As pessoas viram um cavalo exausto: já nem tinha forças para se levantar
O casal de namorados caminhava devagarinho, de mãos dadas, por entre a erva alta e densa de um campo nos arredores de Évora. Olhavam-se de vez em quando, trocando olhares tão cheios de ternura que só se encontram quando alguém está realmente entregue ao amor. Por estarem tão despreocupados, deixaram de reparar para onde iam, até que inesperadamente tropeçaram em algo estranho.
A Inês soltou um grito de susto e recuou de repente. O Miguel avançou imediatamente para protegê-la, embora, na verdade, não houvesse nenhuma ameaça iminente.
Ali, escondido entre a vegetação, jazia um cavalo.
Ou melhor, aquilo que em tempos fora um cavalo. O que viam agora assemelhava-se mais ao esqueleto coberto de pele do que a um animal vivo.
A pele fina estava tão esticada sobre as costelas salientes que parecia prestes a romper-se a qualquer momento. Por todo o corpo viam-se crostas grossas e ressequidas, em volta das quais zumbiam moscas incansáveis.
Era uma imagem tão impressionante e penosa, que era difícil sequer olhar para o animal sem sentir um arrepio de repulsa.
Pobrezinho… exclamou Inês, com a voz embargada.
Ao ouvir o lamento dela, até a natureza parou por um instante. O silêncio pairou ao redor do casal, junto ao rio.
De repente, o corpo do cavalo mexeu-se levemente.
Só então, tanto eu como a minha namorada sentimos o pânico subir-nos ao corpo, e em uníssono gritámos de susto.
Corremos dali para fora, sem sequer olhar para trás. Só parámos quando chegámos a um caminho de terra batida. Ali, ofegantes, tentámos acalmar-nos e recuperar o fôlego.
É claro, ninguém vinha atrás de nós.
Aos poucos, a ansiedade começou a passar, permitindo que pensássemos com calma.
Está vivo… sussurrou Inês, ainda incrédula.
Vivo, mas parece um fantasma, disse-lhe em voz baixa.
Mas mexeu-se…
Havia que confirmar o que se passava. Talvez nem tenha sido ele a mexer. E se, em vez disso, algo por dentro o estava a devorar?
Inês estremeceu só de pensar nisso.
Mandou-me de volta à clareira, enquanto ela ficou à espera na estrada. Não queria ver nada que envolvesse sofrimento do animal.
Aproximei-me com muito cuidado e depressa percebi que estávamos sozinhos ali. Sobretudo, ficou claro que o cavalo ainda respirava.
Cheguei-me mais perto e ele virou devagar a cabeça, soltando um leve suspiro.
Via-se perfeitamente como qualquer movimento lhe custava horrores, mas ainda assim, o tórax subia e descia suavemente o cavalo estava vivo.
Abriu um pouco os olhos, numa tentativa quase desesperada de me distinguir, mas uma espécie de película avermelhada cobrindo-lhe a íris impedia-o de ver.
O lábio inferior pendia, sem força.
As pernas e a cauda estavam imóveis. De longe a longe, as orelhas ainda tremiam ao vento, movimento quase impercetível.
Parecia que tudo lhe doía. Lutava pela vida, mas já sem esperança.
Olhei em volta, perguntando-me como teria ido ali parar. Não havia sinais de pastagem ou quaisquer pegadas frescas, o que dava a entender que o cavalo estava ali deitado há muito tempo.
Recolhi-me, expliquei tudo à Inês.
Não interessa como chegou aqui, atalhou ela, aflita. O pior é: o que fazemos agora? Vai morrer a qualquer momento, Miguel. E eu nem sei quem, nestas bandas, percebe algo de cavalos.
Lembrei-me então de um vizinho na aldeia ao lado, o senhor Álvaro, que criava alguns cavalos e dava passeios a cavaleiros vindos de outras terras.
Foi fácil contactá-lo pelo telemóvel.
O susto do nosso relato deixou-o confuso, mas ele prometeu que viria quanto antes.
Passados uns minutos, vimos levantar-se uma nuvem de pó ao longe: vinha lá uma carrinha.
