Pai, como pudeste fazer isto à mãe?! Como foste capaz, pai?!

Pai, como é possível?! Como pudeste fazer isso à mãe?!

Graça passeava pelo Jardim da Estrela com a sua amiga, quando avistaram à distância um homem e uma mulher. Eles estavam abraçados, e ele murmurava-lhe algo ao ouvido que fazia a mulher sorrir com felicidade. Graça fitava-os, incrédula, sem conseguir desviar o olhar.

Graça, o que se passa? Graça! chamou a amiga, admirada.

Não é nada. Vamos embora respondeu de repente Graça, apressando o passo.

Despediram-se e cada uma seguiu para sua casa. Graça caminhava rumo à sua rua em Campo de Ourique, com o coração apertado e uma incredulidade a tomar-lhe o pensamento.

Pai, como é possível? Como conseguiste isto à mãe? pensava ela, sem acreditar no que tinha visto com os próprios olhos.

Saíram da aula extra, com a tarde a cair, e foi Graça que sugeriu:

Leonor, vamos dar uma volta ao parque?

Vamos lá, enquanto ainda temos luz aceitou a amiga.

Embora não fosse o caminho mais direto para casa, estavam mesmo com vontade de esticar as pernas pelo jardim e ver as pessoas felizes. Seguiam por entre os bancos e árvores, observando casais de mãos dadas, e sentiam aquela pontinha de inveja inocente. Ninguém reparava nelas.

Ao virarem por um caminho menos movimentado, deram de caras com um casal. O homem, já com cabelos grisalhos, abraçava a mulher e murmurava-lhe, fazendo-a rir baixinho. Apesar de estarem de costas para as raparigas, era evidente que o homem era mais velho.

Leonor olhou distraída, mas apercebeu-se de que Graça estava petrificada, olhar fixo, olhos arregalados.

Graça, está tudo bem? Anda daí!

Eu… Não é nada. Vamos respondeu, e acelerou o passo.

Já fora do parque, Graça seguia calada, mergulhada nos seus pensamentos, a imagem daquele casal não lhe saía da cabeça.

Como pode ser? Era mesmo o meu pai. Não vi mal, era ele ali, tão feliz, como nunca o vi com a minha mãe. Será que é possível?

Naquela noite, Graça voltou a casa já tarde.

Anda jantar! resmungou a mãe da cozinha. Contigo e com o teu pai, uma mulher ainda morre de fome à espera

Já vou, só vou lavar as mãos! respondeu Graça, sem saber muito bem onde pôr os olhos.

Demorou-se algum tempo na casa de banho, fugindo ao mundo e à mãe. Quando finalmente regressou à cozinha, o pai ainda não estava. Jantou em silêncio e depois fugiu para o quarto.

Sentou-se à secretária com o portátil, mas não conseguia concentrar-se. Via sempre a mesma cena: o seu pai, aquela mulher, o sorriso, o segredo cúmplice. Não queria acreditar.

Será que na vida dos adultos enganar é coisa normal? O que lhe falta, será que ele nos trocaria a mim e à mãe por aquela mulher?

Uma ideia começou a formar-se-lhe na cabeça. Será que ela nem sabe que eu existo?

Ouviu a porta da rua a abrir-se.

Desculpa, amor! ecoou a voz cansada do pai.

Antes, só vinhas cansado ao fim do mês. Agora é todos os dias, não? atirou a mãe, já pronta para nova discussão.

Joana, é verdade Têm sido tempos complicados!

Como sempre, o pai passou pelo quarto dela. Quis beijá-la, mas Graça esquivou-se.

Vai jantar, que a comida arrefece disse ela, secamente.

Filha, está tudo bem contigo?

Comigo, sim. E contigo?

O pai olhou-a de forma estranha, como se suspeitasse de algo, mas não disse nada e seguiu para a cozinha.

Toda a noite, Graça preparou um plano para reconquistar o pai. Não podia deixar que uma estranha o roubasse.

Acordou com os ecos das vozes dos pais vindos da cozinha.

