Portugueses ficam boquiabertos: cão encontrado em casa abandonada alimentava algo surpreendente, não eram cachorrinhos

As pessoas ficaram surpresas: cadela alimentava não crias, mas

Maria do Carmo regressava do supermercado com os sacos pesados e pensava na sua vida. Os joelhos voltavam a doer, a neta prometera ligar-lhe, mas até agora nada, e o inverno parecia não ter fim ora chovia sem parar, ora só havia lama pelas ruas de Lisboa. Os pensamentos andavam à solta quando quase tropeçou e caiu no passeio.

Virou-se a tempo de ver uma cadela rafeira de pelo ruivo passar-lhe por entre as pernas. Magríssima, costelas à mostra, pêlo em tufos e olhar inquieto.

Olha por onde andas, sua traquina! repreendeu-a Maria do Carmo, já irritada.

Nem resposta, nem paragem. A cadela parecia ter pressa, como se alguém a esperasse. No focinho levava o que parecia um pedaço de pão.

Deve estar a esconder os filhotes nalgum canto, murmurou Maria do Carmo. A primavera está à porta, começam logo as crias.

Ajeitou os sacos e continuou para casa, mas um incómodo teimava em não desaparecer. Havia algo de estranho naquela cena.

No dia seguinte, tudo se repetiu. Aquela sombra ruiva pelo bairro, pedaço de pão nos dentes, e sempre a caminho da antiga casa abandonada no fim do beco, onde antes vivia a Dona Serafina. Meia dúzia de meses desde o funeral e a casa ficou às moscas, fechada e sombria.

Dona Maria, veja lá a sua amiga outra vez, gritou do primeiro andar a vizinha Lucinda. Parece um ritual! Onde é que a bicha vai buscar comida?

Que comida, Lucinda?

Ó mulher, então não vê? Vai a correr com a comida na boca. Devi andar a remexer caixotes, só pode. Deve ter ninhada.

E se não for para filhotes?

Quem seria então? Está na idade das crias, faz parte da vida.

Maria do Carmo acenou, mas ficou a remoer. Filhotes fazia sentido… mas algo não batia certo.

Viu a rafeira novamente a escorregar pela abertura do portão podre do quintal abandonado. Parou. Estou para ver, pensou. Mais vale ir espreitar. O bairro todo fala nisto.

Passou pela mesma entrada, o portão gemeu mas aguentou. O matagal cobria tudo, garrafas partidas e ferrugem por todo o lado. Lá do fundo veio um lamento abafado.

Seguiu o som, dando a volta ao velho barracão, e ficou pasmado.

Ali, junto à casota, estava a ruiva. No chão, deitada, uma cadelona preta com o focinho todo grisalho, presa por uma corrente curta e enferrujada.

Era cega.

Olhos enevoados, corpo pele e osso, pêlo embaraçado. Não se mexia. A ruiva largou o pão com delicadeza, empurrou-o de leve com o focinho e esperou.

A cadela preta mexeu-se de leve, encontrou o pão e devorou-o, faminta. A ruiva só olhava, sentada ao lado, imóvel.

Quando o pão acabou, a ruiva lambeu-lhe devagar o focinho e deitou-se junto dela.

Maria do Carmo ficou sem reação. Os olhos encheram-se de lágrimas.

Meu Deus… ela alimenta a outra. Todos os dias. Cheia de fome, mas partilha.

Não sabia por quanto tempo ficou ali. Só se deu conta quando a ruiva ergueu os olhos e fitaram-na como quem diz: Então? Ajuda ou vai-se embora?

Espera aí murmurou Maria do Carmo.

Correu para casa como não fazia há décadas. O corpo queixava-se, mas não parou. Em casa, juntou tudo o que havia: frango cozido, arroz, um bocado de fiambre, levou uma tigela de água e voltou para o quintal.

A cena mantinha-se: a ruiva deitada junto à cega.

Toma, exclamou Maria do Carmo, ajoelhando-se. Está aqui.

Pousou o frango perto da ruiva, mas ela nem se moveu. Só vigiava a preta.

Então, contigo magrinha e continuas a dar-lhe tudo?

Maria do Carmo percebeu. Colocou a comida junto ao focinho da cega. Esta reanimou-se e comeu sofregamente.

A ruiva engoliu em seco, mas não tocou na comida. Esperou.

Só quando a preta acabou, a ruiva foi buscar o resto.

Assim é que é, sussurrou Maria do Carmo.

As duas beberam água. Maria do Carmo olhou-as, limpando as lágrimas.

Então porque choras? ouviu detrás de si a voz da Lucinda.

A vizinha espreitava pelo portão, incrédula.

Viste? Não são crias que alimenta, respondeu Maria do Carmo, baixinho.

Lucinda calou-se, fungou.

Quem a deixou assim?

Deve ter sido a Serafina. Prendeu-a ali. Depois da morte dela ninguém ligou à cadela.

Já vai para meio ano

Meio ano sozinha. Só esta ruiva é que a encontrou. Traz-lhe comida todos os dias.

Lucinda sentou-se, fez uma festa à cadela ruiva.

És muito esperta, miúda

À tardinha, já meia freguesia estava no quintal. Uns traziam comida, outros cobertores velhos. Os homens tentaram dobrar a corrente, mas aquilo era ferro grosso.

Amanhã trago uma rebarbadora, decidiu o senhor António. Fica resolvido.

De manhã apareceu de volta com a ferramenta, o bairro juntou-se.

Devagar, António comandava a Lucinda. Não assustes a cadela!

