Vai arrumando as tuas coisas, conheci o meu primeiro amor, anuncia o marido. Mas, uma hora depois, é ele quem está de mala na mão.
Fernando chega a casa no domingo à noite, regressado do jantar de antigos alunos. Leonor, que estava a acabar de lavar a loiça, repara no seu ar diferente: animado, corado, como quem acaba de receber uma grande notícia, talvez uma promoção ou um prémio de lotaria. Leonor limpa as mãos ao pano e pensa: Ora, estiveram bem animados.
Fernando não diz nada, despe-se e vai dormir.
De manhã, está na cozinha com o ar de quem tomou uma grande decisão. Senta-se direito, mãos cruzadas na mesa, olhar sério parece coisa de filme. Leonor serve-lhe café e começa a ver o que fazer com as sobras dos bifes. É então que Fernando fala.
Leonor. Precisamos de conversar.
Lá está, pensa ela. Frase universal do início de todos os males.
Ontem encontrei a Madalena. Lembras-te? Aquela de quem te falei. O meu primeiro amor.
Leonor lembra-se, claro. A figura de Madalena surgia nas conversas a cada cinco anos, quando Fernando ficava um pouco melancólico e nostálgico no meio de uns copos. Éramos tão novos O habitual.
Conversámos bastante. E então Leonor, vai preparando as tuas coisas.
Leonor vira-se, os bifes ficam ali no frigorífico.
Como?
Decidimos ficar juntos. Eu e a Madalena. Percebes?
Leonor limita-se a olhar para o marido.
O apartamento é meu, apressa-se Fernando, naquele tom de e, já agora. Era melhor procurares outro sítio.
Leonor guarda os bifes, fecha o frigorífico devagar, para não deixar o íman de Lisboa cair.
Já decidiste tudo? pergunta.
Já.
Ela faz um aceno com a cabeça e vai para o quarto.
Leonor senta-se à beira da cama e olha para a parede, onde ainda está o calendário com gatinhos que compraram no mercado do Bolhão, porque era barato custava dois euros. Janeiro já passou, fevereiro também, mas os gatinhos lá continuam. Um deles olha para ela com ar de quem compreende.
Então é isto, pensa Leonor.
Vinte anos com o homem que agora está sentado à espera que ela arrume as malas. Vinte anos é muito tempo.
Lembra-se do primeiro T1 em Chelas, que alugaram, onde a torneira pingava e o vizinho do lado fazia barulho a noite toda.
Lembra-se do tempo em que Fernando quase faliu, três meses com a cara cinzenta, ela a fingir que não via o copo de vinho diário na varanda.
A noite da urgência, às três da manhã com uma crise de apendicite e o médico a segredar: Mais uma hora e era perigoso. O baile de finalistas dos alunos dela era professora de português e Fernando apareceu de flores, envergonhado e contente da vida.
Tudo isto aconteceu, e tudo isto, afinal, parece que não contou para nada.
Leonor levanta-se, passeia pelo quarto, pára junto ao armário.
No alto do armário, num canto, guarda-se uma pasta de documentos.
Fernando ainda está à mesa, entretido no telemóvel, provavelmente a falar com Madalena de vez em quando sorri com aquele ar envergonhado e triunfante de quem espera ser aplaudido.
Leonor senta-se e pousa os papéis em cima da mesa.
Estás a juntar os papéis? pergunta Fernando de relance.
Não. Quero só mostrar-te uma coisa.
Abre a pasta.
Leonor, agora não era a melhor altura
Cala-te só um bocadinho.
Procura o papel certo e põe-no à frente dele.
É o contrato de casamento. Quinze anos antes, quando Fernando se atirou para a aventura dos materiais de construção a conselho do advogado, Leonor foi tratar disso sozinha. É só formalidade, somos família, disse ele sem dar importância, e nunca mais olhou para aquilo. Leonor guardou o papel, discretamente, no armário.
Não foi por estratégia. Só por ser pessoa cuidadosa.
Aliás, esse negócio grandes planos a três anos, compras a grosso, vendas na Figueira da Foz durou catorze meses e faliu como tudo o que nasce torto.
As dívidas foram grandes. Foi Leonor que sugeriu, pela primeira e última vez, vender o apartamento para pagar tudo de uma vez. Fernando recusou: ia resolver. Correu-lhe bem, na verdade: não levou três meses, mas seis anos. Fui pagando devagar. Leonor trabalhou dois empregos, nem se queixou.
Fernando pega no papel e lê.
Leonor bebe o café já frio.
Espera, diz Fernando com voz mais baixa. Aqui diz
Sim, responde Leonor.
Que a casa é tua em caso de divórcio.
Exactamente.
Mas…
Fernando lê outra vez. Depois larga o papel.
Leonor espera. Que leia, que compreenda. Teve tempo para perceber há 15 anos, agora é que lhe liga.
E quanto aos créditos? pergunta ele.
São teus. Está aí, ponto quatro.
Fernando fica calado. O telemóvel pisca Madalena deve perguntar como vai tudo. Não responde.
Leonor, fizeste de propósito? Guardaste tudo por isto?
Honestamente, Leonor responde:
Não. Simplesmente não deito fora papéis.
E era verdade. Guardava recibos, manuais, garantias, papéis velhos do centro de saúde. Pessoa meticulosa. Que se há-de fazer.
Fernando retoma a leitura, depois olha pela janela.
Leonor arruma a pasta, pousa a chávena na banca. Antes de sair, vira-se.
Fernando. Um de nós tem mesmo de arranjar outro sítio, diz Leonor. Tens toda a razão.
E vai para o quarto.
