Querido diário,
Cresci numa família numerosa, rodeado de irmãos e muita correria. O meu pai, um homem com queda para o copo, saltava de trabalho em trabalho, enquanto a minha mãe, Maria da Assunção, se desdobrava entre o correio da vila e a lida de casa, fazendo o impossível para pôr comida na mesa para nós três.
Sendo o mais velho, sempre senti o peso de ajudar. Tratava das irmãs mais novas, ia buscar água à fonte e carregava lenha para o fogão a lenha. Quando as raparigas cresceram, também elas começaram a dar uma mãozinha. Por essa altura, já o pai tinha falecido, envenenado por algum vinho rançoso partilhado com os amigos da tasca.
A vida não ficou mais fácil.
A mãe chorava baixinho, lastimando o homem que fora:
Ao menos nunca levantou a voz nem fez escândalos E o pouco dinheiro que trazia era sempre uma ajuda. Ó cabeça de vento, António Com quem é que nos deixaste agora
Para não ouvir os desabafos, eu fazia-me à estrada sempre que acabava as tarefas. Ia ter com os outros miúdos à velha casa no fim da aldeia, abandonada há anos, mas com um alpendre firme que era o nosso banco de jardim.
Empoleirávamo-nos nos degraus como pardais, a destruir pevides e a contar histórias umas inventadas, outras bem reais, das que nos fazem rir às gargalhadas.
Nunca levei dinheiro para as pevides. A mãe, poupada ao extremo, nunca as comprava. Quem me salvava era a minha vizinha e amiga, Leonor, sempre discreta nos seus gestos, a despejar-me um punhado de pevides no bolso ou nas mãos, como quem partilha um segredo. Agradecia-lhe baixinho, saboreando cada pepita, e parecia-me que ela fazia questão de se sentar sempre mais perto de mim.
No início sentia-me acanhado, mas ganhei o hábito de lhe fazer companhia. E a consciência não me deixava ficar sem retribuir. Depois do almoço, passava pelo quintal dela a mãe e o pai estavam sempre na fábrica e oferecia-me para arrancar ervas daninhas enquanto falávamos de tudo um pouco. Leonor aceitava a ajuda de bom grado. No fim, trazia chá acabado de fazer, tigelinhas de arroz-doce ou fatias de pão com doce caseiro. Eu dizia que não precisava, mas ela não descansava sem me ver comer qualquer coisa e beber um gole de chá.
Aqueles mimos eram raros em minha casa. Por isso, o meu coração ficava em dívida.
Na escola fazia por não envergonhar a mãe, mas só no desporto é que realmente brilhava. Foi por isso que, acabando o liceu, segui para o curso de Educação Física. A Leonor escolheu enfermagem.
Crescemos, cada um à sua maneira, e começámos a cruzar-nos menos vezes, apenas nas festas ou quando vínhamos ao campo visitar família. Tornei-me um rapaz robusto e ela continuava aquela rapariga de olhos azuis vivos, franzina e simpática, sempre com ar luminoso.
Leonor casou cedo, depois de perder os pais num acidente de viação. Andava inquieta, desejosa de criar uma família que lhe desse algum consolo. Mal soube que se casara à pressa com o João, rapaz da terra dado à fanfarronice e à conversa, fiquei surpreso. Nunca me pareceu que combinassem, mas formaram casa e, ao fim de um ano, nasceu-lhe um menino.
Eu, de minha parte, não tinha pressa em arranjar compromisso. Contra as expectativas da mãe, comecei a dar cartas na escola de desporto local e, pouco tempo depois, tornei-me director do ginásio municipal em Coimbra.
As minhas irmãs tinham partido para a cidade, casadas com homens de confiança. A vida da Leonor já não era cor-de-rosa: a mãe contava-me das desavenças com o marido, das saídas dele e do pouco que ligava à família.
Olha que é triste, Afonso dizia a mãe o João é igualzinho ao teu pai só pensa no vinho. Recorta tudo lá de casa para ir torrar ao café rádio, roupa, até os copos de vidro e toalhas dela levaram!
Será que ela precisa de alguma coisa? Algum empréstimo? perguntei com franqueza.
