Perdi a carteira. Foi entregue por um homem cuja cara eu conhecia das fotos antigas de família. Mas ninguém jamais falou quem ele era

Perdi a carteira. Foi devolvida por um homem cuja cara eu reconhecia das fotos de família, mas sobre quem ninguém nunca falava.

Perdi a carteira num daqueles centros comerciais imensos de Lisboa, onde as escadas rolantes nunca acabam e o ar cheira a perfumes caros e sonhos incompletos. Só percebi ao chegar a casa, quando revirei a mala, o casaco, o carro: nada. Cartões, documentos, dinheirotudo sumiu-se, como se tivesse evaporado no ar húmido da cidade. Avisei logo a polícia, cancelei os cartões, amaldiçoei-me baixinho, tremendo como nunca, feita poeira numa ventania.

Dois dias depois, o intercomunicador tocou, estalando como um trovão. Dona Mafalda Tavares?perguntou uma voz grave, com um certo eco de saudade. Julgo que tenho algo seu. Encontrei uma carteira. Posso subir?

Desci as escadas com o coração a trovejar cá dentro. À porta estava um homem de cabelos brancos, talvez septuagenário, com ar polido, num sobretudo azul-marinho. Na mão, segurava a minha carteira, como se fosse um filhote de pardal.
Estava em cima de um banco, mesmo à entrada do centro, disse ele. Alguém deve tê-la deixado lá de propósito.
Agradeci, convidei-o para um chá.

Recusou. Mas antes de se voltar, olhou-me bem nos olhos, como quem lê palavras escritas no vento, e perguntou:
Como se chama? A sério?
Sem perceber, acenei que sim.
Ele sorriu de tristeza antiga. Eu sabia. Tem os olhos da Leonor.

Fiquei gelada. Leonor era o nome da mãe, a mãe que sempre foi segredo e silêncio.

Desculpe conhecia a minha mãe? arrisquei, com a voz a tremer.
Ele afastou-se um passo. Não devia mas não pensei que me fosse lembrar tanto dela. Desculpe. Estava quase a ir-se embora, mas sussurrei ainda:
Por favor, não vá. Conheço a sua cara desde menina. Na fotografia escondida na gaveta da minha mãe. Ela dizia que era alguém antigo, mas nunca contou quem.

Ele parou. Suspirou fundo, como quem puxa o mar inteiro para dentro do peito.
Fui muito próximo da tua mãe, confessou num suspiro. Muito próximo.

Levei-o para dentro.

Sentámo-nos na cozinha, mas o chá ficou esquecido entre as mãos.
Tua mãe foi minha noiva, sabias? Em 1972 íamos casar. Mas o destino é cruel.
Fiquei muda.

O meu pai não aceitava. A família fazia pressão. Fugi. Fui trabalhar para França, deixei-a sozinha. Quando voltei, ela já tinha outra pessoa. Não me quis ver mais. E então soube que ela estava grávida. Mas ninguém me confirmou se era meu

Olhou-me. O silêncio pesava, denso como o nevoeiro no Douro.
E depois? O que fez o senhor?
Fui uma vez à casa dela. Vi-vos à janela. Tinhas uns três anos, eras igualzinha à tua mãe. Mas fugi de novo. Nunca consegui ter coragem. Fui espreitando, de longe Vi-te uma vez no cemitério, sabes? Sei que parece loucura. Nunca quis estragar a tua vida.”

Fiquei sem norte.

Quer dizer que pode ser o meu pai?
Acenou a cabeça. Não quero nada de si. Só queria saber se és feliz. Mais nada.

Ficámos ali, a conversar. Sobre escolhas, covardias, sobre como um medo pode rebentar uma vida inteira. Ao sair, deixou-me um papel com número de telemóvel. E um envelope. Lá dentro, uma foto gasta da minha mãe e dele, abraçados, quase apanhados pelo vento, tão jovens que só podiam estar apaixonados. No verso, a caligrafia trêmula: Para sempre B. 1971.

Passaram-se semanas. Fiz um teste de ADN. Confirmou: era mesmo minha filha.

Contei só ao meu marido. O pai que me criou já não está cá, e a mãe levou o segredo com ela para a terra fria. Mas hoje sei mais. Sei que o amor, mesmo oculto e silente, deixa sempre marcas. Às vezes perdidas numa gaveta antiga. Outras vezes nos olhos de um estranho que, muitos anos depois, te devolve uma carteirae a tua própria história.

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