— Outra vez uma menina?… Isto só pode ser uma piada!… Na nossa família, quatro gerações de homens trabalharam na CP! E tu, o que trouxeste para casa?— Eu… eu sou mesmo assim tão mau? Como o pai?… — E tu, o que achas?

Outra menina? Isto é uma piada de mau gosto! Na nossa família, quatro gerações de homens trabalharam nos comboios! E tu, o que trouxeste? Eu eu sou assim tão mau? Sou como o meu pai? O que é que achas?

Benedita arrastou a sogra, Dona Amélia. Pelo menos o nome é aceitável. Mas de que serve? Quem vai querer saber da tua Benedita?

João manteve-se calado, enfiado no telemóvel. Quando lhe perguntei a opinião, encolheu apenas os ombros:

O que vier, veio. Se calhar o próximo é rapaz.

Senti um nó apertar-se cá dentro. O próximo? E esta pequenina é o quê, um ensaio geral?

A Benedita nasceu em janeiro pequena, com uns olhos enormes e uma cabeleira escura. O João apareceu só no dia de a irmos buscar ao hospital, trouxe um ramo de cravos e um saco com roupas para bebé.

É bonita disse ele, espreitando com cuidado para dentro do berço. Parece-se contigo.

Mas tem o teu nariz sorri. E o queixo teimoso.

Oh, deixa-te disso afastou ele. Todos os bebés são iguais nesta idade.

Dona Amélia recebeu-nos em casa com cara de poucos amigos.

A vizinha, Dona Helena, perguntou-me se era neto ou neta. Fiquei envergonhada de responder resmungou. Na minha idade, brincar às bonecas

Fechei-me no quarto da Benedita e chorei baixinho, abraçando a minha filha.

O João começou a trabalhar cada vez mais. Fazia uns biscates para os vizinhos, aceitava todos os turnos extra. Dizia que a família custava caro, ainda mais com uma criança. Chegava a casa tarde, cansado e calado.

Ela espera por ti dizia eu, quando ele passava pela porta do quarto sem sequer espreitar. A Benedita ganha logo vida mal ouve os teus passos.

Estou cansado, Ana. Amanhã tenho de ir cedo para o trabalho.

Mas nem sequer lhe disseste boa noite

É pequena, não percebe.

Mas a Benedita percebia. Via perfeitamente a minha filha virar a cabeça para a porta quando ouvia o pai. E como ficava tempo a olhar para o vazio quando ele se ia embora.

Aos oito meses, a Benedita adoeceu. Primeiro febre aos trinta e oito, depois trinta e nove. Liguei para o SNS, mas o médico disse que por agora era para dar antipiréticos em casa. De manhã a febre já ia nos quarenta.

João, acorda! sacudi o marido. A Benedita está muito mal!

Que horas são? perguntou, ainda de olhos semicerrados.

Sete da manhã. Não dormi nada, a noite toda com ela. Temos de ir ao hospital!

Agora? Não podes esperar até ao fim do dia? Hoje tenho um turno importante

Olhei para ele como quem não reconhece a pessoa ao lado.

A tua filha está a arder de febre e só pensas no trabalho?

Não está a morrer! Os miúdos ficam doentes muitas vezes.

Chamei um táxi por mim mesma.

No hospital internaram logo a Benedita na Pediatria, suspeitavam de uma infeção complicada era preciso fazer uma punção lombar.

O pai dela está onde? perguntou o médico de serviço. Precisamos do consentimento dos dois.

Ele está a trabalhar. Vai já chegar.

Tentei ligar ao João todo o dia. O telemóvel desligado. Só às sete da noite ele atendeu.

Ana, estou na oficina, tenho coisas para resolver

João, a Benedita pode ter meningite! Precisam do teu consentimento para a punção! Os médicos estão à espera!

O quê? Que punção? Não estou a perceber nada

Vem, agora mesmo!

Não posso, a minha jornada só acaba às onze. Depois combinei ir com os colegas

Desliguei em silêncio.

Fui eu a assinar o consentimento sozinha como mãe, tinha esse direito. Fizeram a punção à Benedita sob anestesia geral. Ela parecia tão pequena naquela maca enorme.

Os resultados só amanhã disse o médico. Se for meningite, o tratamento vai ser longo. Um mês e meio internada, pelo menos.

Fiquei a dormir no hospital aquela noite. A Benedita ligada à soro, pálida e parada. Só o peito subia e descia devagarinho.

O João apareceu no dia seguinte, à hora do almoço. Por fazer a barba, camisa amarrotada.

Então como é que ela está? perguntou, sem coragem de entrar no quarto.

Mal respondi. Ainda não sabemos os resultados.

O que lhe fizeram mesmo? Aquilo como se chama

Punção lombar. Tiraram líquido da espinal-medula para analisar.

O João ficou branco.

Doeu-lhe?

Estava anestesiada. Não sentiu.

Aproximou-se devagar do berço. A Benedita dormia, a mãozinha cheia de pensos, o cateter preso no pulso.

Ela é tão pequena murmurou ele. Nunca pensei

Nada lhe disse.

O resultado veio bom não era meningite. Uma infeção viral, mas com complicações. O médico disse para continuar o tratamento em casa, acompanhadas de perto pela médica de família.