Eu e a Inês acenámos freneticamente, indicando o sítio.
Parou junto a nós um carro com atrelado próprio para transportar cavalos.
O senhor Álvaro e a esposa, Dona Teresa, primeiro olharam à distância e fizeram-se de fortes. Quando chegaram perto, horrorizados, baixaram imediatamente a cabeça perante o sofrimento do pobre animal.
Nem valia a pena sequer tentar pô-lo de pé sozinho para o meter no atrelado. Restava esperar que o cavalo aguentasse a viagem até à clínica veterinária.
Mas mesmo para quatro pessoas, carregar o animal enfraquecido era impossível.
Corri à aldeia para chamar vizinhos e amigos.
Logo veio um grupo de homens. Pegámos cuidadosamente na peleja do cavalo, enfiando-lhe por baixo um pano resistente, e cada um agarrou-se a um dos lados, levantando-o todos juntos.
O cavalo arregalou os olhos, mal conseguindo esboçar um levantar de pata.
Mais do que isso ele já não podia.
Doía-me no fundo da alma vê-lo assim: incapaz de se mexer, destituído de forças e, ao mesmo tempo, a agarrar-se à vida por um fio.
Conseguimos meter o cavalo no atrelado, fechando a porta grande com um clique.
As rodas deslizaram pela estrada de terra, enquanto levávamos o infeliz animal em direção a uma nova oportunidade.
Quando chegámos ao picadeiro, já estavam à espera o veterinário, vários rapazes e a dona do estábulo, todos reunidos à pressa pelo senhor Álvaro.
Retiraram-no cuidadosamente do atrelado.
O veterinário, Dr. Ricardo, avaliou o animal com olhos de quem já viu de tudo: palpou, auscultou e recolheu amostras.
Entretanto chegou também a GNR.
Fizemos o relato do que tinha acontecido. As autoridades aceitaram o testemunho, anotaram as palavras do veterinário, dos donos temporários e de todos os que tinham ajudado no resgate. No entanto, avisaram logo: seria praticamente impossível localizar o velho proprietário e levá-lo à justiça.
O Dr. Ricardo aplicou-lhe então várias injeções, tratou-lhe as crostas e montou uma soro com vitaminas.
Com cuidado, transferimos o cavalo para um box vazio.
O caso era tão grave que ninguém sabia se conseguiríamos salvá-lo, mas jurámos fazer tudo o que podíamos.
A nutrição era o maior problema o animal comia pouco e até a água custava-lhe a engolir.
O mal estava na pele inflamada: uma infestação severa de ácaros provocava feridas que rebentavam e faziam crostas dolorosas, provocando comichão insuportável.
O cavalo esfregava-se em tudo o que podia, arrancando as crostas e magoando ainda mais a pele. A doença tinha-lhe roubado o apetite e a força, transformando o outrora robusto animal num fantasma magro.
Como se não bastasse, o terceiro olho estava inchado e vermelho.
O Dr. Ricardo suspeitava de um tumor, só com cirurgia após recuperação seria possível remover.
Descobriu-se ainda problemas nos dentes, tratou-os imediatamente.
Durante semanas, aquele box virou um verdadeiro hospital de campanha.
O veterinário visitava-o todos os dias. Lentamente, o tratamento resultava: o parasita foi eliminado, as feridas cicatrizavam aos poucos, os dentes melhoraram, e o cavalo acabou por aceitar alfafa e maçãzinhas picadas.
Nos primeiros tempos, tivemos de o alimentar quase como um potro recém-nascido, à mão, segurando-lhe a cabeça enquanto bebia água de uma garrafa. Só assim conseguia engolir.
O bicho parecia apático, como se tivesse desistido. Ficava deitado, alheado de tudo, à espera do fim. Mas nós não desistimos dele.
Os novos donos foram-lhe fazendo companhia até de madrugada, verificando o soro, aconchegando o lombo. Com o tempo o cavalo passava a reconhecer vozes próximas. Acariciava-nos com o focinho, reagindo especialmente ao resmunguice bem-humorado do Dr. Ricardo.
