proteger as costas doridas, apressou-se a ir ao lado dele.
Achas que os filhos vêm ajudar, Manuel?
Ele bufou:
Sim, sim, espera sentada. Vai buscar o balde e começa tu a apanhar. Criámos cinco filhos e nenhum nos pode valer agora. Mexe-te, mulher, que ao menos ao fim do dia já termos feito uns metros.
Nessa altura, Leonor, mulher de Joaquim, não largava o marido:
Que família a tua, Joaquim. Só pensam em vocês, nem um braço amigo aos teus pais. Que vergonha, meu Deus. Tivessem os meus vivos e voava para junto deles soluçou ela, engolindo as lágrimas.
Joaquim colocou um braço nos ombros da mulher:
Tens razão, não está certo. Vivemos tão perto e quase não nos juntamos. Olha, faço assim, peço folga ao patrão e tu avisas os outros.
Leonor sentou-se com o telemóvel e o caderno de contactos aberto.
Ah, não podes? Trabalho? Toda a gente tem trabalho. Peçam dispensa, não vos custa nada ajudar os pais, estão ali a dar o corpo ao manifesto e vocês sem mexer uma palha. Não têm com quem deixar as crianças? Tragam os miúdos, ao ar livre é melhor do que no sofá com o tablet! Apareçam, que estamos à vossa espera!
Com jeito, persistência e até umas ameaças leves, lá convenceu todos.
Entretanto, o velho Manuel sentou-se a descansar.
Ai, Antónia, vamos andar atrás da batata até cair a geada. Para quê plantar tanto? E tu sempre, e se os filhos precisarem?. Onde é que eles andam, esses teus filhos? Nem mexer um dedo querem. Lembras-te, dantes, era tudo malta reunida, antes de almoço já estava despachado. Outros tempos
Antónia fez-se atenta:
Ouviste, homem? Parece que chegou alguém. Vai ver.
Manuel arrastou-se até ao portão. De lá vieram gargalhadas, vozes altas. Antónia, apoiando-se nas costas, também seguiu o barulho.
Oh, Nossa Senhora! Quanta gente! Veio a prole toda, e os netos também. Que alegria!
Então, pai, onde é que estão as enxadas, as forquilhas e os baldes? liderava Joaquim, entusiasmado.
Com lágrimas presas na garganta, o velho Manuel respondeu, quase a ralhar:
Estão no sítio de sempre! Já te esqueceste?
E começou o verdadeiro trabalho coletivo. Uns cavavam, outros apanhavam batata, outros levavam para o telheiro a secar. Mandaram Antónia para casa a descansar.
As noras arregaçaram as mangas, preparavam o repasto onde ninguém ia sair sem comer bem. Mas Antónia não conseguia ficar quieta.
Guiava aqui, instruía ali. Sem ela, nada andava.
Na horta ouvia-se risadas.
Ó Joaquim, lembras-te quando, em miúdos, me acertaste com uma batata na testa? Toma lá o troco! gracejava o Sérgio.
O avô resmungava em tom de brincadeira:
Agora deu-vos para as traquinices? Já estão todos a chegar aos anos e continuam como moleques!
Oba! A horta ficou escavada, os restos juntos em pilhas, as batatas abrigadas debaixo do telheiro. Hora de comer.
Estenderam a mesa no quintal. Risos, histórias de infância. Antónia, emocionada, limpou discretamente uma ou outra lágrima. Bons filhos, afinal. Os vizinhos que passavam saudavam com respeito. Elogiavam. Alguém, nostálgico, lembrava os seus, que raramente vinham.
Leonor, em voz baixa, perguntou ao Joaquim:
O que disseste no trabalho?
Ele abraçou-a pelos ombros:
Disse que os pais precisam de ajuda. Deixaram-me sair logo. Disseram que ajudar os pais é coisa sagrada.
No meio das obrigações do dia a dia, não se esqueçam dos pais. Muitas vezes eles têm vergonha de pedir ou insistir, mas a verdade é que, quando os filhos vêm, o coração deles enche-se de alegria.






