Cinquenta mil euros, Domingos. Cinquenta. Em cima dos trinta da pensão.
Constança atirou o telemóvel para a mesa da cozinha, fazendo-o deslizar pela superfície até quase cair no chão. Domingos conseguiu apanhá-lo mesmo no limite, gesto que irritou ainda mais Constança.
O Tomé precisava de ténis novos e equipamento para o futsal, Domingos pousou o telemóvel com o ecrã para baixo, quase a abafar uma prova. Ele está a crescer, Constança. As crianças crescem, é assim.
Ténis por cinquenta mil? Ele vai jogar pelo Benfica, foi?
Também pediu uma mochila e um casaco. O outono chega já.
Constança desviou o rosto, sem vontade de olhar para o marido. Sabia destes pagamentos. Todos os meses, sem falha, sempre com a mesma desculpa: filho, responsabilidade, obrigação. Palavras bonitas, números bem concretos, sempre a sair do orçamento em direção a outra casa.
Eu gosto dele, Domingos aproximou-se, parando a um passo das costas dela. É meu filho. Não posso simplesmente
Eu disse para abandonares o miúdo, fui? Só questiono porque gastamos tanto para além da pensão! Trinta mil euros por mês, achas pouco? A Sofia não trabalha?
Trabalha.
Então qual é o drama?
O silêncio caiu. Constança já conhecia aquela pausa de cor significava não haver resposta. Só havia o reflexo de ajudar, de ceder, de ser o bom ex-marido, bom pai, bom homem. Às custas deles.
Virou-se, encostando-se ao lava-louça.
Eu faço contas, sabias? Na cabeça. Quanto sai cada mês. Queres saber quanto é num ano?
Nem quero ouvir.
Quase seiscentos mil euros. Fora estes cinquenta de hoje.
Domingos esfregou o nariz sinal de não vale a pena discutir. Mas Constança não se conseguiu calar. Guardou silêncio demasiado tempo, já não sabia fingir compreensão.
Planeámos férias. Lembras-te? Prometeste em novembro, o Algarve, duas semanas. E agora, onde estão esses euros?
Eu percebo, Constança. Mas a Sofia ligou, era urgente
Sofia! Sempre Sofia, sempre uma urgência.
Domingos foi afundar-se no banco da cozinha, cotovelos nos joelhos. Constança de repente viu que ele parecia exausto. Exausto, não do trabalho mas deste cabo-de-guerra, sempre a esticar entre duas mulheres. Sentiu pena, reprimiu logo.
Ela quer comprar casa, murmurou Domingos, olhos baixos. Para o Tomé ter o quarto dele.
Casa? Casa como?
Maior. Vivem num T0, sabes. É apertado.
Apertado para ela. E quem paga?
Ele finalmente olhou para ela, um lampejo de culpa nos olhos. Constança gelou.
Não vais
Pediu ajuda para a entrada. Só estou a ponderar.
A ponderar? Domingos, isso são milhares de euros! Vais tirar de onde?
Nós poupámos. Para o carro
Poupámos! Para o nosso carro, para a nossa família!
A voz de Constança quase explodiu. Tapou a boca, quis empurrar as palavras para dentro. Era tarde. O ar entre eles pesava.
Domingos foi até à janela, mãos nos bolsos.
O Tomé também é da minha família. Não vou fingir que ele não existe.
Ninguém te pede isso! Mas há pensão legal, oficial. Tudo para além disso é escolha tua. E minha, já agora. Dinheiro dos dois.
Eu sei.
Mas isso não te trava!
Silêncio. Dos vizinhos vinha o som abafado da televisão, risadas de sitcom. Cenário absurdo para aquelas palavras.
Constança sentou-se no seu lugar, alisando o pano da mesa. Por dentro, tudo ardia mágoa, raiva, confusão e mesmo assim falou pausadamente:
De quanto ela precisa afinal?
Dois milhões para a entrada.
O número ficou a pairar, e Constança soltou uma gargalhada seca, sem humor.
Dois milhões. É tudo o que temos.
Eu sei.
Vais mesmo dar-lhe esses euros?
É para o meu filho.
Eu sou contra. O dinheiro também é meu, não esqueças.
Domingos não respondeu não havia mais conversa.
