Os meus colegas de turma gozavam comigo por ser filha do funcionário da escola – mas no baile de finalistas, seis palavras minhas fizeram-nos chorar

Os meus colegas de turma zombavam de mim por ser filha do funcionário de limpeza mas, no baile de finalistas, bastaram-me seis palavras para os fazer chorar.

Durante anos, fui a personagem das piadas deles. Tinha 18 anos e todos me chamavam de Catarina, mas isso importava pouco. O meu pai, Manuel, era o funcionário de limpeza do meu liceu em Aveiro. Limpava corredores, esvaziava caixotes, por vezes ficava até tarde depois de um jogo, arranjava o que outros estragavam sem nunca ouvir um obrigado. E era, acima de tudo, o meu pai.

No início do secundário, à porta do meu cacifo, ouvi o Vasco gritar lá do fundo do corredor:

Então, Catarina! Podes mandar lixo para o chão porque tens livre trânsito, é?

Riram-se todos. Eu também forcei um sorriso porque, se me risse, talvez doesse menos. Não demorou para deixar de ser Catarina. Passei a ser a filha do Zé do Balde.

Rainha do esfregão.
Miúda da vassoura.
Catarina Caixote.

As selfies com ele em farda de trabalho desapareceram do meu Instagram. Deixei de lado legendas com Orgulhosa do meu velho. Se o via pelos corredores da escola, abrandava o passo para aumentar a distância entre nós.

Estás bem, miúda? perguntava ele.

E eu odiava viver assim.

Ele nunca reagia. Os colegas empurravam-no, derrubavam os seus avisos de Piso molhado, atiravam frases como Ó Manuel, faltou-te aqui uma mancha!. Ele sorria, recolhia o aviso e seguia.

Em casa, quando me olhava na mesa da cozinha, fingia que a escola era só mais um dia. A minha mãe morreu quando eu tinha nove anos. Depois disso, o meu pai agarrava-se a turnos extra: noites, fins-de-semana, tudo para continuar a pagar tudo e a manter a cabeça fora-de-água.

Via-o muitas vezes, a meio da noite, sentado na cozinha com a sua velha calculadora portuguesa e uma pilha de contas. O baile de finalistas aproximava-se e a loucura eufórica crescia.

Vai dormir, Catarina dizia baixinho. Isto são só contas.

No 12.º ano já não gozavam tanto, mas era suficiente:

Não chateies a Catarina, ou o pai corta-te a água das casas de banho.

O baile era assunto de conversa constante: vestidos, limusinas, casas no Algarve para a noite seguinte.

Vais?

Não, o baile é uma treta respondia, fingindo que não me magoava.

A orientadora da escola, Dona Teresa, chamou-me ao gabinete.

O teu pai tem estado cá até tarde todos os dias.

Sentei-me, pronta para mais uma conversa sobre o teu futuro.

Fez uma pausa.

Andou a ajudar nas decorações do baile: pendurou luzes, colou serpentinas, aquele tipo de coisas.

Mas isso não faz parte do seu turno? perguntei.

Só uma parte. Muitas horas, ele faz voluntariamente. Disse-me que é pelos miúdos.

Senti um nó no peito.

Nessa noite, encontrei-o como sempre, calculadora, bloco de notas, contas.

O que estás a fazer, pai?

Ele escondeu o caderno, embaraçado.

Nada Só a ver se consigo pagar-te um vestido, se quiseres ir ao baile. Não é obrigatório!

Puxei-lhe o caderno e vi:

Renda
Supermercado
Luz
Gás
Baile da Catarina?
Vestido Catarina?

Pai a minha voz saiu trémula.

Eu arranjo, filha. Faço mais umas horas, não te preocupes.

Pai eu vou.

Ele ficou parado.

Vais mesmo ao baile?

Vou, sim.

Ele sorriu devagarinho.

Então vamos dar-te uma noite memorável.

Fomos a uma loja de roupa em segunda mão, dois concelhos à frente. Encontrei um vestido azul escuro, simples, mas elegante.

Saí do provador, dei uma volta desajeitada.

E então?

Ele engoliu em seco.

Estás igual à tua mãe murmurou.

As lágrimas ameaçaram.

Levamos este disse ao balcão, antes que eu conseguisse hesitar.

Na noite do baile, ele bateu à minha porta.

Pronta, Catarina?

Envergava o único fato preto que tinha, gasto nos ombros.

Sim, vamos, pai.

Abriu a porta e deteve-se.

Estás linda.

Dizias-me isso até se eu viesse de saco do Pingo Doce.

Dizia. Mas o vestido ajuda.

Fomos no seu velho Renault Clio, nada de limusinas ou músicas a passar alto.

Vais trabalhar também hoje? perguntei.

Tenho de dar uma mão à escola, sou invisível.

A barriga deu-me voltas.