A máquina roncou, saltaram faíscas. A cadela preta estremeceu e tentou erguer-se.

A corrente rebentou.

Pronto, estás livre, suspirou o António, esfregando a testa.

Maria do Carmo ajoelhou-se, afagou com carinho a cabeça da cadelona.

Então, vens comigo? Dou-te comida, calor E levas a tua ruiva. Levam as duas.

A preta abanou suavemente a ponta da cauda.

Maria do Carmo tentou pegá-la mas não conseguiu: era pesada demais.

Deixe, disse o António, pegando nela ao colo. Para onde vai?

Terceiro andar. Porta quinze.

Ao atravessarem o pátio, os vizinhos afastavam-se em silêncio. A ruiva seguia colada, sem desgrudar.

Não tenhas medo, murmurava Maria do Carmo. Vêm as duas.

À entrada do prédio, as tias do costume na esplanada franziram o sobrolho.

Ó Maria, o que é isso? resmungou uma. Levas os cães para casa?

Levo.

Ó mulher, isso são pulgas, porcaria, cheiro!

Lavo-as.

E os vizinhos?

Que dizem? explodiu Maria do Carmo, tão alto que assustou a si própria. A cadela ficou meio ano acorrentada, cega, sozinha, sem comida! Ninguém viu nada! Só esta ruiva a viu. Nós passámos e ignorámos!

A voz tremeu e parou. As vizinhas calaram-se, desviando o olhar.

Não sabia balbuciou uma. Quando a Serafina morreu ninguém disse nada.

Pois. Ninguém. Ninguém quis saber.

Virou costas, subiu o prédio. O António acompanhou, a ruiva não lhe saiu do lado.

Em casa, Maria do Carmo estendeu o velho cobertor no chão e o António deitou a cadela preta devagar.

Pronto. Precisar de ajuda, diga.

Obrigada, deixo-me estar.

Quando ficou sozinha, Maria do Carmo encostou-se à porta, exausta. A ruiva sentou-se junto à preta e olhou-a com uma gratidão tão pura que lhe apertou o peito.

Está bem, suspirou Maria do Carmo. Vamos lá, apresento-me: sou a Maria. E vocês, como se chamam?

A ruiva soltou um latido baixo.

Ficas Ruiva. E tu, virou-se para a preta, és Preta. Está combinado?

Pôs uma tigela de arroz e carne junto da Preta. Ela cheirou, mas hesitou.

Vá lá, Maria pegou um pouco e aproximou do focinho.

A Preta aceitou-o da mão.

Boa menina, murmurou Maria do Carmo. Come devagar, vai ficar tudo bem.

Foi dando, pacientemente, bocado a bocado. A Ruiva encostou a cabeça ao seu colo, num gesto de confiança, e Maria do Carmo sentiu aquele calor antigo de ser preciso para alguém.

Ao anoitecer, Lucinda ligou.

Então, como está isso tudo?

Está, Maria do Carmo suspirou. Estão a dormir as duas.

E tu?

Não durmo. Fico a pensar.

Em quê?

Ficou em silêncio.

Que às vezes nós, humanos, somos piores que os animais. A cadela não esqueceu a outra. E nós? Passámos ao lado. Todos os dias.

Maria, sossega

Não posso, desabafou, não posso Porque tenho vergonha! Vergonha diante daquele olhar.

Desligou, sentou-se no chão a chorar baixinho, perto das suas novas companheiras adormecidas.

Passou uma semana. A Preta começou a ganhar forças. Ao início só comia e se deitava, mas depois já se levantava, trôpega. A Ruiva sempre junto dela, como guia.

Tens o melhor guia do mundo, Preta, dizia Maria do Carmo rindo.

A história espalhou-se rápido. A Lucinda divulgou-a a todos.

Já ouviste da Maria do Carmo? cochichavam as vizinhas. Ficou com dois cães de uma vez!

Dizem que uma esteve presa meio ano, cega. A outra dava-lhe de comer! Imagina!

Não é possível!

Foi a Lucinda que viu, acredita!

Quando Maria passeava com as cadelas, os vizinhos paravam. Uns sorriam, outros meneavam a cabeça.

És uma mulher de coragem, Maria, elogiou o António. Uma pessoa de coração.

Quem me dera! replicou. Pessoa são elas. Eu só não passei ao lado por acaso.

Certa noite, bateram à porta. Era uma jovem.

Boa noite, a senhora é Maria do Carmo?

Sou, menina. Quem és tu?

Chamo-me Filipa. Ouvi falar dos seus cães e do que fez. Pensei que talvez pudesse ajudar. Sou veterinária. Posso ver a Preta? Sem cobrar nada.

Maria do Carmo ficou sem saber o que dizer:

De graça?

Sim, só quero ajudar. Posso?

Claro.

Filipa examinou a Preta pacientemente, depois disse:

É idosa. O mal dos olhos é irreversível. Mas com cuidados vive bem.

O que faço então?

Filipa deu-lhe avios:

Estas são vitaminas. Isto é para as articulações, isto é pomada para as patas. Eu escrevo tudo.

Quanto é?

Nada, sorriu Filipa. É uma prenda. De mim e de quem se comoveu com a vossa história.

Os olhos de Maria do Carmo voltaram a marejar.

Obrigada.

Obrigada eu, respondeu Filipa, acariciando a Ruiva.

Quando ficou só, Maria do Carmo sentou-se no sofá. A Preta deitou-se a seus pés, a Ruiva ao lado. E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se realmente necessária.

E isso, para mim, foi felicidade.

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