Uma semana depois, Constança abriu o aplicativo do banco, só para ver se o ordenado tinha caído. Mexeu no ecrã até chegar à conta-poupança a tal que tinha três anos de sacrifício.
Saldo: quarenta e sete mil quinhentos e dois euros…
Piscou. Reiniciou. Conferiu de novo.
Quarenta e sete mil em vez de dois milhões…
O telemóvel escorregou-lhe dos dedos e caiu molhado no tapete.
Constança ficou parada no meio da sala. Dois milhões. Três anos a guardar, sem férias, a contar moedas. E restava só quarenta e sete mil. Migalhas do futuro comum.
Ergueu o telemóvel, abriu o histórico. Transferência para Sofia Daniela Costa.
Nem disfarçou.
Domingos estava sentado no sofá com o portátil quando ela entrou de rompante. Sorriu, sorriso apagado ao ver a expressão dela.
Dissipaste as nossas poupanças toda com a tua ex?!
Gritou. Não lhe importavam os vizinhos, nem o prédio todo.
Constança, espera, deixa explicar
Explicar?! Dois milhões, Domingos! Dois! Eram os nossos euros!
Domingos pousou o computador, levantou-se devagar. Não havia vergonha, só teimosia.
É pelo Tomé. Merece um quarto, casa condigna. Sou pai, tenho obrigação
A obrigação principal é comigo! Com a família cá de casa não com a que acabaste há quatro anos!
Ela é mãe do meu filho.
E eu quem sou?!
A minha esposa. Amo-te, mas o Tomé
Basta usar o nome dele como escudo! Constança avançou e Domingos recuou. Compraste casa para a Sofia. Não para o Tomé para ela. Casa no nome dela, vai morar lá, fazer o que quiser, até vender se quiser. E o que tem isso a ver com o rapaz?!
Domingos abriu a boca, fechou. Sem resposta. Sabia que ela tinha razão.
Tu ainda a amas, sussurrou Constança. Não é pelo Tomé, é por ela. Nunca consegues negar.
Não é verdade.
Então porquê? Por que não me perguntaste? Decidiste pelos dois!
Domingos aproximou-se, braços abertos.
Constança, por favor. Vamos falar sem gritos. Eu entendo que estás magoada, mas é pelo meu filho
Ela afastou o toque dele.
Não me toques.
Três palavras. Viraram parede. Domingos ficou imóvel, finalmente com cara de perceber. Muito tarde.
Não posso viver assim, Constança passou para o quarto, tirou uma mala do armário. Não quero viver com alguém que decide sozinho. Que mente. Que
Eu não menti!
Não disseste é igual.
Atirou roupa, papéis, carregadores para a mala. Domingos, na porta, só olhava o naufrágio.
Vais aonde?
Vou para casa da mãe.
Muito tempo?
Fechou e levou a mala ao ombro. Olhou para este homem perdido, que não entendia o que fez.
Não sei, Domingos. Mesmo não sei.
Três dias na casa da mãe foram estranhos, como um sonho esquisito. No primeiro, Constança deitou-se no sofá a olhar para o teto. A mãe trouxe chá, não fez perguntas, só lhe fez festas no cabelo como em menina. No segundo, veio a raiva forte, como quem limpa ferida. No terceiro, tudo clarificou.
Ligou ao advogado conhecido.
Quero o divórcio. Sim, tenho certeza. Não há reconciliação.
Domingos telefonava todos os dias, mandava mensagens longas e trocadas, cheias de desculpas e explicações. Constança lia, não respondia. Ele tinha escolhido. Agora era a vez dela.
Um mês depois, Constança mudou-se para um T0 alugado no outro lado de Lisboa. Pequeno, vista para fábricas, mas só dela. Comprou cortinas, organizou móveis, decidiu como gastar o ordenado.
O divórcio foi rápido Domingos assinou tudo sem argumento. Talvez esperasse que ela voltasse. Não voltou.
Às vezes, à noite, Constança sentava-se à janela e pensava no quão estranho era tudo. Três anos atrás achava que tinha encontrado o seu par. Agora estava só numa casa vazia e não sentia medo.
Abriu um caderno, escreveu: zero. Um recomeço. Ao lado, planos para o mês, para o ano, para o futuro. Quanto guardar, como investir, que cursos tirar para progredir.
Pela primeira vez em muitos anos, o seu futuro dependia apenas dela.