Fernando fica mais vinte, talvez trinta minutos na cozinha. Leonor não conta. Está no quarto, ocupa-se com o que uma pessoa normal faz em situações destas: nada de especial. Empilha livros caídos no chão ao lado da cama, muda a planta da janela para uma prateleira, limpa o pó ao armário. É mais fácil quando as mãos trabalham.
Fernando aparece à porta, papel na mão aquele contrato. Segura-o como quem ainda acredita que lhe pode valer de alguma coisa.
Leonor, espera. Vamos conversar calmamente.
Vamos, concorda ela, voz de pedra, sem cor.
Aquele contrato… era outra época. Ninguém imaginava…
Que…?
Fernando cala-se. Não sabe acabar a frase. Não imaginavam que acabaria? Que o papel viria a ter importância? Que ninguém pensou em nada?
Foi autenticado pelo notário, está tudo legal, diz Leonor. Eu confirmei.
Quando?
Há uns cinco anos. Por acaso.
Fernando olha para ela como quem percebe que sempre subestimou tudo.
Café Estavas a planear isto?
Leonor pensa.
Não. Só sou cuidadosa, como já disse.
Era verdade. Há uns anos ligou ao notário por outro assunto, perguntou por entre linhas e ouviu: Está tudo em ordem, não se preocupe. Leonor acenou e esqueceu. Até hoje.
Fernando volta à cozinha. Ela ouve-o andar de um lado para o outro, depois abre e fecha armários.
Leonor espreita à porta.
Fernando está encostado ao canto, parado.
Que fazes? pergunta ela.
Estou a pensar.
Em quê?
Nada.
Leonor entra, põe água ao lume.
Fernando, só quero saber para onde vais. Já pensaste nisso?
Ele olha para ela.
Silêncio.
Está bem, diz Leonor.
Era óbvio. Fernando imaginava outra cena: ele toma a decisão, ela chora, vai para casa de uma amiga, ele fica com o apartamento, Madalena vem. Tudo fácil.
Não contava era encontrar aquele papel esquecido.
A água ferve. Leonor faz chá.
Eu não vou sair daqui, diz. O apartamento é meu, aqui fico.
Fernando não diz nada.
E eu?…
Vais ter com a Madalena, recorda Leonor. Decidiram ficar juntos.
Sobre Madalena, Leonor não sente raiva nem curiosidade. Era alguém de outra história, inventada por Fernando entre brindes e recordações da juventude. Leonor seria sempre o estorvo naquela história.
Pois. Acontece.
Ela, começa Fernando, mas cala-se.
O quê?
Ela ainda não sabe bem Não falámos disso concretamente. Não está pronta.
Leonor pousa a chávena.
Fernando.
O quê?
Estás mesmo a mandar-me arrumar as coisas sem saberes sequer para onde vais?
Silêncio. Fernando percebe que sim.
Há quem goste muito de grandes decisões. Mas depois falham nos detalhes.
Leonor levanta-se, vai ao armário, tira uma mala de viagem castanha e põe-na em cima da mesa.
Pronto, diz. Leva o que precisares.
Leonor
Fernando. Decidiste. Eu aceitei. Agora cumpre.
Ele olha para a mala. E nesse momento, algo se quebra em Fernando.
Vai juntar as suas coisas.
Leonor fica na cozinha. Ouve o armário abrir e fechar, a cómoda ranger, chaves ou lâminas a tilintar dentro de uma gaveta.
Vinte anos. E para levar, só uma mala de viagem.
Uma hora depois, Fernando está à porta com a mala na mão e no rosto um ar meio atordoado por perceber as consequências.
Leonor, diz. Depois ligo-te.
Está bem, responde ela.
Precisamos, sei lá, dos papéis do divórcio.
Liga-me, tratamos disso.
Fica parado, talvez à espera de lágrimas, protestos, um escândalo, algo que devolva as coisas ao que eram. Mas nada.
Fernando abre a porta e sai.
Três semanas depois, Leonor sabe pela Dona Amélia, ex-colega sempre bem informada, que Fernando e Madalena não se entenderam.
Madalena, afinal, vivia com a irmã: um T1 minúsculo em Almada, marido, dois filhos à mistura, nada romântico. Fernando nem arriscou ir para lá. Arrendou um quarto no Cacém, a uma senhora idosa que não deixava fumar nem trazer visitas.
Madalena, quando soube do quarto e da falta de casa, arrefeceu depressa. Aparentemente, o herói pronto a abandonar tudo por amor era mais interessante do que o homem real, só com uma mala e dívidas alheias. Os primeiros amores só são bonitos à distância; ao perto, é sempre diferente.
Leonor escuta e serve chá à Amélia.
E tu, como estás? pergunta a colega, cheia de comoção pronta a usar.
Estou bem, responde Leonor.
Era verdade. Nestas três semanas inscreveu-se em aulas de massagem algo que desejava há anos, mas adiava. Voltou a reencontrar a amiga Rita, que não via há três anos: foram ao café, conversaram horas. Comprou um passe para a piscina municipal. Coisas pequenas. Mas, no fundo, é isso que faz a vida.
Às vezes, à noite, Leonor pensa em Fernando. Sem raiva. Apenas pensa. Um dia percebeu: ainda bem que foi ele a abrir aquela porta. Ela, provavelmente, teria ficado mais uns anos sem o fazer.
Na parede continua o calendário dos gatinhos. Janeiro, Fevereiro, o gatinho ruivo com laço azul, tudo na mesma. Leonor olha para ele e pensa que era boa ideia pôr no mês certo.
Depois decide: há tempo.







