Pretendente sugeriu um passeio ao ar livre com -20°C, porque “no café só estão mulheres sustentadas”. Então não perdi a compostura…

O pretendente sugeriu um passeio ao ar livre com temperaturas a rondar os zero graus, porque em cafés só se sentam mulheres que querem ser sustentadas. Não hesitei Apareci vestida com fato de ski e camisola térmica. Mas ele nem suspeitava do presente que lhe esperava

O rapaz chamava-se Tomás. Nas fotos, era um homem perfeitamente normal de trinta e poucos anos, bem arranjado, sem nada de extravagante. No perfil, fazia reflexões profundas sobre consciência, crescimento pessoal e a procura de uma alma genuína, vibrante. Nessa parte já devia ter ficado de pé atrás: a longa experiência diz-me que quando um homem fala demasiadamente sobre a mulher de verdade, normalmente só está à procura de uma versão cómoda, sem grandes exigências nem vontades.

Trocámos mensagens durante alguns dias. Tomás era educado, embora, por vezes, lá escapassem umas ideias estranhas. Adorava falar sempre com ar de sábio sobre como as mulheres da atualidade, na sua opinião, estão todas corrompidas pelo dinheiro.

Todas só querem restaurantes, viagens para o Brasil e iPhones escrevia ele. Ninguém quer olhar para a alma, só passear e conversar.

Eu, como uma portuguesa educada, acenava mentalmente, claro e tentava desviar o rumo da conversa. Afinal, cada um tem o seu passado, e quem sabe se a ex-mulher não lhe deixou sem casa ou sem esperanças. Nunca faço julgamentos antes do tempo.

Até que propôs um encontro. Só havia um problema: era pleno inverno, inverno mesmo à portuguesa frio de rachar, com termómetros quase a tocar zero e sensação térmica de desculpe, mas não sai ninguém de casa. Os jornais avisavam para evitar saídas desnecessárias e as notificações do Meteo.pt tinham mensagens a pedir só sair se for mesmo urgente.

Vamos dar um passeio pelo Jardim da Estrela diz Tomás. Respirar ar puro, conhecer-nos sem máscaras.

Tomás, está quase zero graus, vamos virar estátuas de gelo em dez minutos, não preferes um café?

Veio logo resposta.

Não entro em cafés, lá só estão mulheres que querem ser mantidas, e eu procuro uma companheira para vida, para estar comigo na chuva e no frio, fogo e água. Se para ti é crucial que eu gaste dez euros contigo, então não vale a pena.

A minha curiosidade venceu. Queria mesmo ver aquele paladino das relações puras, onde um café americano era sinal de escravidão financeira.

Ok, parque então. 19h, à entrada principal.

A preparação foi épica. Saquei da gaveta a camisola térmica, um casaco bem quente e, para rematar, o meu fato de ski. Botas grossas com meias de lã, chapéu com orelhas.

No espelho tinha à frente alguém pronta para uma expedição à Serra da Estrela.

Força, Tomás pisquei ao reflexo e lá fui eu, enfrentar o frio lusitano.

Às 19h já estava à porta do parque. O frio agarrou-me logo na cara única parte descoberta. O chão rangia de gelo e à volta só silêncio: os portugueses sensatos tinham escolhido ficar em casa, inclusive as tais mantidas.

Tomás esperava à porta. E estava com um casaco de meia estação. Saltava num pé e no outro, soprava para as mãos e o nariz já tinha cor de vinho do Porto. As orelhas, vermelhas como o logo do Benfica.

Aproximei-me.

Olá disse eu, com voz abafada pelo cachecol.

Ele olhou para mim, claramente à espera de uma fada delicada de collants que ia tremer ao vento, dando-lhe oportunidade de bancar o herói. Mas à sua frente estava uma versão da Montanhista do Alasca, só que ali, na Estrela.

Olá respondeu, com os dentes a bater. Estás muito bem equipada.

Tu disseste: para o fogo e para o frio, resolvi começar pelo frio. Bora lá respirar o ar puro?

15 minutos de fama

Lá fomos. Aquele passeio merecia estar nos anais dos encontros mais estranhos da minha vida.

Que tal o tempo? perguntei, fingindo casualidade.

Dá energia murmurou ele. O rosto já quase não mexia, só os lábios que ficavam cada vez mais roxos. Eu adoro o inverno, é uma prova de resistência.

Concordo. Já agora, fala-me melhor sobre tua teoria das mantidas porque é que o café é símbolo de corrupção?

Falar era um sacrifício o frio a cortar a garganta mas as convicções exigem sacrifício.

Porque a voz tremia os relacionamentos têm de ser sobre interesse mútuo, não sobre o saldo bancário. Se uma rapariga não pode apenas passear e logo pede comida, é consumista.

E se simplesmente não quer apanhar pneumonia? perguntei, ajustando o capuz.

São desculpas! cortou ele, com um puxar de nariz digno de festival de fado triste. Quem quer, arranja maneira. Só precisa vestir-se melhor.

Pois, eu vesti bem abri os braços, exibindo meu look abominável do inverno. Mas tu parece que não. Não tens frio mesmo?

Estou bem! bufou, mas tremia tanto que nem mesmo o escuro disfarçava.

Passaram dez minutos e chegámos à praça central do parque. Lá estava um quiosque de café, fechado até à primavera. Tomás olhou para ele com uma saudade digna de protagonista trágico.

Voltamos? sugeriu ele. O vento está a aumentar.

Estás a brincar? animei-me. Acabámos de começar. Querias descobrir a alma, não era? Fala-me de literatura. Gostas do José Saramago? Tem um conto em que o protagonista congela porque subestimou o frio…

O olhar que me lançou não foi de busca espiritual.

Olha, tenho de ir interrompeu. Acabei de lembrar que tenho uns assuntos urgentes.

Que assuntos? Combinámos a noite.

Trabalho. Lembrei que não enviei o relatório.

Às oito da noite, numa sexta?

Sim! quase gritou.

Virou-se de repente e encaminhou-se quase a correr para a saída. Eu fui atrás, saboreando o momento: o meu resistente aguentou quinze minutos cronometrados.

Ao chegar ao metro, nem se despediu evaporou-se no calor da estação subterrânea. Espero sinceramente que ali tenha aquecido não só as mãos, mas talvez as ideias. Mas duvido.

Voltei para casa, preparei um chá bem quente e apaguei a conversa com Tomás. Não me arrependi do tempo gasto. Aqueles quinze minutos foram a vacina perfeita contra o sentimento de culpa um lembrete irónico de que cuidar de nós próprias nunca nos torna mantidas.

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