— Outra vez a mesma cena! Ó Maxim, tira o cão daí! Com irritação, Ana olhava para o Teo, aos pulos…

Outra vez a lamber-se! Vasco, tira-o daqui!
Dulce olhava com aborrecimento para o Gaspar, que saltitava de modo absurdo aos seus pés. Como é que tinham ido parar a um pateta destes? Tanto tempo a pensar, a discutir raças, a ouvir conselhos de treinadores de cães. Sabiam bem o peso da responsabilidade. No fim, decidiram-se por um Pastor Alemão queriam um amigo fiel, guarda e protetor, tudo num só, como um detergente três em um. Só que agora, quem precisava de ser protegido era ele das gatas do bairro…

Ainda é tão novo. Espera, vais ver quando crescer, disse Vasco.

Pois, mal posso esperar que este cavalo cresça. Já reparaste que come mais do que nós dois juntos? Como é que lhe vamos arranjar comida? E pára de arrastar os pés, és mesmo desajeitado vais acordar a menina! resmungava Dulce, enquanto apanhava os sapatos espalhados pelo Gaspar.

Viviam na Avenida da Liberdade, rés-do-chão de um prédio antigo, com janelas baixas quase enterradas no empedrado. O lugar era ótimo, não fosse por um pormenor: as janelas davam para um canto esquecido do pátio, onde à noite dançavam sombras, homens fumavam e às vezes havia zaragatas.

Durante o dia, Dulce ficava sozinha em casa, com a recém-nascida Margarida. Vasco saía cedo para o Museu Nacional de Arte Antiga e gastava o resto do tempo livre a vaguear em feiras da ladra e alfarrabistas. O olhar treinado do historiador de arte olho de lince, dizia Dulce a rir era capaz de encontrar, no meio do entulho, verdadeiros tesouros: quadros, livros raros, pratos de porcelana da Vista Alegre, pequenas esculturas e talheres de prata antigos. Aos poucos, a casa enchia-se duma coleção cada vez maior… E Dulce não se sentia segura, sozinha com tanta riqueza e a filha pequena não era raro ouvir histórias de assaltos pelo prédio.

Então, Dulce, o que achas: passeio o Gaspar agora ou depois do almoço?
Não sei e olha que isso não é problema meu, é dele!

Assim que ouviu a palavra passear, o Gaspar disparou pelo corredor fora, tão rápido que quase resvalou na curva, pegou na trela e, aos saltos, voltou, como se fosse uma festa. Um cavalo, não um cão! Ele gostava de toda a gente, cumprimentava todos, trazia a bola a qualquer um mas com estranhos, nada feito. O mais aberto dos cães, coração na boca, mas a razão de o terem escolhido era proteção! E ele, nem atrás das gatas corria Ia com a bola, a sonhar com uma brincadeira. Já apanhou com uma ou outra patada aqui, as gatas do bairro é que faziam valer respeito!

Amanhã, outra vez sozinha. Vasco ia a Sintra ao festival de pintura, e ela, ficava a guardar porcelana e passear o orelhudo. Não lhe faltava era trabalho…

Pela manhã, Vasco levantou-se sem querer acordar Dulce. Mas Dulce ouviu o apito do fervedor, o tinir da trela, o sussurrar de Vasco ao Gaspar, para não ladrar nem bater as patas. Aqueles sons pacatos embalaram-na outra vez. Quando despertou, já Vasco tinha saído, e o dia começou como sempre tranquilo, normal. Não é felicidade isto? As amigas suspiravam: Ai Dulce, casa-te cedo, depois ficas presa à casa, à filha… Mas Dulce via encanto no dia-a-dia, mesmo quando não era o que tinha sonhado: o marido ausente, a falta de espaço, o dinheiro que escorria no fogo da paixão colecionista de Vasco… Agora ainda trazera aquele amigo orelhudo, e era ela quem se ocupava. Mas Dulce já sabia: ama-se quem se ama, com qualidades e defeitos. Nunca prometeram perfeição.

Sentada no quarto, amamentava Margarida, que adormecia a meio e a obrigava a esperar até acordar e querer mais. Ouvem-se campainhas na porta, mas Dulce não abre não espera visitas, em Lisboa ninguém atravessa a cidade sem avisar. As preciosas manhãs tranquilas, que ela tanto apreciava! Só o tique-taque do velho relógio no corredor, o rumor de elétricos e carros lá fora, crianças a brincar, vassouras no empedrado. E o Gaspar? Já não aparece há algum tempo. Claro, de orelhas, Gaspar só tem a fama, bem alinhadas as suas, mas que cabeça tonta! Agora é cuidar dele, passear, alimentar e de utilidade, nada. Antes tivesse ficado com um caniche.

