Quando Abrimos a Porta e Perdemos o Controle: O Drama de Cristina ao Deixar o Pai Morar no Seu Apart…

Diário, 14 de junho

Hoje foi um daqueles dias em que pensei: Por que me meti nessa? Juro, se pudesse dar marcha atrás, teria deixado o assunto para lá. Cheguei ao apartamento onde cresci, aquele que herdei da minha avó Maria. O prédio já é antigo, em Alfama, mas há um charme nas ruas estreitas e nos azulejos azuis nas fachadas. O interior não era tão convidativo quando peguei as chaves: móveis velhos, papel de parede descascando, radiadores enferrujados. Mas com um pequeno pé-de-meia acumulado de anos a fio de trabalho, consegui fazer uma reforma. Criei um ambiente à minha moda tudo limpo, claro, com cortinas densas que mantêm a luz sob controle e um tapete macio comprado numa feira de artesanato de Évora. Havia até escolhido um sofá Italiano, nada barato, pago em prestações suadas em euros.

Foi então que voltei hoje para buscar uns documentos, e dei de cara com o cenário totalmente alterado. Parecia outro mundo: cortinas de tule barato penduradas nas janelas, o meu sofá encoberto por uma manta sintética estampada com um tigre enorme, e na mesa de centro uma jarra rosa, de plástico, abarrotada de rosas artificiais cor-de-choque. Mas nem era isso o pior logo notei um cheiro de peixe frito pairando no ar, misturado com o odor de tabaco. Mas o meu pai, António Simões, nunca fumou…, pensei, estranhando tudo.

De repente, surge ele da cozinha, tentando sorrir, mas visivelmente desconfortável.

Filha, que surpresa! Não sabia que vinhas… disse, coçando o queixo.

Fui à sala em busca de explicações:

Pai, o que é isto tudo? Parece uma loja de velharias!

Ele hesitou um pouco, desviando o olhar, e admitiu:

Olha, Lina… tenho de te contar uma coisa. Não estou sozinho cá.

Fiquei presa sem palavras. Os meus pais divorciaram-se há um ano e a minha mãe, Clara, lidou bem com isso até parece que renasceu, vive entre aulas de ioga e cafés com amigas. Já o meu pai perdeu-se; voltou para o antigo apartamento dele em Benfica, que durante anos foi alugado. Infelizmente, um dos inquilinos queimou o sítio todo ao adormecer com um cigarro aceso. O apartamento virou um buraco, paredes chamuscadas, janelas partidas, bolor por todo o lado. Quando ele veio pedir ajuda, fiquei com pena. Não podia suportar a ideia de ele viver naquele fundo de poço. De coração mole, ofereci-lhe temporariamente o meu apartamento:

Pai, pára de sofrer. Venha cá morar até meteres tudo em condições em Benfica. Só peço uma coisa: nada de visitas.

És um anjo, filha! Prometo, não dou trabalho, nem faço barulho.

Mentira. A promessa evaporou-se com o vapor da casa de banho poucos minutos depois. Quando a porta se abriu, saiu uma mulher de cerca de cinquenta anos, largada no meu roupão felpudo cor de marfim o meu favorito! A senhora, de cabelos curtos e voz rouca, olhou para mim e disse num tom condescendente:

Oh, António, trouxeste companhia? Podias ao menos avisar, venho para aqui de roupão!

Fiquei incrédula e perguntei, já sem paciência:

E você quem é, e por que veste o meu roupão?

Ela respondeu com desdém:

Sou a Joaquina, a namorada do teu pai. Não fiques nervosa, filha. O roupão estava aqui, nem faz falta.

O sangue subia-me à cabeça. Exigi que o tirasse de imediato. Meu pai tentou intervir, mas só piorou:

Lina, não faças disso um drama. A Joaninha só pegou no roupão, não há motivo para confusão…

Mas há! retorqui. Trouxeste uma estranha para minha casa, deixas mexerem nas minhas coisas!

