«Procuro mulher sem problemas financeiros»: fui a um encontro com um homem de 45 anos que ainda vive com a mãe… E isso mudou a minha vida para sempre.

«Procuro mulher sem problemas financeiros»: fui a um encontro com um homem que, aos 45 anos, vive com a mãe… E isso mudou a minha vida para sempre.

Alguma vez pensaram em quantas verdades se escondem numa só frase de um perfil num site de encontros? Não falo das fotos junto a carros de outros nem das listas de exigências dignas de um decreto, mas sim daquela frase breve atirada quase ao acaso e, contudo, incrivelmente precisa.

«Procuro mulher sem problemas financeiros.»

Foi com essas palavras que tropecei enquanto deslizava, sonolenta, por entre perfis numa noite de sábado. Na fotografia, um homem perfeitamente comum: nem magro, nem gordo, olhar amável, camisa engomada. Chamemos-lhe Afonso, 45 anos.

Normalmente, passo por cima de frases destas sem perder tempo. Traduzidas para a língua das mulheres, tantas vezes querem dizer: «Não quero meter um tostão, espero que pagues tudo para os dois.» Mas naquela noite, o meu olhar de observadora despertou, curioso. Queria mesmo perceber o que se escondia atrás desta procura pela independência financeira num homem que, digamos, parecia tão vulgar e sem história.

A curiosidade raramente traz coisa boa, mas desta vez serviu-me um banquete para a alma e o texto. Marcámos o encontro.

Primeira impressão: assética e inquieta

Afonso sugeriu um passeio no Jardim da Estrela. Um clássico para quem teme gastar demais num café à primeira saída. Não me opus adoro caminhar, e a luz do outono em Lisboa era fria mas dourada.

Ele apareceu à hora exata. Nem mais, nem menos. Julguei aquilo sinal de rigor, mas depois percebi: era disciplina de menino bem comportado, não confiança de adulto. Estava plantado à porta do jardim, direito que nem militar, calças vincadas tão afiadas quase feriam.

Boa tarde, disse, enquanto os olhos passeavam inspecionando o meu sobretudo e a mala. Talvez à procura de marcas, para saber se o dinheiro realmente era problema meu ou não.

Lá seguimos pelo jardim. Os primeiros dez minutos foram de praxe: tempo, trânsito, cansaço da cidade. Afonso falava certinho, quase a soar a livro ou manual, mas nem por isso deixava de soar ansioso parecia à espera de aprovação, ou já se desculpando por existir.

Entrevista para «mulher funcional»

Assim que as formalidades evaporaram, Afonso foi direto ao assunto como quem abre a ficha do candidato:

E trabalha em quê?

Sou contabilista principal numa empresa de exportação.

Ah, isso é bom. Estável. E tem casa própria ou paga crédito?

Quase tropecei. Normalmente só se perguntam estas coisas após uns copos de vinho, não quinze minutos depois de conhecermos alguém.

Casa própria, menti, só por curiosidade, para ver aonde aquilo ia dar.

Ótimo, relaxou visivelmente. Hoje em dia há muitas mulheres a querer homem para lhes resolver dívidas, créditos, problemas. Eu acho que uma relação deve ser feita entre iguais.

Na boca de alguém pode soar lógico. Mas como sempre, o diabo mora nos detalhes.

E você? Vive sozinho? perguntei.

Então saiu-lhe a frase que devia ter dado fim ao encontro. Mas decidi assistir até ao fim o elaborado pesadelo.

Não, vivo com a minha mãe. É prático e faz sentido. Para quê pagar renda em Lisboa quando temos um T3 grande? Além disso, ela já está numa idade, a tensão sobe, não posso deixá-la só.

Aos quarenta e cinco, com a mãe.

E dividem tarefas de casa? arrisquei.

A minha mãe é uma mulher à antiga, sorriu, radiante, sorriso que nunca me dirigiu durante o passeio. Considera a cozinha território só dela, cozinha maravilhas. Eu ajudo: lixo, supermercado, tudo como manda a lista. No resto, está tudo organizado.