Como quase não via, orientava-se sobretudo por sons e toques gentis.
Com o passar das semanas, aprendeu a virar-se sozinho de um lado para o outro e, por vezes, conseguia levantar ligeiramente o ventre e o pescoço, mantendo-se quase sentado por alguns minutos.
Mas continuava incapaz de se erguer sobre as próprias patas.
Isso assustava-o. Tentava dobrar as pernas por instinto, sem conseguir aguentar o peso. Como se o corpo já não lhe respondesse.
O veterinário explicava que estava demasiado debilitado: os músculos pararam de funcionar tanto tempo que era impossível levantar-se de forma espontânea.
Por isso, tivemos de lhe ensinar tudo de novo com exercícios apropriados. Era preciso erguê-lo com a ajuda de vários homens, sustendo o corpo na vertical.
O animal até começava a recuperar alguma massa corporal, tornando-se mais pesado, o que, apesar de nos alegrar, dificultava as sessões de fisioterapia.
Arranjámos uma manta grossa com alças firmes para improvisar um arnês que o segurava na posição correta, dentro do estábulo.
Para as caminhadas fora, era preciso reunir vizinhos para o ajudar.
Felizmente, a história tocou muita gente do nosso círculo e até desconhecidos, de modo que todos os fins de tarde havia voluntários para dar uma mão.
No início, era necessário posicionar-lhe as patas à mão, mas com treinos regulares ele começou, finalmente, a mexê-las sozinho.
Custava-lhe e a nós também! , mas cada pequeno progresso era uma celebração.
Mês após mês de persistência, o cavalo conseguiu, primeiro, manter-se de pé, depois, andar devagar.
Ninguém o apressou.
O senhor Álvaro levava-o ao sol, fazia pequenos passeios, depois repousava novamente no box. Mas notava-se que o cavalo ansiava pela liberdade do campo, pelo cheiro do feno e pelo relvado verde.
Quando o Dr. Ricardo deu sinal verde, marcámos a tão desejada operação ao olho.
Para o animal, a cirurgia não era um suplício o tumor já lhe roubava toda a visão daquele lado.
Voltaram-no a meter no atrelado e seguiram para a clínica veterinária de Lisboa, onde havia melhores condições.
O tumor foi retirado com sucesso.
Na manhã seguinte, apesar de o olho lhe doer bastante, o cavalo olhava em redor, curioso, distinguindo pela primeira vez os rostos dos seus salvadores e a vasta área do picadeiro.
Começou a receber colírios. A cada tratamento submetia-se sossegado, prestando atenção às palavras de quem o rodeava.
Não era só manso, era também inteligente. Os novos donos apaixonaram-se cada vez mais por ele.
A recuperação foi de tal ordem que, algumas semanas depois, já corria no cercado ao lado de duas éguas da casa.
Rapidamente se entendeu com as companheiras, mesmo com o garanhão jovem de feitio difícil. Pastavam juntos, tranquilos.
Nem parecia aquele animal esqueleto que encontráramos à morte.
Agora, no seu dorso redondo, brilhava um pelo liso e saudável. Só algumas cicatrizes na garupa e movimentos mais cautelosos denunciavam o sofrimento passado.
O senhor Álvaro não teve pressa em treiná-lo para montar. Mas chegou um dia em que o cavalo, vendo as celas, dava coices leves e relinchava, impaciente, querendo sair com os outros.
Olhava longamente os seus amigos, enquanto estes levavam crianças às cavalitas.
Até que, numa manhã amena de primavera, levei o cavalo para fora e comecei a colocar-lhe o arreio.
Ele relinchava de alegria.
O meu peso era para ele uma novidade, mas não se queixou.
Fizemos juntos um pequeno passeio pelo prado.
Naquele instante, o cavalo era, sem dúvida, o mais feliz do mundo.
Apesar do sofrimento e medo por que passou, sabia agora de cor quem cuidava dele.
E o cavalo tinha a certeza: dali em diante, nunca mais seria abandonado, viesse o que viesse.







