— Pedimos desculpa, — começou um dos agentes. — Mas esta senhora afirma que o seu gato saltou para a varanda dela, a atacou e depois roubou o gatinho dela…

Peço desculpa, começou um dos agentes. Mas esta senhora afirma que o vosso gato saltou para a sua varanda, atacou-a e depois roubou-lhe o gatinho…

Lembro-me de um prédio antigo ali em Lisboa, que todos chamavam de prédio de esquina. Era curioso, porque tinha dois corpos unidos em ângulo reto, formando quase um L perfeito. E nas varandas interiores, bem no vértice, ficavam tão perto que mal cabia uma criança de braço estendido entre ambas. Era coisa de metro e meio, se tanto.

Pois bem…

Vivia ali um casal no quinto andar. Trabalhavam na mesma empresa, faziam juntos o caminho diário de ida e volta no velho Renault azul.

Numa tarde chuvosa, ao passar pelo pátio ajardinado do prédio, deram de caras com uma cena que lhes ficou gravada: os cães vadios do bairro atacavam selvaticamente um gato abandonado, que os moradores alimentavam de vez em quando eles próprios já lhe tinham levado sardinhas e restos de bacalhau.

O senhor gritou, correndo de encontro aos cães, que acabaram por fugir. O pobre bicho, porém, ficou maltratado. Ainda bem que os ferimentos não eram graves. Pegaram nele e foram diretos ao carro, guiando até à clínica veterinária mais próxima.

Nessa noite, enquanto a veterinária lhe limpava as feridas, lhe cosia a barriga, punha soro e injectava vitaminas e antibióticos, o casal ouviu instruções cuidadas: tinham de levar o bichano a consultas diárias durante uma semana.

E foi assim que o Guga passou a morar com eles.

Guga, ouviram bem? Guga, de gangster, porque o gato tinha mesmo aquele ar bravio: pelagem curta e preta, olhar desconfiado, bigodes torcidos de tantas lutas. Mas, inesperadamente, Guga habituou-se depressa ao conforto e carinho deitou-se sem cerimónia no sofá, esticou-se todo e ronronou de prazer quando a senhora lhe fez festas na barriga.

Olha que menino mimado! ria ela, acariciando-lhe o pêlo com jeito de mãe.

Ainda com dores, Guga franzia o focinho, mas não conseguia disfarçar o gosto. Finalmente era querido, seguro.

Dias passaram, e ele fortaleceu-se, lavou-se e engordou. O pêlo ficou lustroso, os olhos mais calmos, e logo começou a dormir recostado nas pernas deles. A sua vida antiga, de frio, fome e medo, era já só uma sombra.

Agora passava longas horas na varanda, sentado como um rei no peitoril, vigiando o que se passava lá em baixo. Ir à rua? Nunca mais já sabia bem demais que liberdade pode ser só abandono.

As varandas vizinhas não lhe despertavam curiosidade… até ao dia em que, a meio metro do seu recanto, apareceu um pequenote felpudo, olhos órfãos de malícia: era um gatinho, tão cuidado que se notava logo ser de raça.

Ó menino de pedigree, nunca saberás o preço das coisas… pensou Guga, bufando de desdém e virando as costas com o rabo bem alto.

No dia seguinte, um choro baixinho chamou-lhe a atenção. Ouviu bem vinha do menino mimado.

Guga esticou-se até à beira e perguntou, já farto daquele drama:

Eh, tu! Que choramingas é esse? Não te chega o atum do pacote?

O gatito, assustado, recuou para o canto, calado, olhando de baixo para o grandalhão.

Porque choras tu? insistiu Guga, curioso.

E o pequenito sussurrou, mal mexendo os lábios:

Ela bateu-me… com um chinelo. Nem sabes como dói.

Guga nunca soube o que era apanhar com um chinelo, já só conhecia festas e colo, mas a dor reconhecia-a bem.

Chinelo? Porquê?

Miou alto de madrugada… Tinha fome.

Só isso? admirou-se Guga.

Só isso. Ela bateu-me, gritou tanto…

O pequeno tremia como vara verde, com medo até de responder. Guga viu-se de repente memória de tempos duros, frio, fome, terror.

Costuma bater-te? murmurou o gato grande.

Quase sempre, soluçou o miúdo. Qualquer barulho ou malandrice… Diz que não gosta de mim.

Mas sempre diz às amigas ao telefone que sou caro, que custei muitos euros. Eu cá nem sei o que é ser caro…

Guga sabia. A senhora dizia-lhe sempre, meia cantiga: Meu querido, meu tesouro. Mas ali, percebia, caro não era palavra de mimo.

Ficou desconfortável, solidário com o pequeno. A rua ensinara-lhe a defender os fracos, mas agora era um gato doméstico. O que devia fazer?

Chamaram o gatinho lá de dentro. Ele entrou depressa, com as orelhas e o rabinho colados ao corpo de pavor, e deixou um pequeno rasto molhado de medo.

Guga ficou a olhar para a mancha no chão, lembrando-se de quando era ele, pequenito, a molhar-se de pavor ao ver um cão enorme.

Passaram-se dias. O seu novo amigo tinha um nome pomposo: Euro. Para Guga, parecia-lhe mais justo chamar-lhe Fráguedo.

O Fráguedo ganhou confiança, já vinha sempre ao parapeito contar desgraças:

Hoje disse-me que, se não parar de miar, atira-me da varanda! Está farta de limpar depois de mim…

A cada ameaça, o pêlo de Guga eriçava-se de raiva. Já ouvia todos os dias berros, insultos, e o silvo duro de um chinelo no corpo mole do Fráguedo.

No seu peito crescia decisão, só abafada pelo medo: poderia perder tudo, ser de novo largado à rua.

