Outra menina? Isto é gozar comigo!… Na nossa família, quatro gerações de homens trabalharam na CP! E tu, trouxeste o quê? Eu… sou assim tão mau? Como pai?… E tu, o que achas?
Mafalda… disse a sogra, arrastando o nome. Pelo menos o nome até é decente. Só não sei para que serve… Quem é que há de querer a tua Mafalda?
Fiquei calado, os olhos presos no telemóvel. Quando a minha mulher me pediu opinião, encolhi só os ombros:
É o que é. Talvez o próximo seja rapaz.
A Inês olhou para mim, os olhos tristes. O próximo? E esta pequenina, era o quê, um ensaio?
Mafaldinha nasceu em janeiro pequena, com uns olhos enormes e cabelo escuro. Só fui buscá-las ao hospital: levei um ramo de cravos e um saco com roupa de bebé, como se mandava.
É bonita… comentei, espreitando o berço com cuidado. Sai à tua mãe.
Mas tem o teu nariz, sorriu Inês. E o queixo teimoso.
Deixa lá, resmunguei. Os bebés são todos iguais nesta idade.
D. Teresa, minha mãe, recebeu-nos em casa com cara fechada.
A vizinha Amélia perguntou-me se era neto ou neta. Fiquei envergonhada até em dizer, bufou ela. Uma mulher da minha idade a brincar com bonecas…
Inês fechou-se no quarto da Mafalda e chorou baixinho, apertando a nossa filha contra o peito.
Fui-me enterrando no trabalho. Fazia turnos extra, aceitava biscates aqui e ali. Dizia que era pelo dinheiro, pela família um bebé é caro, explicava sempre. Chegava tarde, cansado, quase sem falar.
Ela espera por ti, dizia-me Inês, quando passava pelo quarto de Mafalda sem sequer espreitar. Ela ganha vida ao ouvir os teus passos.
Estou estafado, Inês. Amanhã entro cedo.
Mas nem disseste olá…
Ela é pequena, não percebe.
Mas a Mafaldinha percebia. Eu via como ela virava a cabecinha para a porta ao ouvir-me chegar. E depois, o silêncio dela quando eu saía. As portas e as janelas…
Aos oito meses, Mafalda ficou doente. Primeiro febre a trinta e oito, depois trinta e nove. Inês chamou o INEM, mas o médico disse que, por agora, podíamos ir dando antipiréticos em casa. De manhã, a febre subiu a quarenta.
Rui, acorda! a Inês sacudiu-me. A Mafalda está mal!
Que horas são?… abri os olhos à força.
Sete. Não dormi nada a noite inteira. Temos de ir ao hospital!
A esta hora? Não se pode esperar até logo? Hoje tenho um turno importante…
Olhei-a como se fosse uma estranha.
A tua filha está num braseiro, e tu pensas no trabalho?
Não está a morrer! As crianças adoecem muito…
A Inês chamou o táxi sozinha.
No hospital, internaram logo a Mafalda no isolamento. Suspeita-se de uma infeção grave era preciso uma punção lombar.
O pai não veio? perguntou o médico-chefe. Precisamos do consentimento dos dois.
Ele… está a trabalhar. Mas já vem.
A Inês ligou-me todo o dia. O telemóvel ficou desligado. Às sete da noite, finalmente, atendi.
Inês, estou no comboio… Não posso sair agora…
Rui, a Mafalda tem suspeita de meningite! Precisamos do teu consentimento! Os médicos estão à espera!
O quê? Que punção? Não percebo nada disto…
Vem cá AGORA!
Não posso, o turno só acaba às onze. E combinei com os colegas…
Ela desligou.
Assinou sozinha por direito de mãe. Fizeram a punção com anestesia geral. A Mafalda parecia tão pequenina naquela maca enorme.
Os resultados saem amanhã, disse o médico. Se for meningite, o tratamento é longo. Três, quatro semanas no hospital, pelo menos.
A Inês ficou lá a dormir. Mafalda estava ligada ao soro, branca como a cal. Só o peito subia devagar.
No dia seguinte apareci à hora do almoço, barba por fazer, roupa amarrotada.
Então?… Como está? sem coragem de entrar no quarto.
Mal, respondeu Inês. Ainda não temos resultados.
Mas afinal o que lhe fizeram? Aquilo…
Punção lombar. Tiraram líquido da espinha para analisar.
Fiquei sem cor.
Doeu-lhe?
Estava a dormir, não sentiu nada.
Aproximei-me do berço. A pequena dormia, a mãozinha esticada com um cateter colado ao pulso.
Tão frágil…, murmurei. Nunca pensei…
A Inês não disse nada.
Os resultados foram bons nada de meningite. Uma infeção viral grave mas controlável em casa, sob vigilância.
