«Que se l…! Não sou criada de ninguém» o desabafo da 52-anos Matilde sobre os homens que encontra depois dos cinquenta
A minha amiga Matilde voltou ao mercado depois de dez anos de férias. Achava que ia conhecer um tipo interessante, mas acabou por colecionar dez lições de vida sobre o mundo dos relacionamentos maduros. Spoiler: não tem nada a ver com aquele conto de fadas dos filmes franceses.
A chamada foi tardia: a voz cansada, mas com aquele tom sarcástico típico dela.
Olha, ou eu adoro mesmo o meu sossego, ou estes homens vivem numa realidade paralela. Não estou a ver outra explicação.
Conhecemo-nos há mais de vinte anos. A Matilde é aquilo que se chama uma mulher com graça ri-se da vida, das desgraças, dos disparates. Foi um grupo de amigas que fez a pressão: Arrisca, mulher! Pode ser que tenhas sorte. Ela lá aceitou. Em seis meses, dez encontros (eufemismo). Cada um, digno de episódio numa sitcom portuguesa só que às vezes apetecia mesmo chorar em vez de rir.
Primeira impressão: Será que preenches a ficha?
A coisa até começou inocente: cafézinho, bolo, conversa simpática. O senhor ficou cinco minutos a analisar o menu como se estivesse a escolher fundos de investimento. Finalmente, suspirou fundo e atirou:
Sabe, sem uma boa sopa da pedra, nem sei viver!
A Matilde acenou, achou graça, pensou que era brincadeira. Mas de repente, pimba: começa uma conversa sobre como a ex-mulher já nem sabia fazer uma cama como deve ser, e agora queria uma mulher com mãos e cabeça iluminada. Mas dava para perceber: as mãos é que eram mesmo importantes.
Ela só pensava: desde quando discutir roupa de cama passou a ser tema de primeiro encontro?
Aula sobre a “verdadeira” mulher (versão manual de instruções)
A segunda ronda começou normal, mas rapidamente virou um monólogo. O cavalheiro explicou todos os requisitos: mulher deve apoiar, criar ambiente familiar, ser paciente e cheia de sabedoria. Tudo bonito até aos detalhes.
Ele partilhou medições da tensão arterial, mostrou-lhe folhas que imprimiu da internet sobre alimentação saudável, e quis logo saber se ela sabia fazer canja de frango light. Resumindo: precisava de uma namorada, uma enfermeira e uma cozinheira. Tudo pronto a funcionar por turnos!
Falava de sentimentos como quem recita um manual de aspiradores confessou-me Matilde . Étapa um, passo dois. Zero emoção.
Paixão, nem vê-la.
Sabedoria invisível
No terceiro episódio, a Matilde já tinha aprendido que há frases que marcam uma vida. A de hoje:
Olhe, nem discuta comigo. Nesta idade, a mulher deve ser mais sábia.
Ao que ela, não aguentando:
Então mas quer explicar qual é a ciência da sua sabedoria?
Saiu-lhe uma resposta enrolada, mas percebeu-se tudo: ele só queria uma vida calma, uma mulher que dissesse sempre sim, querido, que aquecesse a casa, não fizesse perguntas e esquecesse a conversa do somos todos iguais. Ele queria paz a paz de controlo total.
Matilde percebeu: não queria uma relação verdadeira. Queria alguém que fingisse que sim.
Procura-se… Mãe (não esposa)
O quarto pretendente não andou com rodeios:
Preciso de mimo. Daquele da infância, sabe? Que me tratem como a minha mãe tratava.
Detalhes? Lembranças do bolo que comia em criança, entrevistas sobre o método ideal de dobrar meias, chinelos preferidos. Tudo ditado muito a sério.
A Matilde só pensava: quer é um serviço de entrega de infância ao domicílio, e não uma mulher.
Entrevista de emprego em vez de café
O quinto encontro foi mais parecido com um exame médico:
Tem doenças crónicas?
Vê os seus pais muitas vezes?
O salário é estável?
Matilde contou-me isto às gargalhadas, mas notava-se o cansaço. Em vez de quem és tu?, ouvia o que tens para me dar?. Nada de romance. Era avaliação para vaga de governanta.
O que se passa com esta espécie de homem?
Depois do décimo concurso público, Matilde telefonou:
Eles não querem namorar, pá. Querem é um pacote de serviços seguro.
Nem parecia zangada, nem triste. Apenas factos.
São homens com medo de ficarem sozinhos, mas ainda mais medo de mudar. Querem garantias de que há uma cozinheira, terapeuta e cuidadora e ainda por cima, que agradeça por ser escolhida.
Quando Matilde perguntava:
E eu, o que ganho com isto?
Não havia resposta. Só um olhar de espanto: Então, mas eu sou homem! Não chega?
São todos assim? Deve restar esperança?
A Matilde repete muitas vezes:
Sei bem que há homens inteligentes, simpáticos, interessantes. Só que já têm dona. Claro. Estão reservados.
Ela continua a acreditar, só mudou a forma de estar. Tornou-se exigente com o que aceita e com os seus próprios limites.
Adoptou a regra: zero papéis de criada. Zero cedências ao respeito-próprio. E não tenta agradar a qualquer preço.
Continua a rir com as histórias dos iludidos das expetativas, mas hoje o riso tem outra força. Ela não vai viver a vida de outro na esperança de meia dúzia de abraços.
E agora?
Dez encontros não são derrota. São curso intensivo para aprender a escolher melhor. Sobretudo, escolher-se a si própria.
Matilde percebeu o mais importante: ser livre vale mais do que qualquer relação baseada em atendimento personalizado.
O amor não aparece por marcação. Chega quando alguém percebe que merece, no mínimo dos mínimos, respeito, interesse e reciprocidade.
Está na hora de escolher outra coisa. De recusar o papel de funcionária com qualquer idade.







