Quando a Inês tinha dois anos, vivia numa casa de acolhimento em Lisboa. Fui lá para fotografar as crianças. Deram-me logo as que tinham menos hipóteses de serem adotadas. Entrei no grupo dela e vi uma menina com uma expressão carrancuda, rosto torto, parecia quase uma velha. “Que criança tão feia”, pensei. Depois comecei a fotografá-la. E vi-a, de verdade. Por trás daquela máscara parada e triste. Ela ganhou vida.
É difícil captar o olhar de uma criança privada de afeto. Mas aquela menina olhou-me de frente pela lente. Sem desviar os olhos.
De repente, vi-lhe a alma. Sozinha, infinitamente sozinha. Sofrida. Nem era esperança, era só aquele momento, provavelmente o primeiro na vida dela, em que alguém a reparava. Reparava a alma rejeitada, mas tudo compreendendo. Igual à minha. Depois desviou o olhar. E os olhos encheram-se de lágrimas.
Pedi à educadora: Conte-me sobre a Inês, preciso escrever um texto. O que quer que conte?, respondeu ela. A Inês não faz nada, não fala Só se senta em espargata e abana-se até bater com a cabeça no chão. E geme. Nada para contar. Ela é ninguém.
Dois meses antes daquela manhã, a nossa filha mais nova tinha morrido. A nossa bela vida bateu com estrondo numa parede de pedra e deixou de existir. E nós continuámos a existir, mas noutra vida. Uma vida DEPOIS. Andávamos, falávamos, comíamos, fazíamos tudo para esconder o nosso desespero dos nossos filhos, para não lhes tirar a esperança eles, pelo menos, tinham de ter alguma. Eu pensava: Será que algum dia vou voltar a alegrar-me com alguma coisa? Ia nos trabalhos, conduzia a chorar, depois limpava a cara com as mãos frias, respirava fundo e fingia ser uma pessoa normal. Falava normalmente e sorria. Mas era tudo de fachada.
Não queria substituir a minha filha. Só queria sobreviver de alguma maneira. E é aí que aparece a Inês, com a sua solidão e desespero. Não é que eu já não tivesse visto mil crianças solitárias nestes projetos, crianças-que-esperam. Mas esta solidão parecia minha, feita à medida para entrar no meu coração…
Em casa, disse ao meu querido marido: Não sei como te hei de dizer isto, nem o que é fotografei uma menina hoje eu sei, eu sei mas não consigo parar de pensar nela… olha, talvez valesse a pena pensarmos? E o André respondeu: Estás a ouvir-te? Que meninas? Nós mal conseguimos respirar.
Eu sei, eu sei, não estou bem. E duvido que volte a estar. Temos de aprender a viver assim.
Voltámos à casa de acolhimento. Ver a Inês. A educadora trouxe-a. Era minúscula, o mesmo ar estranho, quase que rastejava como um caranguejo torto. Tinha o nariz a escorrer, com uma crosta verde de ranho. Meu Deus, pensei, que assustadora. Uma espécie de embrião de gente. Um embrião falhado. O que é que eu vi nela?
A Inês tocou no brinquedo que trouxemos, caiu sentada, abriu as pernas, e começou a abanar-se rapidamente, batendo com a testa no chão.
E a diretora, ao fundo, discursava: Dr.ª Catarina, esta menina nem sequer é portadora de ligeiro atraso! É profunda deficiência intelectual! Não há perspetivas. Vai passar para a Segurança Social. Já recusei sete famílias que desistiram dela. Não faz nada do que devia para a idade. Só se senta em espargata e abana-se. Chamamos-lhe a Volochkova
E então o meu marido, aquele de quem eu tinha medo de olhar o rosto durante tudo aquilo, disse: Sabe que mais? Nós gostamos dela. Vamos ficar com ela.
Mais tarde perguntei-lhe: Porquê? Tu não querias. E o André respondeu: Percebi que tinha de ser salva. E que ninguém ia fazê-lo se não fossemos nós.
Adotámos a Inês, deixando toda a equipa da casa a olhar-nos como quem não entende nada.
Inês estava num estado profundo de depressão. Não confiava no mundo. O mundo tinha-lhe sido sempre hostil e indiferente. Não a conhecia, não gostava dela. Dois anos sem conseguir influenciar nada à sua volta. Não sabia pedir, não sabia brincar. Só destruía. Tinha medo de tudo, assustava-se facilmente e voltava ao movimento de embalo. Chegava a chorar até ficar sem ar. Só comia sopa passada. Mal andava, tinha pavor de água, penico, pai, elevador, vento, carro
Por dentro de mim uivava a minha tristeza. Por fora, uivava a Inês. Já percebo porque desaconselham adotar uma criança quando estás em luto. Não tens forças. Gastas tudo a reunir os pedaços de ti mesmo. E para uma criança, são precisas muitas forças. Eu fui buscá-las ao nosso próprio sofrimento.
Dizia para mim: O teu sofrimento é tão pequeno depois do que esta criança não teve. Perdeste uma filha. Mas ficaste com um filho, uma filha, marido, mãe, amigos, trabalho que adoras, casa. A Inês nunca teve nada. Em nada. Para ela é tudo mais difícil.
Sabem o que acabou por ser aquele ser franzino, sombrio, partido, infinitamente queixoso, depressivo que levámos para casa, desfeitos pelo luto? Tornou-se a nossa adorada filha Inesita. Dizer que foi rápido é ilusão, porque já passaram nove anos desde então.
A Inês transformou-se naquilo que sempre estava destinada a ser leve, alegre, brincalhona, boa e disponível, meiga, sensível e mesmo muito paciente connosco, uma menina bonita. Frequenta uma escola normal, na turma de apoio à fala. Faz mergulho. Mergulho!
Diz-me: Mãe, desta vez consegui logo respirar direitinho com o regulador debaixo de água Nesta altura, fico logo em lágrimas.
Agora, a Inês está num campo de mergulho no Algarve. Foi de avião. Tem onze anos. Telefone-me toda contente: Mãe, isto é lindo, já fomos nadar mas ontem houve uma tempestade e o mar ficou mesmo frio! Mas está a aquecer, chegaram os nossos fatos de mergulho, amanhã vamos mergulhar! Ao jantar houve peixe, e demos quase tudo aos gatos, há imensos gatos aqui, sabes que não gosto de peixe! Mas comi puré. Fomos fazer uma caminhada à serra, treze quilómetros, quase fiquei sem pernas é tudo lindo, há árvores que dizem que só existem em Portugal! Fiz amigas fantásticas! Comprei bolachas com os cinco euros que me deste e partilhei com as outras. Andamos de baloiço nos jardins Tenho saudades!
Porque a salvei. Salvámo-la. E salvámo-nos a nós também. Juntos, nesta jangada. É verdade: por vezes, quando ajudas quem mais precisa, acabas por encontrar também a tua própria redenção.