De repente, Dulce enterneceu-se ao ver a filha, saciada e bocejando. Que menina linda, pensou, a ajeitá-la no berço: alegria da mãe! O que poderia faltar?

Nesse instante, ecoou da sala um ruído estranho: um estalo, um rangido. Dulce ficou imóvel, escutando. O estalo repetiu-se. Sem respirar, tirou os chinelos e deslizou, pé ante pé, até à sala. O que logo lhe chamou a atenção foi o Gaspar, meio escondido atrás da cortina, separando entrada e sala. O corpo tenso, abaixado, língua de fora, os olhos cravados na janela. Dulce seguiu-lhe o olhar e arrepiou-se: na janela, ou melhor, na fresta da janela, surgia meio-homem! Cabeça rapada de criminoso, ombros e braços já dentro da sala; o homem, suado, empurrava o corpo magro pela abertura. Era verdade aquilo? O que fazer? Gritar? O tipo já estava quase todo dentro!

Tudo aconteceu rápido. Um grito gelou o ar. Uma sombra negra atirou-se à janela era o Gaspar. Saltou para o parapeito e abocanhou o pescoço do ladrão! Aiiiii! berrou o homem, olhos arregalados de terror. Dulce saiu para o corredor, chamou os vizinhos. Depois disso, foi menos assustador logo apareceu gente, chamaram a polícia. Toda a vizinhança quis ajudar, só a presença já era um socorro fundamental.

Dulce aproximou-se do ladrão, dominando o pânico não fosse o Gaspar exagerar, isso agora não faltava! Mas não: o Gaspar prendeu o ladrão pela gola, firme mas cauteloso, sem sequer talhar sangue. Só quando o meliante se mexia, Gaspar apertava mais, e quando este parava, o cão aliviava a pressão. Parecia um polícia de verdade! Em vez de ladrar ou atacar logo, preferiu vigiar de emboscada, deixar o homem ficar entalado e aí, atacar só o suficiente para segurar, sem magoar. Como quem diz: o nosso é só deter, depois é com os tribunais.

Os polícias, experientes, nunca tinham visto um ladrão tão agradecido por ser preso. O homem apavorado entre os dentes do Gaspar só queria render-se, e o cão fazia questão de manter o seu troféu. Só à chegada do agente-cinotécnico é que, com uma ordem, o Gaspar largou! Sentou-se junto à janela, atento, pronto a obedecer só lhe faltou bater continência.

Têm sorte com este cão disse o agente, passando a mão pelo Gaspar, um assim fazia jeito na esquadra…

Vasco chegou já tarde. Entrou de mansinho e ficou parado de espanto. Havia razões: o Gaspar deitado no sofá (impraticável, proibido!), aberto ao comprido, numa pose desavergonhada. Dulce fazia-lhe festas, coçava-lhe a barriga, falava-lhe baixinho: Meu doce, meu franguinho, meu potrinho! Cresce, para alegria do papá e da mamã! Como fui injusta contigo, não me leves a mal…

Esta história foi-me contada num dos Festivais de Sintra pelo próprio historiador de arte. Gaspar, se falasse, contaria melhor: como espreitou, como agarrou, como entregou o bandido aos agentes. Já passou muito tempo. Mas ficou-me esta memória sinto Gaspar a raspar-me na imaginação, pedindo para ser história. E pronto, partilhei convoscoE assim, desde aquela manhã, Gaspar passou a ser o orgulho da casa e do bairro. Não havia vizinho que não lhe desse festas ou trouxesse um biscoito às escondidas. As crianças vinham pedir-lhe histórias, a Margarida ria ao vê-lo correr pelos tapetes, e Dulce ah, Dulce já não via nele um cavalo desastrado, mas o verdadeiro guardião que sonhara. Vasco, a contar o feito, multiplicava feitos do cão, que a cada dia parecia criar novas proezas, até as gatas do pátio lhe prestarem uma respeitosa vénia.

E à noite, quando Lisboa acendia luzes e a Avenida cobrava silêncio, Dulce encostava-se à janela, Gaspar a seus pés, e sentia que, entre porcelanas raras, livros e memórias por catalogar, nada no mundo lhe parecia mais valioso do que aquela estranha e terna família construída por acasos, mas segura, agora, até nos sonhos.

Porque há guarda mais fiel do que a alegria partilhada entre um cão e quem se atreve a confiar?

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— Outra vez a mesma cena! Ó Maxim, tira o cão daí! Com irritação, Ana olhava para o Teo, aos pulos…