Tiveram sorte, avisou o médico. Mais um ou dois dias e podia ser pior.
No caminho para casa fui calado. Só quando chegámos, perguntei baixinho:
Eu… sou mesmo tão mau pai?
A Inês ajeitou a Mafalda, que dormia.
E tu, o que achas?
Julgava que tinha tempo. Que era pequena, não percebia nada. Mas quando a vi assim, toda cheia de tubos… percebi que podia perder o mais importante. E só aí vi o quanto ela significa.
Rui, ela precisa de um pai. Não de quem só traz dinheiro. Um pai que saiba o nome dela, que conheça os brinquedos de que ela gosta.
Quais? perguntei envergonhado.
O ouriço-do-marfim de borracha e o chocalho com guizos. Sempre que chegas, vai até à porta e espera que a leves ao colo.
Baixei a cabeça.
Não fazia ideia…
Agora fazes.
Em casa, Mafalda acordou a chorar baixinho, aflita. Instintivamente tentei pegá-la, mas hesitei.
Posso? pedi.
É tua filha.
Pousei Mafalda nos braços. Ela fungou e acalmou, fitando-me muito séria.
Olá, minha pequenina, sussurrei. Desculpa não ter estado quando estiveste mal.
Ela esticou a mão, tocou-me na cara. Senti um nó na garganta.
Papá, disse Mafalda, com voz clara.
O seu primeiro palavra.
Olhei para Inês, surpreendido.
Ela… Ela disse…
Repete há uma semana, sorriu a minha mulher. Só quando não estás. Esperava pelo momento certo.
Nessa noite, quando Mafalda adormeceu nos meus braços, levei-a ao berço. Ela não acordou, mas agarrou-me o dedo ainda com mais força.
Não quer largar-me… comentei, pasmado.
Tem medo que te vás outra vez, respondeu Inês.
Fiquei ali ao lado meia hora, sem coragem de soltar o dedo.
Amanhã tiro o dia, anunciei. E depois também. Quero… conhecer melhor a minha filha.
E o trabalho? Os turnos extra?
Arranja-se outra solução. Ou vivemos com menos. O importante é não perder o tempo em que ela cresce.
A Inês aproximou-se e abraçou-me.
Antes tarde do que nunca.
Nunca me perdoaria se lhe tivesse acontecido algo, e eu nem soubesse quais eram os brinquedos favoritos dela… Ou que já sabia dizer papá.
Uma semana depois, quando Mafalda já estava bem, fomos ao jardim os três. Ela ia aos meus ombros, rindo ao agarrar as folhas de outono.
Olha, Mafaldinha, que brilho! mostrei-lhe os plátanos amarelos. E ali, um esquilo!
A Inês andava ao meu lado e pensava como, por vezes, quase é preciso perder o que mais importa para lhe dar o verdadeiro valor.
A minha mãe recebeu-nos ainda mal-humorada.
Rui, a Amélia já me disse que o neto dela joga futebol. E a tua… só brica com bonecas.
A minha filha é a melhor do mundo, respondi, sentando-a no chão e dando-lhe o ouriço de borracha. E bonecas são maravilhosas.
Assim o nome da família acaba…
Não acaba. Continua, mas de outra forma.
A minha mãe ia retrucar quando Mafalda se arrastou até ela e ergueu os bracinhos.
Avó! disse, sorrindo.
A minha mãe, surpreendida, pegou-a ao colo.
Ela… Ela já fala! pasmou-se.
A nossa Mafalda é muito esperta, declarei com orgulho. Não é, filha?
Papá! respondeu ela alegremente, batendo palmas.
A Inês olhava para nós e pensava que a felicidade, às vezes, chega depois de ser testada. E que o amor maior não nasce à pressa, mas cresce devagar, entre dores e sustos.
Nessa noite, ao deitar Mafalda, cantei-lhe pela primeira vez uma canção de embalar. A voz era baixa, um pouco rouca, e Mafalda escutava-me com os olhos muito abertos.
Nunca tinhas cantado para ela, comentou Inês.
Nunca fiz tantas coisas… respondi. Mas agora tenho tempo para recuperar o que perdi.
Mafalda adormeceu agarrada ao meu dedo, e eu deixei-me estar ali, no escuro, ouvindo-lhe a respiração a pensar em tudo o que se pode perder se nunca pararmos para olhar à nossa volta.
E Mafalda dormia, a sorrir, sabendo agora que o pai já não ia embora.
Às vezes, a vida dá-nos desafios duros para nos acordar para o que realmente importa. Hoje sei que se pode mudar, mesmo tarde, quando se percebe o valor do que podemos perder. Nunca é tarde para ser o pai de verdade que a minha filha merece.







