Quando a tia Nádia de Nicolau Ivanovich faleceu, ele nunca imaginou que a sua vida mudaria tão de repente. A tia vivia sozinha numa casinha nos arredores de Lisboa e tinha uma única neta

Quando a minha tia Beatriz faleceu, nunca imaginei que o meu mundo iria transformar-se de repente. Ela vivia sozinha numa casinha na periferia de Lisboa e tinha apenas uma neta, Matilde, com dez anos.

A mãe da miúda já há muito que deixara a família e emigrara para trabalhar no estrangeiro, enviando cartas apenas de tempos a tempos. Sabia que se deixasse Matilde sozinha, acabaria por ir parar a uma instituição.

A minha mulher, Leonor, ficou em casa. Não podia sequer pensar em ir até ao campo depois da operação aos rins, o médico proibira viagens longas. Leonor esperava-me no nosso modesto T2, com o jantar pronto: puré de batata, pastéis de bacalhau e uma salada fresca. O cheiro a pão acabado de cozer enchia o ar ela queria que eu sentisse o calor do lar, especialmente naquele dia difícil.

Cheguei já tarde, cansado. Atrás de mim, de mala pequena na mão, vinha Matilde. Os olhos, grandes, fitavam-nos com uma mistura de receio e curiosidade.

Leonor, esta é a Matilde disse baixo. Neta da tia Beatriz.
E a mãe dela? perguntou, admirada, a minha mulher.
Não veio respondi. Disse que não podia. A miúda ficou sem ninguém.

Matilde entrou devagarinho na sala, empurrando discretamente a mochila para a frente. Leonor respirou fundo e falou por fim:
Anda, querida. O jantar já está na mesa.

Nessa noite conversámos horas a fio à volta do café, tentando decidir o que fazer. Expliquei à Leonor que meter a miúda numa instituição era o mesmo que lhe arrancar a última ligação à família. Ela preocupava-se: já éramos velhos, a saúde não era a melhor, e a reforma mal chegava para duas pessoas.

Sonhámos tantos anos com tranquilidade sussurrou Leonor. Tempo só para nós, silêncio
Mas ela é uma criança respondi. Como poderia lidar com a solidão?

Na manhã seguinte, Matilde levantou-se cedo, antes de todos, e lavou a louça do pequeno-almoço.
Sempre ajudava a avó explicou, quase sem voz.

Aos poucos, fomos encontrando um ritmo. Matilde começou na escola do bairro, adaptou-se depressa e era dedicada. A casa ganhou nova vida livros, a mochila na entrada, música vinda do quarto dela.

Ao início, Leonor manteve-se reservada. Tinha medo de se apegar demais a uma criança que não era dela. Até que, numa noite em que se sentiu mal, Matilde ligou de imediato para o INEM, trouxe-lhe os medicamentos e segurou-lhe a mão até chegar ajuda.
Não te preocupes, avó murmurou-lhe ao ouvido.

Passou um ano. De improviso, parti eu. Leonor ficou só com Matilde. Os filhos vieram ao funeral, mas ficaram pouco.

Mãe, vai ser difícil com uma adolescente disse a nossa filha. Talvez devesses arranjar uma instituição para ela.

Leonor esteve calada muito tempo, olhando para a miúda, que já punha a mesa.
Quando o teu pai a trouxe, eu também tive medo murmurou, por fim. Agora já é parte de mim.

Matilde mostrou-se cada vez mais presente: cozinhava, limpava, ajudava em tudo. Nunca pedia nada para ela, estava sempre ao nosso lado.

Passaram-se mais dois anos. A saúde de Leonor fraquejava cada vez mais. Preocupada com o futuro da menina, chamou o notário e passou o apartamento para o nome dela.

Mas eu não sou da vossa família sussurrou Matilde, muito assustada.
Família não é apelido sorriu Leonor. É coração.

Matilde abraçou-a com delicadeza, como se tivesse medo de a partir. Naquele momento, Leonor percebeu: no fim da vida, o mais importante não são metros quadrados ou heranças, mas sim a pessoa que te fica ao lado nos momentos duros.

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Quando a tia Nádia de Nicolau Ivanovich faleceu, ele nunca imaginou que a sua vida mudaria tão de repente. A tia vivia sozinha numa casinha nos arredores de Lisboa e tinha uma única neta