– Quarenta anos a viver juntos sob o mesmo teto, e agora, aos sessenta e três anos, resolves mudar de vida?

Vivemos juntos há quarenta anos sob o mesmo teto, e agora, aos sessenta e três, queres mudar tudo?

Leonor está sentada na sua poltrona favorita, olhando pela janela, tentando esquecer os acontecimentos do dia. Horas antes, preparava o jantar e aguardava ansiosamente pelo regresso de António da pesca. Ele voltou, não trazendo peixe, mas uma notícia que há muito queria contar e nunca encontrava coragem.

Quero divorciar-me e peço que encares isto com compreensão António diz, desviando o olhar. As filhas já são adultas e vão entender, os netos não se vão importar, e podemos terminar tudo de forma tranquila, sem discussões.

Quarenta anos juntos, António, e só agora decides mudar de vida? Leonor pergunta, incrédula. Tenho o direito de saber o que vai acontecer a seguir.

Ficas com o nosso apartamento em Lisboa, eu mudo-me para a casa de campo em Sintra António já tinha tudo planeado. Não há bens para dividir, e depois tudo acabará por ir para as nossas filhas.

Qual é o nome dela? Leonor pergunta, resignada.

António fica vermelho, apressa-se a preparar as suas coisas e finge não ouvir a pergunta. Com esta reação, Leonor já não tem dúvidas da existência de uma rival. Quando era jovem, nunca imaginou que na velhice ficaria só, enquanto o marido ia atrás de outra mulher.

Vai correr tudo bem, mamã consolam as filhas, Patrícia e Inês. Não ligues muito ao que o pai está a fazer.

Já não há esperança suspira Leonor. Não vale a pena mudar nada, vou viver os meus anos e alegrar-me com a vossa felicidade.

Patrícia e Inês vão à casa de campo ter uma conversa importante com o pai. Quando regressam, estão tristes, mas não se apressam a contar a verdade à mãe. Mudam de discurso e tentam convencer Leonor de que viver sozinha pode ser melhor, não terá de cuidar de mais ninguém. Leonor percebe tudo, mas prefere não perguntar às filhas e tenta continuar a viver. Não é fácil, porque parentes e vizinhos não param de fazer perguntas e ficar curiosos com a situação.

Tantos anos juntos e, agora, o marido foge para outra comenta uma vizinha pouco delicada. Ela é mais nova ou mais rica?

Leonor nunca sabe o que responder, mas pensa cada vez mais em conhecer a rival. Por isso, vai à casa de campo fingindo precisar de apanhar umas conservas feitas no verão. Não avisa António, para garantir que encontra a tal mulher, e acaba por cruzar-se com ela.

António, não disseste que a tua ex vinha cá reclama a extravagante senhora, com maquilhagem exagerada. Pensei que já tinham resolvido tudo, ela não devia vir aqui.

Sério que me trocaste por isto? Leonor pergunta, analisando a mulher.

Vais deixar esta senhora insultar-me? grita a mulher. Só sou uns poucos anos mais velha, mas pareço bem melhor que vocês.

Se ela acha que beleza é o que conta nesta idade diz Leonor, tentando encontrar o olhar embaraçado de António.

O caminho até à paragem de autocarro é acompanhado pelos gritos da Barbie pintada e envelhecida, de quem Leonor tenta não chorar. Só em casa se permite sentir e liga à irmã, Clara, pedindo que venha visitá-la.

Anda lá, Leonor diz Clara, preparando chá de hortelã. Tu mesma disseste que a nova mulher do António não é bonita nem muito esperta.

Ou talvez ela tenha razão, e eu pareço uma velhinha Leonor duvida.

Estás bem para a tua idade diz Clara. O erro é vestir leggings de oncinha ou usar mini-saia aos setenta. Uma mulher é bonita em qualquer idade, se sabe portar-se e vestir-se conforme os seus anos.

Leonor olha-se ao espelho e percebe que Clara tem razão. Sente-se saudável, veste-se bem e sempre teve cosméticos oferecidos pelas filhas. Nunca foi vulgar ou espalhafatosa e nunca imaginou comportar-se como aquela rival.

