Sou casada com um homem cujos pais nunca engoliram a ideia de que o filho já está divorciado. E já lá vão mais de quatro anos, mas parece que para eles foi ontem. Vivem numa saga diária em busca de reconciliação. Eu e ele casámo-nos há três anos e levamos uma vida tranquila, feliz, sem grandes dramas. Mas a minha sogra acha que o filho tomou uma decisão precipitada, inconsequente, quase um drama de novela da TVI. Para ela, é missão de vida reconstruir aquela antiga família com a ex-noraafinal, o neto ainda lá está e uma avó portuguesa não desiste assim tão fácil.
Quando conheci o António, ele já era um homem livre de papel passado. O divórcio, ao que consta, foi decidido a bem, num típico acordo civilizado à moda portuguesa, com café e pastéis de nata no final. E ela já se tinha casado outra vezbem-disposta da vida, sabe-se lá porquê. Entre nós, provavelmente havia outro amigo colorido antes do divórcio.
Se me perguntam se foi um erro casar, não sei! Na verdade, fui um bocado empurrada pela minha mãe, a Dona Lurdes. Ela quase que fez uma petição para eu juntar os trapinhos. E havia aquela urgênciazinha: a ex já estava grávida do António quando casaram. Ele próprio me contou: Sinceramente, nem estava apaixonado. Saía com ela, era só isso. Mas como engravidou olha, casei-me. Palavras do António.
Confesso, nunca tive medo da ex dele. Decidi apenas observar com atenção e logo vi que ele já não sentia nada pela família antigaum verdadeiro fado acabado. Nem a ex ligava a ele; cada um na sua, só trocavam mensagens para combinar coisas do filho. A relação deles era tão emocionante quanto ver a relva crescer.
Mas a sogra, a Dona Glória, essa não conseguia viver com aquilo. E o sogro, o Sr. Aníbal, também não. Faziam planos dignos de artista circense para juntar aquela família outra vez, e a mim olhavam sempre de lado, tipo vilã de novela. Vocês são novos, menina, têm a vida toda pela frente. Para quê meter-se nos assuntos dos outros?, insistiu ela uma vez, apanhando-me sozinha.
Respondi educadamente: Se o António ainda fosse casado, eu nunca me metia! Mas ele está sozinho. Ela ensaiou um discurso, mas o António chegou e ela calou-se. Ali percebi logo que nunca seríamos propriamente companheiras de brunchs. Por acaso, nem me ralei muito.
Após o casamento, deixei logo de falar com a sogra. Só em almoços de família, quando era impossível escapar. A Dona Glória passava horas a lamentar o fim do casamento do filho, enquanto o António se revirava na cadeira e tentava mudar de assunto. Mas voltávamos sempre ao mesmoa queda da família perfeita.
Filhos, para já, não temos. Confesso que ainda não me sinto no papel de mãe portuguesa. E António já tem um filho, o que deixa a sogra com esperança. Desde o divórcio, a Dona Glória virou fã da ex-nora: convida-a para a ceia de Natal, suspira de saudade, elogia-lhe até o arroz de pato. Se ao menos pudesse dar-lhe o Globo de Ouro da nora perfeita…
Curiosamente, a tal ex não quer nada disto. Vai só à festa, come rabanadas e segue a vida. De apática que é, quase nos esquecemos que está ali.
E, para apimentar as coisas, a minha sogra tenta fazer o António ter ciúmes da ex e a mim dele. Telefona-me: Sabes onde anda o António? Se não sei, logo suspeita que ele está com a ex. Ou então arranja formas de inventar compromissos para obrigá-lo a ir lá. Isto dava uma série cómica.
Eu cá não tenho ponta de ciúme, mas tudo isto começa a cansar-me. Quem vê o António e a ex percebenão há ali nada e nunca haverá. Só convivem por causa do filho, como pessoas civicamente civilizadas. Ele dá-lhe a pensão alimentícia (em euros, claro), vê o filho, convida-o para jantar. A ex não faz dramas, não pede dinheiro extra, não dificulta visitas. Até parece milagre.
Mas a Dona Glória não desiste. Está sempre a tramar uma reviravolta familiar que só existe na cabeça dela. Será que isto algum dia acaba? O António acredita que sim, que quando eu lhe der um neto, ela acalma. Mas eu cá duvido muito Se calhar isto faz mesmo parte do pacote família portuguesa!