Francisco, onde vais?

Ao trabalho. Preciso mesmo.

Mas hoje é sábado. Podias ficar com a família.

Volto antes de almoço, prometo. Depois vamos passear todos juntos.

Graça saiu do quarto, espreguiçando-se, simulando sono.

Onde te preparas para ir? ouviu logo a mãe.

Mãe, tenho explicações. Já estou atrasada.

Esta malta nova, nunca estão em casa ouviu ainda atrás de si, antes de desaparecer na casa de banho.

Apanhou o pai já quase na porta.

Filha, levo-te às explicações!

Graça, bebe um café antes de saíres! chamou a mãe. Já está pronto!

Vai bebendo, eu espero insistiu o pai, mais atencioso do que nunca.

Graça entrou, bebeu o café de pé, num ápice. Saiu:

Vamos, pai!

Caminharam em silêncio. Foi ele a quebrar o gelo.

Filha, estás chateada comigo?

Não, pai São coisas da idade hesitou ela. Mas eu gosto muito de ti, pai.

E eu de ti, filha.

Mais que tudo neste mundo?

Viu o pai desconcertado, mas a resposta veio firme:

Bem mais que tudo!

Quando chegaram perto do prédio onde seria suposto ela ter as explicações, despediu-se.

Pronto, pai, é aqui. Logo, ao almoço, não te esqueças. Disseste que íamos passar juntos o fim de semana.

Ele sorriu e acenou. Graça, porém, ficou escondida atrás da esquina. Só depois de o ver afastar-se, seguiu-o.

O pai não foi trabalhar. Caminhou por ruas desconhecidas até a uma zona de Príncipe Real. Esperou junto a um portão, ligou para alguém.

Ao fim de uns minutos, uma mulher saiu. Graça não conseguiu não reparar: era bonita, elegante, parecia saída de uma revista.

A sério? Será ela tão importante para o meu pai? Mais do que nós?

A mulher abraçou o seu pai, trocaram um beijo e seguiram juntos, de braço dado. Entraram num jardim mais escondido. Sentaram-se num banco e conversaram, a conversa parecia séria, mas culminou num longo beijo.

Graça observava, estratégica, a uma distância segura. Angustiada. Depois, levantaram-se e voltaram ao prédio. Novo beijo de despedida. O pai afastou-se e a mulher tornou a entrar.

Foi então que Graça decidiu: precisava falar com aquela mulher.

A mulher voltou a sair, pouco depois, com um saco de lixo. Aproveitando, Graça aproximou-se e bloqueou-lhe o caminho.

Olá! Graça falou com firmeza.

Olá Posso ajudar? respondeu a mulher, surpreendida.

Ouça: se voltar a encontrar-se com o Francisco vai-se arrepender.

Mas quem é você?

Não percebeu? Eu sou a filha dele. Ele ama a minha mãe, ela é a esposa dele. Acabe já com isto!

Mas começou a mulher, confusa.

Ligue-lhe agora. Diga-lhe para não voltar.

A mulher pegou no telefone, hesitou, mas ligou.

Francisco?

Olá, Cláudia, o que se passa?

Francisco, já chega. Não podemos continuar. Tens família, e eu vou embora de Lisboa depois do curso.

Do outro lado, sentiu pela voz que o pai ficou, quase, aliviado.

Está bem, Cláudia. Adeus!

Quando Graça voltou a casa, os pais almoçavam, serenos, na cozinha.

Estás tão contente, menina, que se passa? perguntou a mãe.

Tenho fome, só isso! respondeu Graça, sorrindo.

Filha, o que te aconteceu? perguntou o pai.

Pai, gostas de mim? devolveu Graça, com os olhos brilhantes.

Muito! respondeu o pai.

E da mãe?

Ele hesitou um segundo, mas depois, bem firme:

Também gosto muito da tua mãe! Verdade verdadeira.

E ali, à mesa, foi como se tudo entre eles ficasse restabelecido e o amor da família, preservado.

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Pai, como pudeste fazer isto à mãe?! Como foste capaz, pai?!