Mas a ideia de ver o pequeno morto não o deixava descansar.

Tudo aconteceu numa tarde cinzenta. Guga ouvia insultos vindos do lado. Pela vidraça, viu a mulher esbaforida agarrar o chinelo e rodar-se para o pobre Fráguedo, preso ao chão de tanto terror.

Rápido que vou-te matar, peste! berrou ela.

Guga nem percebeu como saltou o vão de metro e meio para a varanda vizinha.

A mulher não chegou a acertar pois, saltando à sua frente na cama, apareceu…

Não, não era só um gato. Era o próprio Demo vindo do inferno.

Imenso, de olhos faiscantes, dentes à mostra, sibilando feito diabrete louco. O fogo jorrava-lhe das ventas (assim o jurou a mulher), e os olhos eram tochas. A senhora gritou, largou o chinelo e… molhou a camisola de tanto medo.

Era o diabo! repetiria mais tarde.

A fera ergueu uma garra, e ela desmaiou à força de berrar, as mãos tapando-lhe o rosto.

Dez minutos depois, bateram à porta do casal. No corredor estava a vizinha, despenteada, olhos desvairados.

O vosso gato atacou-me!!! Arranhou-me e roubou-me o meu Euro! Vou chamar a polícia!

Senhora, replicou calmamente a dona da casa, o nosso gato está aqui dentro, sempre sossegado. E não há por cá nenhum gatinho que não o nosso.

A vizinha contorceu a boca, foi para protestar, mas saiu-lhe um chiado, saiu disparada para o próprio apartamento e bateu a porta com estrondo.

Mais uns minutos e a polícia apareceu. A vizinha gesticulava, transtornada.

Desculpem, disse o agente, mas a senhora insiste que o vosso gato saltou-lhe para a varanda, atacou-a e roubou-lhe o gatinho…

O quê? exclamaram marido e mulher, com os olhos esbugalhados.

Senhores agentes, entrem à vontade, convidou o marido. O nosso Guga está no sofá, a dormir. Não há cá mais gatos.

Entraram todos. E Guga roncava no sofá, estendido como uma donzela.

É ele! É esse demónio! gritou a vizinha. Foi ele que me atacou e raptou o meu Euro!

O quê, raptou o quê? não perceberam os guardas. O vosso gato roubou-vos os euros?

Oh, não sejam ignorantes! O gato chama-se Euro!

Os polícias trocaram olhares e saíram à varanda.

São quase dois metros, constatou um.

E acredita que o gato saltou isto tudo com outro gato na boca? perguntou o outro.

Não me acreditam? gritou a mulher, correndo de um lado ao outro: Euro! Euro! Euro!

Desmanchava a casa dos donos de Guga, virava gavetas, deitava trapos ao chão, fazia um pandemónio.

Os guarda acabaram por sentá-la à força.

Senhora, agora está a cometer delito. Os donos podem apresentar queixa, advertiu um deles.

Queixa?! Depois do que esta fera me fez?!

Já agora, cortou o outro, pode mostrar onde foi arranhada?

A vizinha hesitou, empalideceu e guinchou:

Hei-de encontrar justiça! Todos vocês vão pagar!

Desculpe, disse calmamente a dona da casa, cheira aqui tanto a mijo… podia sair do meu banco, se faz favor?

A vizinha arregalou os olhos, ficou vermelha, depois esverdeada, finalmente pálida, e saiu disparada.

Vão apresentar queixa? perguntou um dos polícias.

Não, responderam marido e mulher num sopro.

Parece-me que precisa de cuidados, murmurou a senhora.

Lamentamos o incómodo, despediram-se os agentes.

Marido e mulher olharam para Guga, já desperto no sofá.

Ora então… disse o homem.

Ora então… repetiu a mulher.

Guga, aparvalhado, saltou do sofá direito ao armário. Abriu a porta com a pata, entrou e espreitou por baixo das toalhas trazendo para fora o pequeno Fráguedo, encolhido de puro terror.

Meu Deus… suspiraram os dois em uníssono.

Sentaram-se no sofá, enquanto Guga deixava o amiguinho tremer ao colo deles.

E agora, que fazemos? perguntou a mulher, aconchegando o pequeno no regaço.

O Fráguedo estremeceu ainda mais.

Não temas, rapaz, disse o homem macio.

Aqui não se bate em gatos, continuou a senhora, acariciando a espinha trémula. E tu, Guga… estás de castigo. Não se faz destas coisas, não se faz. Podias ter arranjado melhor solução…

E qual era? admirou-se o marido. Salvou o pequeno das garras da bruxa. Agora vai ser castigado?

E afinal, aqui não há gato nenhum, ouviste o que disseram os polícias.

Pronto, suspirou a mulher ao Fráguedo. Sempre a defenderem-se uns aos outros… Ainda vais querer dar-lhe uma medalha!

Pois eu dou, sorriu o homem. Anda, Guga, dou-te um franguinho de prêmio.

Vê se isto é justo! atacou a mulher, pedindo cumplicidade ao pequeno, que inesperadamente esticou as patinhas, abraçou-lhe a mão e encostou-se ao calor dela.

A senhora sorriu, rendida.

Está bem… Só por esta vez perdôo-te.

O homem e o Guga foram até à cozinha, e o Fráguedo ficou quietinho no colo, ronronando baixinho. Descobria agora que receber festas era das melhores coisas do mundo.

E meditava sobre o estranho significado de caro.

Parecia-lhe agora, nos lábios daquela senhora bondosa, uma palavra cheia de amor.

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— Pedimos desculpa, — começou um dos agentes. — Mas esta senhora afirma que o seu gato saltou para a varanda dela, a atacou e depois roubou o gatinho dela…