Olha, vou-te contar o que aconteceu cá em casa há dias. A família do Norte decidiu vir fazer-nos uma visita. Já tinham avisado, claro, e eu deixei logo tudo em pratos limpos: expliquei que a nossa vida não anda fácil, que temos de contar os tostões.
Nada de exageros, não passamos fome, mas vivemos de forma simples. Eu estou reformada, o meu filho Leonardo também não ganha assim por aí além, por isso não andamos propriamente a convidar ninguém para ficar cá em casa. Mas pronto, apareceram todos contentes, trouxeram várias coisas comida e prendas não vieram de mãos a abanar.
O Leonardo agradeceu-lhes os presentes e guardámo-los logo num canto. Como tinha avisado, não havia grandes luxos à mesa. Ao almoço saiu aquilo que havia: pão com manteiga, uns bolinhos secos e chá bem quente. Notei logo umas caras torcidas deles, mas ficaram calados. Francamente, nem liguei, já sabiam ao que vinham e dei o que podia.
Ao jantar foi sopa leve, pão, queijo flamengo, umas sandes de fiambre, e mais chá. Nota-se bem que estavam à espera de algo mais especial, pois naquela mesa só se viam olhares de desilusão.
A certa altura, uma das primas começa a perguntar-me porque é que não servi as coisas que tinham trazido. Fiquei um bocado sem saber o que responder. Não percebo: se deram, deram para nós ou era para eles próprios? Se era para eles, podiam ter dito, punha-se no frigorífico e pronto.
Lá discutiram connosco largo tempo, e no dia seguinte fizeram as malas e foram-se embora. Olha, honestamente, não quero saber onde ficariam a dormir. Dispenso dramas em minha casa. Agora, ao menos sobrou-nos alguma coisa: umas bolachas, patê de fígado, suspiros, fruta sempre dá jeito. Logo à noite, eu e o Leonardo vamos fazer um chá forte e comer um doce daqueles. Ao menos, disso ninguém nos tira o gosto!