Ora bem, agora que és uma mulher livre, podes aproveitar a vida Clara insiste. Filhas independentes, muitas atividades culturais e divertidas para nós nessa idade. Não te deixo desistir.

Clara cumpre a promessa: leva Leonor ao teatro, passeios e concertos. Rapidamente juntam-se a um grupo de amigos com interesses comuns. Até aparece um homem interessado na Leonor, mas ela logo recusa encontros a sós.

Dizem que agora não paras de ir ao teatro, que tens novos amigos e até podes casar de novo António comenta, ao cruzarem-se no supermercado.

Vieste tão longe comprar comida? Não há nada perto da casa de campo? Ou a nova mulher não cozinha? Leonor pergunta.

Sempre comprei aqui, já estou habituado, mudar hábitos na nossa idade é difícil responde António.

Leonor não se prolonga e vai para casa. António, naquele momento, sente vontade de alcançá-la e contar-lhe o quanto lamenta o divórcio. Passou a vida com a família, depois envolveu-se com a animada Carlota, e foi levado num turbilhão de paixões.

O início pareceu animado, mas logo descobriu que Carlota não gosta de tarefas domésticas, prefere fofoqueira, rodear-se de homens e festas barulhentas.

António cada vez mais pensa em regressar a casa, depois de ver Leonor, o desejo aumenta. Ela nunca fez escândalos ou discussões, guiando-se pelo orgulho e pela serenidade que lhe faltava ao lado de Carlota. António nunca imaginou que sentiria falta desse conforto e daquela paz, só com Leonor.

Compraste alperce seco, eu pedi ameixa irrita-se Carlota, examinando as compras. O queijo não é o certo, e esqueceste a maionese.

A Maria fazia sempre as compras ou íamos juntos. Agora tentas pôr tudo nos meus ombros explode António.

Já chega de me comparar à tua ex grita Carlota. Ainda vais dizer que arrependes de ter deixado ela por mim.

António realmente arrepende-se, mas sabe que não vale mais a pena falar disso. Leonor nunca fez nada para o reconquistar, apenas manteve-se igual, mas António desespera por merecer o seu perdão.

Só sabe bem que Leonor nunca confiará ou o aceitará de volta. Diversas vezes pensa em telefonar-lhe, depois da última discussão até vai à porta do antigo apartamento.

Vieste buscar alguma coisa? Leonor pergunta, sem deixar António entrar.

Quero conversar, tens um tempo? António quase sussurra, sentindo o aroma do seu bolo favorito de ameixa vindo da cozinha.

Não tenho tempo, nem vontade. Pega no que vieste buscar, estou à espera de visitas responde serenamente.

António não precisa de nada, queria conversar, mas não encontra as palavras certas. Volta para casa em Sintra e vai cozinhar o jantar, pois Carlota está outra vez de passeio pela aldeia. Chega a casa animada, e António finalmente confirma o desejo de terminar tudo, dando-lhe tempo para tirar as suas coisas.

Depois de mais uma discussão com Carlota, António pensa em telefonar a Leonor e contar-lhe, mas desiste e acalma-se. Conhece demasiado bem a ex-mulher para saber que não vale a pena esperar perdão ou esquecer mágoas.

Talvez, um dia, pudesse pedir desculpa e conversar. Era necessário fazê-lo, ou nunca teria paz. Esperava, no fundo, pelo perdão; mas Leonor nunca conseguiria aceitar a traição. Isso António sempre soube, quando começou o romance com Carlota.

Agora, António vive na casa de campo, e Leonor no apartamento em Lisboa, rodeada das filhas, netos e das idas ao teatro. Para o ex-marido, já não há espaço neste novo capítulo.

Destrói parasitas e elimina papilomas melhor do que qualquer medicamento.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

– Quarenta anos a viver juntos sob o mesmo teto, e agora, aos sessenta e três anos, resolves mudar de vida?