Quando o silêncio se tornou quase doloroso, o primeiro aplauso ecoou como um tiro.

Quando o silêncio se tornou tão espesso que quase apertava o peito, o primeiro aplauso explodiu como uma salva estranha, ecoando nos cantos dourados do salão.

Um, dois, três. Num instante, a sala inteira vibrou em ovações. Senhores levantavam-se, palmas faiscavam, alguém gritava “Bravo!”, senhoras limpavam lágrimas transparentes, e cavalheiros coçavam as gargantas, desejando disfarçar o arrepio.

Beatriz permanecia imóvel, envolta numa neblina. Sentia o coração bater tão forte que parecia querer saltar-lhe pelos ouvidos, onde o zumbido era quase música. Estava certa de que seria expulsada, mas em vez disso, todos a olhavam com assombro a rapariga descalça, vinda de lugar nenhum.

Professor Diogo Almeida aproximou-se, os passos ressoando como notas graves sobre o mármore. O tecto parecia afastar-se, as luzes flutuavam.

Como te chamas, menina? perguntou ele com voz que ecoou macia.

Beatriz murmurou.

Onde aprendeste a tocar assim?

Em lado nenhum deu de ombros. A minha mãe mostrou-me algumas notas… depois foi só eu.

Professor Almeida ficou a observá-la longamente, como se procurasse decifrar de que sonho nascia aquela música pura de dedos sem nem sapatos. Depois virou-se para o público:

Senhoras e senhores, esta noite presenciámos um verdadeiro milagre.

Os aplausos recomeçaram, mas Beatriz já não os escutava. O mundo girava. Não comia há dois dias.

O professor percebeu e chamou o empregado:

Traga-lhe comida. Agora.

Pouco depois, uma tigela de caldo quente foi deposta à sua frente. Beatriz comeu devagar, calada, receando que o prato pudesse desaparecer. Almeida sorria com serenidade.

No fim, o salão esvaziou-se. Só as velas morriam e o ar cheirava a perfume, cera e sonhos.

Tens onde dormir? perguntou o professor.

Ela abanou a cabeça.

E família?

Não. Só tinha a mamã

Almeida assentiu.

Amanhã às dez, espero-te aqui. Vamos à Escola de Música. Vais tocar para eles.

Não posso sussurrou. Não tenho roupa, nem sapatos

Ele sorriu suavemente.

Isso já não é problema teu.

Na manhã seguinte, Beatriz aguardava à porta do Hotel Avenida limpa, penteada, numa simples mas elegante vestida.

Trazia às costas uma mochila nova, mas dentro, a velha fotografia da mãe permanecia.

Professor Almeida chegou em ponto, conduzindo o seu velho Opel azul.

Quase não conversaram pelo caminho, só uma vez perguntou:

O que sentiste ao tocar ontem?

Parece que a mamã estava ali comigo respondeu Beatriz, baixinho.

Ele sorriu e continuou.

A Escola de Música Luís de Freitas Branco, em Lisboa, acolheu-os num silêncio atento. A secretária lançou a Beatriz um olhar desconfiado.

Lamento, senhor professor, as audições são só na primavera.

Ouça-a cinco minutos pediu Almeida. Só cinco.

Cinco minutos depois, o diretor estava já de pé, sem fala.

Esta menina não precisa de audição. Ela é música.

Assim, Beatriz Lopes tornou-se a mais jovem aluna da escola.

Anos passaram.

O seu nome começou a surgir em cartazes, entrevistas, e programas de televisão.

Diziam que na música dela não havia apenas técnica, mas alma.

Nunca se esqueceu da primeira tigela de caldo e do salão onde lhe permitiram tocar pela primeira vez.

Professor Almeida tornou-se seu mentor, depois quase pai. Observava-a crescer, via as plateias delirarem e as pessoas chorarem nos concertos.

E nos olhos dela, restava sempre a saudade de quem esteve, um dia, com fome.

Oito anos depois, no mesmo Hotel Avenida, realizava-se novamente o baile “Esperança Jovem”.

Novo piano de cauda, mesma plateia, mesmos fatos caros e brilhos de prata.

Professor Almeida sentava-se na primeira fila já com cabelos prateados, mas cabeça erguida de orgulho.

O apresentador subiu ao palco:

Senhoras e senhores, esta noite temos connosco uma menina cuja história começou aqui. Recebam… Beatriz Lopes!

Ela entrou vestida de branco, sem maquilhagem, sorrindo.

O salão calou-se.

Sentou-se ao piano, mas antes de tocar, olhou as pessoas:

Há oito anos entrei aqui descalça. Só queria comer. Um homem disse: Deixem-na tocar. Hoje toco para ele.

E tocou.

A mesma melodia, mas agora diferente madura, intensa.

Em cada nota havia dor e luz.

Quando o último acorde desvaneceu, Almeida levantou-se. Não aplaudiu só olhou. Com lágrimas nos olhos.

Aproximou-se, abraçou-a e sussurrou:

Agora podes alimentar o mundo inteiro com a tua música.

Uma semana depois, Beatriz criou a sua fundação Nota de Esperança.

No primeiro dia, foi à Estação do Rossio, onde crianças dormiam no chão.

Chegou-se a um rapazinho sentado no passeio e ofereceu-lhe uma quente fatia de pão.

Estás com fome?

Sim.

Tocaste algum instrumento? perguntou.

Não respondeu o pequeno.

Beatriz sorriu:

Vem. Eu te ensino.

Os jornais escreveram:

A menina que um dia tocou por uma tigela de sopa, hoje dá pão aos outros.

Mas Beatriz sabia que o verdadeiro milagre não era aplauso, nem fama.

Foi naquela noite, quando alguém apenas disse:

Deixem-na tocar.

E desde então, nunca mais houve fome onde houvesse música.

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Quando o silêncio se tornou quase doloroso, o primeiro aplauso ecoou como um tiro.