«Procuro mulher sem problemas financeiros»: saí com um homem que, aos 45 anos, ainda vivia com a mãe E isso mudou para sempre a minha vida.
Já pensaram alguma vez no quanto uma simples frase num perfil de site de encontros pode revelar sobre uma pessoa? Não refiro as fotos ao lado de carros caros emprestados, nem aquela lista de exigências digna de regulamento falo de uma frase curta, quase jogada ao acaso, mas que, na verdade, diz tanto.
«Procuro mulher sem problemas financeiros.»
Foi essa declaração que chamou minha atenção, num sábado à noite em que eu percorria, quase sem vontade, os perfis do site. Na fotografia, via-se um homem perfeitamente normal: não era obeso, tinha um olhar amável e vestia uma camisa lavada. Vamos chamar-lhe Manuel, teria à volta de 45 anos.
Geralmente, passo rápido por anúncios assim. Traduzido para o feminino, costuma significar: «Não estou disposto a investir financeiramente e espero, sinceramente, que pagues por nós dois.» Mas, naquela noite, o meu instinto curioso despertou. Fiquei mesmo intrigada sobre o que estaria por trás deste pedido de autonomia financeira, vindo de um homem que parecia digamos, muito comum.
A curiosidade pode ser tramada, mas desta vez ofereceu-me material para uma boa história. Combinámos encontrar-nos.
Primeira impressão: tudo limpo, mas uma inquietação pairava
Manuel sugeriu encontrarmo-nos num jardim. Uma escolha clássica para quem tem receio de gastar demais num café ao primeiro encontro. Não me opus gosto de passear, e o dia estava fresco, mas soalheiro.
Apareceu exatamente na hora marcada. Nem um minuto a mais nem a menos. Na ocasião, achei isso positivo, mas depois percebi: não era a pontualidade confiante de quem se sente seguro, era disciplina quase de aluno. Estava à entrada do jardim, de pé, com umas calças vincadas que pareciam afiadas demais.
Boa tarde, disse, passando os olhos, quase avaliando, pelo meu sobretudo e mala. Parecia a tentar ver se usava marcas não fosse eu afinal ter esses tais «problemas financeiros».
Fomos pela alameda e, durante os primeiros dez minutos, a conversa seguiu o guião habitual: o tempo, o trânsito, o cansaço da cidade. Manuel falava de forma correta, até um pouco formal, mas havia no tom uma nota estranha como se procurasse aprovação ou já se desculpasse antecipadamente.
Entrevista para o cargo de «mulher prática»
Assim que as trivialidades se esgotaram, Manuel foi direto ao que interessava. Não rodeou o assunto, apenas abriu o dossiê da candidata.
Em que trabalha?
Sou contabilista numa empresa de transportes.
Ah, isso é bom. Estável. A casa é própria ou está a pagar empréstimo?
Quase tropecei. Normalmente, perguntas assim só aparecem depois de um ou dois copos de vinho, não aos quinze minutos de passeio.
Própria, menti, só para ver até onde ele queria chegar.
Ótimo, vi-o relaxar claramente. É que, hoje em dia, há muitas mulheres à procura de homem só para resolverem questões financeiras: dívidas, empréstimos, prestações E eu acho que uma relação deve ser de igual para igual.
Até aqui, nada a opor. Quem não quer uma parceria equilibrada? Mas, como sempre, o diabo está nos detalhes.
E o Manuel? Vive sozinho?
Foi então que respondeu com uma frase que devia ter posto fim à conversa, mas decidi ir até ao fim a este pequeno drama psicológico.
Não, vivo com a minha mãe. É prático e não faz sentido pagar renda com um T3 enorme à disposição. Além disso, a minha mãe já está de idade tensões e essas coisas.
Quarenta e cinco anos a viver com a mãe.
E como é que dividem as tarefas de casa? perguntei, tentando não mostrar o meu espanto.
Olhe, a minha mãe é de outra geração, sorriu-lhe com uma doçura que nunca me mostrou durante o encontro. Para ela, a cozinha é território feminino, e cozinha muito bem. Eu ajudo: levo o lixo, vou às compras conforme a lista. Está tudo na rotina.