A senhora foi para o sofá com ar de desprezo:

Que falta de maneiras, menina. Se eu fosse o António, dava-te um correctivo! O facto do teu pai querer outra mulher não é problema teu.

Não é problema meu, até acontecer na minha casa, pensei. Olhei para o meu pai, que se encolheu junto à parede, olhos a saltar entre mim e a intrusa, na esperança inútil de que tudo se resolvesse sozinho.

Senti uma vontade fria de ser clara:

O meu pai esqueceu de esclarecer que aqui é tudo meu. Ele é hóspede. Este apartamento, cada colher, cortina e prato, fui eu que comprei. Deixei-o aqui por piedade, não para isto.

A cara da Joaquina ficou encarnada como um tomate.

António? Disseste-me que era teu apartamento… Mentiste?

O meu pai encolheu-se ainda mais, tenso, tentando abafar tudo com desculpas vagas.

Joaninha, não quis dar-te trabalho… Não queria maçar-te com detalhes.

Ela virou-se para mim com rancor, e não aguentei mais:

Porta. Agora. Ambos. Dou-vos uma hora. Se ficarem, tratamos disto pela lei. Já dizia a minha avó: Quem muito abre a porta, enche a casa de gente.

A caminho da porta, o meu pai implorou:

Filha, vais pôr o teu próprio pai na rua? Sabes como está o meu outro apartamento! O frio lá dentro…

Ele agarrou-me o braço e quase vacilei. Memórias de infância, o amor de filha, aquela compaixão que por vezes pesa mais que dever. Mas aí vi a Joaquina, perna cruzada, ar azedo, o meu roupão pendurado nas suas costas, e decidi ali: Se não agir, amanhã ela troca fechaduras e pinta a casa ao seu gosto.

Pai, és crescido. Vais alugar outro sítio. Traíste a confiança, trouxeste visitas e transformaste o meu refúgio num caos…

A Joaquina interrompeu:

Fica com a casa, que te faça bom proveito! António, vamos embora não vale a pena implorar!

Em meia hora, empacotaram tudo e saíram de cabeça baixa. O meu pai parecia mais velho, corcunda, com os olhos de um cão abandonado à chuva. Doeu-me, mas resisti. Depois de limparem, abri as janelas para o cheiro de peixe frito e tabaco se dissipar. Roupão, manta do tigre, tudo o que Joaquina deixou foi directo para o lixo. No dia seguinte chamei uma empresa de limpeza e troquei fechaduras. Só de tocar no que aquela mulher usou, fico arrepiada.

Quatro dias passaram. Agora, tudo está em ordem sem flores artificiais, sem aromas duvidosos, sem vozes estranhas. Vivo com o meu marido Salvador, mas só de saber que o meu cantinho está intacto, respiro melhor.

O meu pai não me falou desde então até hoje, quando ligou:

Lina… Satisfeita agora? A Joaquina foi-se embora. Não aguentou, disse que eu sou um pobre enganador, empacotou e foi-se para a irmã. Amávamos-nos, minha filha!

Suspirei. Amavam-se nada. Ele procurava conforto, ela também só não deu certo o golpe para nenhum dos lados.

Oh pai, o amor nunca foi o problema. Você é que queria empurrar o incómodo para o lado de cá, e ela fez o mesmo. Nenhum quis assumir a responsabilidade.

Houve silêncio. O pai, voz frágil e rouca, implorou:

Sinto-me só, Lina. Posso voltar? Juro que não trago ninguém, só eu.

Olhei para o chão. Sei que está sozinho num sítio a cair de podre, mas não fui eu que deixei as paredes enegrecerem, nem que plantei a mentira aqui dentro.

Não posso, pai. Arranja trabalhadores, contrata uma equipa, restaura a tua casa. Só posso indicar bons profissionais. Se precisares, fala comigo.

Desliguei. Cruel? Talvez. Mas não quero, nunca mais, marcas das escolhas dos outros no meu roupão ou na minha alma. Há sujidades que só se evitam não as deixando entrar.

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