Quando abri o roupeiro no quarto do hotel, encontrei na mala do meu marido um vestido que nunca tinha visto antes.

Quando abri o roupeiro no quarto do hotel, encontrei no meio das camisas do meu marido uma peça de roupa que nunca tinha visto antes um vestido de seda azul-escuro, dobrado com um cuidado quase cerimonioso. Junto a ele, estava um pequeno cartão de uma loja chique na Avenida da Liberdade.

Nunca fui especialmente curiosa, mas aquele vestido de certeza não era meu.

O hotel era de luxo. Viemos para Lisboa por causa de um evento da empresa dele, uma gala anual. Os espelhos longos nos corredores brilhavam, os tapetes eram espessos e macios, e o aroma dos pratos caros e de espumante subia do restaurante lá em baixo.

Olhei de novo para o vestido.

O tamanho era mais pequeno do que eu alguma vez consegui usar.

Nesse instante, o Ricardo entrou no quarto.

Ainda não estás pronta? perguntou ele, enquanto afrouxava a gravata.

Eu segurava o vestido nas mãos.

Ele parou, por um breve segundo. Tempo suficiente, no entanto.

De quem é este vestido? perguntei, com serenidade.

Ele aproximou-se devagar.

Isto Não é o que estás a pensar.

Quando alguém diz isso, é sempre exatamente o que se está a pensar.

Compraste um vestido para alguém afirmei. Apenas esse alguém não sou eu.

O Ricardo suspirou.

Leonor, não faças um drama agora. Daqui a nada temos de descer.

Que engraçado murmurei. Portanto, o drama é que é o problema, não o vestido.

Ele lançou um olhar à porta, como se o corredor ali fora pudesse salvá-lo.

É só uma prenda.

Para quem?

O silêncio dele foi resposta suficiente.

O quarto encheu-se de silêncio, apenas interrompido pelo som eléctrico do ar condicionado.

Há quanto tempo? perguntei.

Leonor

Há quanto tempo?

Não interessa agora.

Voltei a observar o vestido. A seda era fria e macia entre os meus dedos.

Então ela vai usá-lo esta noite?

Ele não disse nada.

No mesmo evento em que eu vou estar sentada ao teu lado?

Ricardo mordeu os lábios.

Isto não devia ter acontecido assim.

Mas aconteceu.

Coloquei o vestido de novo na mala e fechei o fecho devagar.

Quem é ela?

Uma colega do escritório.

Pois claro.

Peguei na minha carteira e calcei os sapatos.

Para onde vais? perguntou ele.

À festa.

Ele olhou sem perceber.

A sério?

Claro.

Abri a porta do quarto.

Estou curioso para ver que mulher vai usar este vestido.

Dez minutos depois, entrámos juntos no salão imenso do hotel. Lustres de cristal, música, gente elegante por todo o lado.

A uma mesa, sentava-se uma rapariga jovem, de cabelo loiro e comprido.

Ela vestia um vestido azul-escuro.

O mesmo.

Quando nos viu, sorriu ao Ricardo com um ar tenuemente vitorioso.

Foi nesse instante que percebi tudo.

Não era um caso secreto escondido num recanto qualquer. Era algo que, provavelmente, todos à nossa volta faziam ideia.

Aproximei-me da mesa dela.

A jovem transmitia segurança.

Olá disse ela.

Olhei o vestido que tinha posto.

Fica-te mesmo bem.

Ela sorriu, ainda mais.

Obrigada.

O Ricardo estava ao meu lado com a expressão de quem espera por uma tempestade.

Tirei a aliança do dedo e deixei-a à frente do copo dele.

Os presentes contam sempre a verdade disse baixinho. Simplesmente, às vezes aparecem nas mãos de quem não deviam.

Virei costas e caminhei para a porta do salão.

Enquanto atravessava a sala, ouvia movimentos de cadeiras e sussurros atrás de mim.

Mas, curiosamente, pela primeira vez em muitos anos, não me senti envergonhado.

Apenas livre.

Digam-me sinceramente dói mais descobrir uma traição em segredo, ou à vista de todos?

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Quando abri o roupeiro no quarto do hotel, encontrei na mala do meu marido um vestido que nunca tinha visto antes.