Quando o voluntário abriu o canil, o meu guião foi por água abaixo
Nesse sábado, entrei no abrigo com a convicção de quem já vai ganhar o Euromilhões: tinha tudo decidido e até nome escolhido. Encontrei-o antes, perdido entre dezenas de fotos no site um belo cão rafeiro com ar de boxer, olhar inteligente e, vá, também um bocadinho triste.
Na minha cabeça, ele já era o Simão. Passava dias a imaginar como seria o nosso primeiro encontro: a porta abre-se, ele corre para mim de cauda aos saltos, mal contém a alegria, saímos juntos dois seres finalmente reunidos pelo destino.
Eu tinha a certeza absoluta de que era assim que ia ser. Imaginei passeios sem fim pela marginal, idas à esplanada, noites de sofá e mantinha. Ia buscar um amigo.
Mas quando o voluntário rodou a chave e abriu o canil, foi como se alguém tivesse baralhado o meu filme. O Simão não saltou para mim. Nem sequer se mexeu. Só soltou um ganido baixinho e baixou a cabeça, como quem pede desculpa por não corresponder ao anúncio.
Dei dois passos em frente, apertando a trela nas mãos.
Anda lá murmurei, meio desconfiado.
Ele ergueu os olhos para mim. Olhar mais profundo do que medo. E depois virou as costas.
E foi aí que reparei.
No canto, quase encostado à parede, estava um cachorrinho minúsculo um novelo tricolor que não devia ter mais de dois meses. Tremia por todo o lado. Mas não olhava para mim.
O olhar dele estava colado no Simão. E o Simão olhava para ele daquele jeito de quem já escolheu família.
Ali havia uma ligação invisível e bem real. Não era só vizinhança de canil. Eles seguravam-se. No tumulto do abrigo, eram abrigo um do outro. Apoio mútuo. Aquece-corações.
E de repente percebi: o Simão não era nem teimoso nem frio. Ele simplesmente não estava disposto a ir sozinho. O coração dele já estava colado àquele rabinho trémulo. E se levasse só um, traía os dois.
Olhei para o voluntário e, num tom que já vinha com a decisão tomada lá dentro, perguntei:
Posso levar os dois?
Ela sorriu, tipo finalmente!.
Dormem sempre juntos. O pequenino mete-se debaixo da pata dele.
Saímos do abrigo devagar, os dois lado a lado ainda a medo, mas juntos. No carro, silêncio absoluto. O bebé enroscou-se e o Simão pousou delicadamente a cabeça enorme em cima da cabecita dele.
Só assim o pequeno fechou os olhos finalmente tranquilo, a confiar.
Foi nesse momento que percebi: vim buscar um cão. Levo uma família para casa.
Às vezes, o coração sabe melhor do que qualquer plano.