Não pede nada, mas sei que passa dificuldades. Só ganha o salário de enfermeira, pouco mais que uns euros. E dele não leva um tostão. É duro
Fiquei a matutar nisto o resto do dia. A mãe percebeu o meu silêncio e suplicou:
Não te ponhas a meter-te entre eles, Afonso. Coisas de marido e mulher não são para nós. Se ela lá está, é porque ainda sente alguma coisa
Aí, contei-lhe tudo do passado dos gestos bons da Leonor quando eu era criança, o aconchego dos lanches, o carinho.
Filha, não consigo estar descansado sabendo que ela vive assim, ainda por cima com o filho pequeno
O que vais fazer? a mãe perguntou, alarmada. Não te metas em sarilhos. Não ganhamos nada com isso. Melhor é ajudá-la discretamente
Acenei em silêncio e regressei à cidade. Dias depois, voltei ao campo com o carro cheio: sacos de arroz e massa, caixas de legumes, conservas, bolachas e doces. Até dois sacos cheiinhos de pevides. A mãe franziu o sobrolho, achando que eu me ia mudar de armas e bagagens.
Isto é para ti, mãe, e para dividir com a Leonor. Os sacos de pevides ela vai entender. Eu não lhe posso entregar isto diretamente, não quero que façam juízos. Faz como entenderes, distribui sem dar muito nas vistas.
E as tuas irmãs?
Sabes que lhes mando sempre algum à parte. Não lhes falta nada. São bem casadas, graças a Deus.
A mãe apenas murmurou um “graças a Deus” e prometeu que assim faria. Entrou logo na dispensa e começou a separar. Nas caixas vinha um pouco de tudo: farinha, massa, conservas, tremoços, até caramelos e tabletes de chocolate, daqueles que ela tanto gosta e Leonor há-de agradecer.
Depois, a cada semana, a mãe levava um cabaz à Leonor, sempre ao entardecer. Ao início ela recusava, mas assim que viu o balde de pevides, percebeu logo de onde vinham os presentes.
Chorou de emoção, mergulhou os dedos nas pevides, já perfumadas do campo, e sussurrou:
Diga ao Afonso que agradeço. Passaram-se tantos anos Mas ele não se esquece. Diga-lhe que fico muito grata, mas que já tomei uma decisão: pedi o divórcio há duas semanas. Em breve, isto passa.
A mãe só acenou, sem saber o que dizer, e regressou a casa cheia de pensamentos. Agora que a Leonor estava para ficar livre e o meu destino também andava à deriva.
Com o tempo, mantive o compromisso de ajudar. Leonor foi-se reerguendo, devagar. Já sorria mais, pendurou novos cortinados na janela, e o filho ia para a creche a brincar, igualzinho a ela.
Às vezes, a mãe ficava com o pequeno Diogo, que a chamava “avó” com toda a inocência. Sempre que eu vinha, trazia um brinquedo novo para o pequeno. Encontrávamo-nos todos à volta da mesa da cozinha eu, a mãe, a Leonor, o Diogo a recordar os tempos velhos, como se aqueles quatro anos do casamento infeliz jamais tivessem existido.
Cheguei a ir mais vezes à aldeia. A mãe, matreira, perguntava:
A Leonor veio cá hoje? O Diogo está contigo?
Ó mãe, queres mais saber da Leonor do que de mim! brincava eu.
Pergunta primeiro pela minha saúde, rapaz! reclamava, mas sempre com sorriso.
Tens razão, desculpa Estás bem? e espreitava a janela, a pensar já noutra pessoa.
Vai, vai lá a casa dela. Hoje está de folga, de certeza que te espera. Já todos falam de vocês vê lá se te resolves!
Pouco se fala, muito se julga dizia eu a rir. Sabe-se mais depressa na aldeia do que em Lisboa, credo!
Nesse dia, abracei a minha mãe, apertando-a com carinho.
Obrigado por tudo, mãe. Por me entenderes sempre, sem perguntar demais.
A mãe fez o sinal da cruz, olhando as imagens em cima da cómoda, e eu caminhei para a casa da Leonor, um ramo de margaridas brancas na mão. Nem tentei disfarçar o sorriso, nem quis saber dos rumores das vizinhas. Elas falam mas eu hei de lhes mostrar o que é sussurrar.
Mal sabia eu que, atrás do cortinado, Leonor já me espreitava, emocionada, pronta para abrir finalmente a porta do futuro.






