Lembro-me bem daquele dia, há muitos anos, quando me dediquei à limpeza da casa: varri cada canto e comecei a esfregar o chão com afinco. Foi então que a minha sogra, dona Matilde, de propósito, jogou cascas de tremoço no chão acabado de lavar. Fiquei de boca aberta, não esperava tal coisa de alguém que devia ser como uma mãe.
Mãe Matilde, por que fez isso? Vi que foi de propósito! perguntei eu, ainda incredula.
Ela olhou-me com desdém e respondeu, seca como sempre:
Vais fazer tudo de novo! Não é por isso que te vai acontecer alguma coisa!
Depois, satisfeita com a sua pequena maldade, voltou para o quarto e deitou-se outra vez. Eu, sem dizer mais nada, fui buscar vassoura e pá, e comecei a limpar tudo outra vez. Dona Matilde agarrou o jornal, aquele mesmo que já tinha lido dezenas de vezes.
Porque me odeia tanto? O que lhe fiz para merecer tamanha humilhação? Cozinho, lavo roupa, limpo tudo. A minha filha, Andreia, está sempre a ajudar também. Por que insiste em gozar comigo? desabafei, tentando olhar-lhe nos olhos.
Mas ela nem se dignou a virar-se para mim, nem resposta me deu. Já nem esperava desculpa ou explicação.
Desabei em lágrimas. Quando terminei, fui lavar a roupa lá fora ao tanque, e depois saí para a praça, ao mercado, comprar legumes frescos. Sempre havia tanto por fazer, que acabava por não dar conta do tempo a passar.
O meu marido, António, tinha morrido há muitos anos, quando a nossa Andreia era ainda uma menina de oito anos. Mal acabou o funeral, dona Matilde fez questão de me avisar:
Ficas comigo! Não te deixo ir para parte nenhuma! Não quero que digam pelos cafés da vila que te pus na rua.
Claro que acabei por aceitar. Não tinha para onde ir. A minha irmã, Leonor, vivia com os pais e os filhos numa casa já apertada. Não havia espaço para mim nem para a Andreia.
Por dentro, sempre tive esperança de, com o tempo, conseguir conquistar o coração da minha sogra, apesar do seu feitio difícil. Mas, infelizmente, esse milagre nunca aconteceu.
Em público, dona Matilde era cordial comigo, mas entre quatro paredes era implacável. E exigia sempre que tudo fosse feito à sua maneira.
És uma inútil! Quem precisa de ti? Nenhum homem te vai querer! Ficas com a Andreia e comigo! E, quando eu morrer, a casa fica para ti! Agora, se não fizeres tudo que eu quero… dou a casa a outrem! Ficas sem nada!
Esse medo perseguiu-me durante anos, e fui aguentando tudo por causa da Andreia.
Dona Matilde, parecia eterna, já ia para noventa anos. Nunca se queixava de saúde e gastava a pensão toda consigo. Pedia-me sempre os melhores produtos queijo de serra, pastéis frescos, fruta do mercado.
Com o tempo, percebi que tinha cometido um erro ao aceitar ficar, anos atrás. Deviam ter arranjado outro caminho, mas agora já não havia volta, e aguentei humilhações durante décadas.
Andreia terminou a universidade há pouco tempo. Agora tem um namorado, o Ricardo, um bom rapaz, com quem vai casar brevemente. Depois do casamento, vão morar juntos. Só espero que Andreia consiga ser feliz, que conquiste o mundo.
E eu, olhando para trás, só consigo sentir pena de mim própria, e dessa vida desperdiçada que tive…