Por sorte vieram já disse o médico-chefe. Mais dois dias e teria sido muito mais grave.

No caminho para casa, o João ia calado. Só quando estacionámos, perguntou baixo:

Eu sou assim tão mau? Como pai?

Ajustei a minha filha ainda a dormir nos braços e olhei para ele.

E tu, o que achas?

Achei que ainda tinha tanto tempo. Que ela era demasiado pequena para entender Mas quando a vi ali, com os tubos Percebi que podia perder. E que tinha mesmo algo para perder.

João, ela precisa de um pai. Não de quem só traz dinheiro para casa. Um pai, que saiba o nome dela. Que saiba quais são os brinquedos favoritos.

Quais são? perguntou ele, a voz a tremer.

Um ouriço de borracha e o chocalho dos sinos. Quando entras em casa, ela rasteja sempre até à porta. Fica à espera que a pegues.

O João baixou a cabeça.

Não fazia ideia

Agora já sabes.

Em casa, a Benedita acordou e chorou um chorinho fino, triste. O João, instintivamente, foi para a pegar, mas hesitou.

Posso? perguntou.

É tua filha.

Pegou-a ao colo. A Benedita soluçou, depois ficou quieta, olhando muito séria para o pai.

Olá, pequenina sussurrou João. Desculpa não te ter estado ao lado quando tiveste medo.

A Benedita estendeu a mão e tocou-lhe na cara. O João sentiu um nó apertar-se-lhe na garganta.

Papá disse ela, de repente, clara como água.

Era a sua primeira palavra.

O João olhou para mim de olhos muito abertos.

Ela ela disse

Diz há uma semana sorri. Mas só quando tu não estás. Devia estar à espera do momento certo.

À noite, quando a Benedita adormeceu nos braços do pai, o João deitou-a cuidadosamente no berço. Nem acordou, só agarrou o dedo dele ainda mais forte no sono.

Não quer largar admirou-se ele.

Tem medo que desapareças outra vez expliquei.

Ficou junto dela mais meia hora, sem conseguir soltar o dedo.

Amanhã vou tirar o dia disse-me em surdina. E depois também. Quero Quero conhecer melhor a nossa filha.

E o trabalho? Os turnos extra?

Arranjamos outra forma de viver. Ou vivemos apenas com o que temos. O importante é não perder o tempo de a ver crescer.

Abracei-o.

Mais vale tarde do que nunca.

Nunca me perdoaria se acontecesse alguma coisa e eu nem soubesse quais eram os brinquedos dela murmurou o João, a olhar para a filha a dormir. Ou que ela já sabia dizer papá.

Uma semana depois, quando a Benedita já estava bem, fomos os três ao Jardim da Estrela. Ela ia às cavalitas do pai, a rir alto, a agarrar as folhas de outono.

Olha que bonito, Benedita! mostrava-lhe o João os plátanos amarelos. E ali um esquilo, vês?

Caminhei ao lado deles, a pensar que às vezes precisamos quase de perder o mais precioso para perceber o seu verdadeiro valor.

Dona Amélia recebeu-nos em casa ainda a resmungar.

João, a Dona Helena contou-me que o neto já joga futebol. E a tua só brinca com bonecas.

A minha filha é a melhor do mundo respondeu o João, tranquilo, sentando a Benedita no tapete e dando-lhe o ouriço de borracha. E brincar com bonecas é maravilhoso.

Mas a família vai acabar

Não acaba nada. Continua. De outra forma, mas continua.

A sogra ia responder, mas a Benedita gatinhou para a avó e estendeu-lhe os braços.

Avó! disse, abrindo um sorriso.

Dona Amélia, atrapalhada, pegou nela.

Ela ela fala! admirou-se.

A nossa Benedita é muito inteligente disse o João, orgulhoso. Não é, filha?

Papá! exclamou a Benedita, batendo palminhas.

Olhei para eles e pensei que a felicidade às vezes nasce dos maiores desafios. Que a maior das amores nem sempre nasce à primeira vista, cresce devagar, através da dor e do medo de perder.

Nessa noite, ao deitar a Benedita, o João cantou-lhe uma canção de embalar. A voz não era alta, tremia um pouco, mas a minha filha ficou quieta, olhos bem abertos a ouvi-lo.

Nunca lhe tinhas cantado notei.

Nunca fiz tanta coisa disse o João. Mas agora tenho tempo para recuperar o que perdi.

A Benedita adormeceu, agarrada ao dedo do pai. E o João não soltou, ficou ali no escuro, a ouvi-la respirar, a pensar em tudo o que se pode perder, se não paramos para olhar à nossa volta a tempo.

E a Benedita, tranquila, sorriu a dormir agora, já sabia que o pai não ia a lado nenhum.

Esta história podia ser a minha, ou de qualquer uma de nós. Às vezes, a vida precisa de nos pôr à prova, para despertar o melhor dentro de cada pessoa. E tu, acreditas que alguém pode mudar quando percebe que pode perder aquilo que mais ama?

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— Outra vez uma menina?… Isto só pode ser uma piada!… Na nossa família, quatro gerações de homens trabalharam na CP! E tu, o que trouxeste para casa?— Eu… eu sou mesmo assim tão mau? Como o pai?… — E tu, o que achas?