Chegámos ao liceu. Os colegas desciam de jipes reluzentes, as raparigas brilhavam em vestidos de lantejoulas.

Mal saí, ouvi.

Olha, lá vai a filha do funcionário.

Ela veio mesmo?

E vi-o, junto à entrada do ginásio, saco de lixo preto e vassoura na mão, o fato já com umas luvas azuis.

Um grupo passou.

Que vergonha, porque é que ele está aqui? murmurou uma rapariga.

Ele cruzou o meu olhar e sorriu com um daqueles sorrisos envergonhados: Estou cá, mas desapareço já.

Desta vez, não queria que ele desaparecesse.

Fui até ao DJ.

Dá para dizer umas palavras? Pode baixar a música?

O DJ olhou incrédulo, mas passou-me o microfone.

As mãos tremiam-me.

Boa noite a todos.

O ginásio virou a cara para mim, curioso.

Eu sou a Catarina. Para muitos, a filha do funcionário.

Olhei para a porta.

Aquele homem ali é o meu pai.

Seis palavras:

Ele esteve cá todas as noites esta semana.

Todos olharam naquela direção.

Esteve a preparar-vos isto. Sem receber nada.

A sala silenciou.

Ele limpa depois dos jogos, apanha o que partem, destapa as casas de banho que entopem. Quando a minha mãe morreu, trabalhou em dobro, para eu continuar aqui, com todos vós. Nunca precisei de nada.

Olhei-os.

Gozam, fazem piadas, chamam-lhe o do esfregão. Como se o trabalho dele fosse menor. Olhem para este ginásio: as luzes para as vossas selfies, o chão onde vão derramar o vosso sumo. Pensam que aparece feito por magia?

A voz tremia-me.

Tive vergonha, deixei de publicar fotos com ele. Fingiam não me ver. Deixei que me fizessem sentir pequena.

Respirei fundo.

Chega. Tenho orgulho do meu pai.

Um silêncio imenso desceu. Então o Luís, o tal das piadas das casas de banho, levantou-se.

Passou por mim, até à porta.

Fui um parvo. Desculpa, Catarina, desculpa, senhor Manuel.

A sala mexeu-se.

Também gozei, foi injusto disse uma rapariga, a voz embargada.

Mais vozes:

Eu também peço desculpa.

O meu pai tapou o rosto, riu-se nesse meio-choro nervoso.

A diretora chegou-se ao pé dele.

Manuel, sente-se. Hoje, descansa.

Ainda tenho o lixo

Hoje não.

A orientadora apanhou-lhe a vassoura.

Nós por aqui, senhor Manuel. Está em boas mãos.

Começaram a bater palmas. Não aquelas de cortesia, mas um aplauso quente, verdadeiro.

Fui ter com ele.

Olá, pai.

Olá, filha.

Tenho mesmo orgulho de ti, sabias?

Ele abanou a cabeça.

Não devias ter feito isso, Catarina.

Quis. Era preciso.

Não dançámos uma balada, mas ficámos juntos, de canto, a ver o baile.
Colegas vinham ter.

Obrigado por tudo, senhor Manuel. O ginásio está brilhante.

Desculpe pelas brincadeiras.

Ele só respondia: É o meu trabalho, De nada, Está tudo bem.

De vez em quando olhava para mim, numa troca secreta entre nós.

Sim, pai. Isto é real.

Mais tarde, entre músicas pirosas e perfume barato, saímos.

Noite de brisa fria e calada.

A meio caminho para o Clio, ele travou.

A tua mãe teria adorado isto.

Senti as lágrimas.

Desculpa

Porquê?

Por já ter tido vergonha Por fingir que o teu trabalho era motivo para me esconder.

Ele encostou-se ao carro, sorriu sem jeito.

Não quero que tenhas orgulho no meu trabalho. Quero que tenhas orgulho em ti.

No dia seguinte: telemóvel vibrava sem parar.

Mensagens, chamadas, pedidos de desculpa, gente a dizer que estavam errados.

Alguém pôs uma foto que tiraram do meu pai ainda com o saco do lixo: O verdadeiro campeão.

Olhei para ele, já de pólo azul, preparando o café numa caneca lascada.

Aproximei-me, abracei-o.

O que foi, Catarina?

Nada. É só acho que agora o meu pai é famoso.

Ele troçou:

Pois. Mas continuo a ser o único chamado se alguém vomitar no corredor.

Rimo-nos os dois.

Alguém tem de o fazer disse.

Ele deu-me uma palmada no ombro.

Sorte a deles eu ser teimoso.

Desta vez, fui eu quem ficou com a última palavra.

Todos riram durante anos.

Mas naquela noite, com o microfone a tremelicar-me nas mãos e o meu pai à porta do ginásio, percebi finalmente:

A última palavra era minha.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Os meus colegas de turma gozavam comigo por ser filha do funcionário da escola – mas no baile de finalistas, seis palavras minhas fizeram-nos chorar