«Como manda a lista», pensei para mim.

O modelo económico do filhinho da mamã

Aproximámo-nos de uma rulote de café ao pé do coreto. Parei; ele hesitou.

Quer um café? perguntou com tom aflito, como se eu sugerisse uma aventura financeira arriscada.

Aceitei um galão.

Aqui é capaz de ser caro lançou um olhar às tabelas. Em casa tenho máquina automática, costumo levar café no termo mas hoje esqueci-me. Bom, vá, vamos lá. Um pequeno, não é?

Comprou-me o mais barato possível. Para ele, nada.

Já bebi em casa, murmurou.

Seguiu depois explicando, em tom professoral, a sua filosofia da mulher sem problemas. Que não era só ter trabalho, era ser completamente autónoma mas pronta a encaixar no mundo já construído por ele.

Nunca percebi as mulheres que vivem obcecadas com dinheiro, divagava. A minha ex era sempre: Mudemos de casa, vamos de férias, mudemos de carro. Mas para quê? O carro anda, a casa existe. Eu e a minha mãe vivemos simples, mas sempre com poupança.

E a sua mãe não se incomoda se casar? fui direta.

Ora essa! Fica contente. Até diz: Afonso, traz-me uma mulher prendada, já me custa passar a esfregona.

Ali fez-se luz e o puzzle encaixou.

Não procura uma companheira. Procura uma substituta.

A mãe envelhece, cuidar do menino de quarenta e cinco anos pesa. Sopa, camisas passadas, um T3 por limpar tudo mais difícil. Precisa-se sucessora. E sem problemas financeiros, claro, para que o orçamento continue familiar.

Chamada do centro de comando

No auge da sua palestra sobre radiações e contas da luz, o telefone tocou. Afonso tremelicou.

Sim, mãe? o tom logo pequeno, quase infantil. Sim, estou a passear. Sim, com a senhora. Não, não tenho frio. O cachecol está aqui. As almôndegas? Claro, daqui a uma hora? Certo. O azeite do costume? Percebi.

Desligou e sorriu, tímido, culpado.

A mãe fica preocupada. Quer que eu chegue para o jantar.

Olhei para o relógio. Cinco e dez.

Afonso, disse, parando. Já pensou que uma mulher sem problemas financeiros pode querer viver a sua própria vida? Longe da sua mãe. Viajar, jantar fora?

Espantou-se a sério.

Para quê viver separado, se há casa? Não faz sentido. Jantar fora A comida de casa é mais saudável. Uma mulher deve valorizar o lar.

Afinal, quem manda mesmo aqui?

Despedi-me com educação e fui embalando no metro o que acabara de viver.

Homens assim parecem só poupados ou bons filhos. Mas a verdade é outra. Afonso não manda na própria vida. Repete as regras da mãe, vestidas como suas.

«Procuro mulher sem problemas financeiros» traduzido: «Procuro quem não traga problemas à mamã.»

Uma mulher com crédito precisa de apoio. Uma com filhos dá trabalho. Uma com sonhos arrasta-o do atoleiro e ele não quer sair dali.

A armadilha por detrás da normalidade

E o paradoxo: homens assim acabam por atrair mulheres fortes, determinadas. Achamos: É pacato, não bebe, não é oportunista.

Mas o tudo pela família aqui quer dizer tudo para a mãe. Nunca serás prioridade. Só terás acesso ao corpo do Filho se não atrapalhares e não tocares no orçamento.

Trabalharás, gastarás do teu bolso, e à noite ouvirás críticas sobre como passaste mal as camisas dele.

Bloqueei o perfil de Afonso. Não só eliminei, não queria mais ver.

Já vos apareceu algum Afonso? Acham que tipos assim ainda têm salvação, ou já está tudo decidido há muito? Partilhem a vossa opinião.

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«Procuro mulher sem problemas financeiros»: fui a um encontro com um homem de 45 anos que ainda vive com a mãe… E isso mudou a minha vida para sempre.