Tomei nota mental daquela «lista».
O modelo económico do menino da mamã
Chegámos ao quiosque do café. Parei. Manuel hesitou.
Quer um café? perguntou, como se eu tivesse sugerido uma aventura financeira arriscada.
Aceitei um cappuccino.
Isto aqui não deve ser barato olhou para os preços. Em casa tenho uma máquina ótima, normalmente levo termo de café, hoje esqueci-me. Bem, pronto, vamos pedir. Um pequeno para si?
Comprou-me um pequeno cappuccino. Para ele, nada.
Já bebi em casa, murmurou.
Depois começou a explicar a sua filosofia da «mulher sem problemas». Para ele, isso não significava apenas uma mulher trabalhadora, mas uma mulher absolutamente autónoma que aceitasse encaixar-se no mundo já estabelecido por ele.
Não percebo porque é que as mulheres se fixam tanto no dinheiro, refletia. A minha ex era assim: «Vamos viver sozinhos, vamos de férias, troca de carro». Mas para quê? O carro anda, a casa existe. Eu e a mãe vivemos de forma simples, sempre com uma almofada financeira.
E a sua mãe não se incomoda se casar? perguntei diretamente.
Imagino! Ela ainda agradece. Diz sempre: «Manel, traz uma mulher prendada, que já me custa lavar o chão».
Foi aí que montei o cenário todo.
Ele não procura uma companheira. Ele e a mãe precisam de uma substituta.
A mãe envelhece, cuidar do «rapaz» de quarenta e cinco anos cansa mais. Sopas, camisas, chão do apartamento tudo começa a pesar. Precisavam de alguém sem «problemas financeiros» para não mexer no orçamento.
Chamado do centro de controlo
Quando Manuel dissertava sobre poupança de luz, o telemóvel tocou. Ele até estremeceu.
Sim, mãe? a voz tornou-se doce, quase infantil. Sim, estou no jardim. Sim, é com a senhora que te falei. Não, estou bem agasalhado. O cachecol? Está aqui. As pataniscas? Sim, já vou. Daqui a uma hora? Está bem. Comprar manteiga? «Vaca Dourada»? Percebi.
Desligou e sorriu-me, um pouco atrapalhado.
A mãe preocupa-se. Pediu que chegasse à hora do jantar.
Olhei o relógio. Eram cinco da tarde.
Manuel, disse, parando, já pensou que uma «mulher sem problemas financeiros» pode querer ter a sua vida própria? Viver longe da sua mãe. Viajar, ir a restaurantes?
Pareceu genuinamente surpreendido.
Mas, para quê ter duas casas se uma chega? Não é prático. E restaurantes a comida de casa é mais saudável. Uma mulher deveria valorizar o lar.
Quem manda aqui, afinal
Despedimo-nos cordialmente e fui para casa, a pensar no que tinha acabado de presenciar.
Homens assim parecem apenas poupados ou demasiado devotados à mãe. Mas a verdade é mais funda. Manuel não manda na vida dele. Vive pelas regras da mãe e finge que são dele.
«Procuro mulher sem problemas financeiros», na verdade, quer dizer: «Procuro mulher que não traga sarilhos à minha mãe».
Mulher com empréstimo vai exigir apoio. Mulher com filhos, dedicação. Mulher com ambição tira-o do marasmo. E isso ele não deseja.
O perigo
O mais irónico é que homens assim conseguem conquistar mulheres fortes e independentes. Tantas de nós habituadas a resolver tudo sozinhas pensamos: «Parece caseiro, não bebe, não é oportunista».
Só que «tudo para a família» ali quer dizer «tudo para a mãe». Nunca vão ser a primeira. Serão admitidas perto do Filho, desde que não desafiem a ordem e não peçam parte do orçamento.
Ganham o vosso dinheiro, gastam-no, e à noite ouvem críticas por não passarem suficientemente bem as camisas dele.
Apaguei o perfil do Manuel. Na verdade, bloqueei-o mesmo, para não o voltar a ver.
E vocês? Já vos aconteceu algum «Manuel» assim? Acham que homens destes podem alguma vez ter uma família normal, ou estará tudo já decidido? Contem-me a vossa opinião.






