Porque será que o telefone está tão silencioso esta noite? Achas que há problemas na rede? Ou talvez tenham trocado os dias? Não é possível que simplesmente se tenham esquecido de mim, António, afinal hoje faço quarenta anos, uma data assim não passa despercebida Mafalda girava o cálice de vinho nas mãos, olhando para o ecrã negro do telemóvel pousado sobre a toalha branca imaculada.
António, o marido, pousou o olhar na travessa de pato assado. Mastigava devagar, atrasando uma resposta que já não queria dar. Velas acesas iluminavam a sala, e a música suave envolvia tudo com cheiros de pinheiro e laranja o aniversário de Mafalda era em dezembro, mesmo à boca do Natal. A mesa pleníssima de petiscos, feitos com o esmero de dois dias, na esperança de que, como sempre, os familiares do António viessem ou pelo menos ligassem.
Mafalda, já conheces a mãe murmurou António, largando o garfo. Aquela tensão dela, de certeza. Ou ficou presa na horta lá no Ribatejo quer dizer, nas couves. Bem, não há couves de sementeira no inverno Pronto, esqueceu-se, já está noutra idade. E a Rita bom, a Rita anda sempre cheia de trabalho, está no fecho de contas.
O fecho de contas da Rita dura o ano todo quando se trata de mim, sorriu amargurada Mafalda. Mas quando precisa de quem lhe fique com os miúdos ou emprestar uns euros até ao fim do mês, é curioso como encontra sempre tempo para me ligar.
Pôs-se de pé e aproximou-se da janela. Do lado de fora, grossos flocos de neve caíam sobre Lisboa. Quarenta anos. O tal Rubicão. Altura de balanço da vida. E o saldo daquela noite era penoso: quinze anos a servir aquela família como um pau para toda a obra cozinheira de borla, condutora, psicóloga e no fim, esqueceram-se dela como se não existisse.
Não te aborreças, António tentou abraçá-la por trás, com delicadeza. O importante é que estamos juntos. E eu não esqueci, olha o presente aquele voucher para o spa, lembras-te que querias?
Sim, era um bom presente, e António amava-a. Mas António sempre fora mole, incapaz de enfrentar a mãe, dona Filomena, e a irmã Rita, com o seu descaramento. Preferia enfiar a cabeça na areia, à espera que as tempestades resolvessem por si.
Não estou aborrecida, António, disse Mafalda, a voz baixa, olhando o seu reflexo no vidro escuro. Estou a tirar conclusões.
Já há muito devia ter tirado essas contas. Mafalda recordava quando, um ano antes, organizou os sessenta e cinco anos de dona Filomena: tirou férias sem vencimento, reservou restaurante, negociou descontos, coordenou o menu, preparou um enorme bolo de dois andares para poupar orçamento à sogra e ficou noites a montar um vídeo emocionante com fotos antigas.
Recebeu um obrigadinha, era só ter posto mais creme, e um gel de banho baratíssimo, ainda com a etiqueta da promoção de supermercado.
Rita? Sempre de favor tomado por certo. Mafa, busca os miúdos ao colégio, fiz marcação para as unhas e não chego, Mafa, ajuda-me com o relatório, tu és esperta, Mafa, empresta lá aquele vestido para a festa. E Mafalda dava, ia, ajudava. Cria que era assim que funcionava a família, e que o bem regresaria a dobrar.
O telefone nunca tocou. Nem naquela noite, nem durante o dia seguinte. Nem frases feitas em mensagens, nem sequer um buquê virtual, como tanto gostavam de mandar nos grupos da família na Páscoa ou no Natal.
A semana arrastou-se num silêncio pesado. Mafalda esperou. Queria ver quanto demoravam a lembrar-se dela. Lembraram-se, passados sete dias certinhos.
No visor surgiu Rita.
Olá aniversariante! alegre, a voz da cunhada soou quase estridente, sem vergonha nenhuma. Olha lá, socorre-me! Queremos ir até ao Porto no fim de semana, relaxar um bocado. Podes ficar com o Max? Ele já te conhece, não vai estranhar. É que o hotel dos cães pede uma fortuna, nem imaginas.
Mafalda ficou imóvel, telefone na mão, a meio de amassar pão para o jantar.
Olá Rita, disse devagar. Não tens nada para me dizer quanto à semana passada?
O que foi na semana passada? Rita sinceramente intrigada. Ah, o teu aniversário! Epá, desculpa Completamente enrolada, esqueci. Tu não levas a mal, pois não? Somos família. Parabéns atrasados! Muitas felicidades e tudo o resto. Então, podes ficar com o Max, sim? Levamos já na sexta?
Max era um enorme labrador estouvado, que da última vez comeu-lhe uns sapatos novos e destruiu o papel de parede do corredor.
Não, respondeu Mafalda.
Não o quê? Rita não percebeu.
Não fico com o Max.
O silêncio do outro lado era afiado.
Como assim não ficas? Rita estava já em outra afinação. Mafa, estás a gozar? Agora temos de cancelar a viagem? Já pagámos o hotel! Sempre ficaste!
Sempre fiquei, mas agora não fico. Tenho planos. O hotel de cães funciona 24h.
Mas estás, o quê, chateada por causa das felicitações? a voz de Rita já escorria veneno. Por amor de Deus, criança pequena! Quarenta anos e amuas por uma mensagem! Não esperava tanta mesquinhez de ti, Mafalda. Vou ligar à mãe, contar-lhe tudo.
Liga, respondeu ela, serena, desligando.
As mãos tremiam-lhe, mas sentiu por dentro um alívio desconhecido. Era a primeira vez que dizia não. E o mundo não se desmoronou. A massa repousava sossegada na tigela, crescendo debaixo do pano.
À noite, António chegou a casa, amuado. Já devia ter apanhado o sermão materno e a choradeira da irmã.
Mafalda, a mãe ligou Diz que a Rita está de rastos, a viagem foi por água abaixo. Não ficamos mesmo com o cão? Custa assim tanto?
Mafalda olhou-o fixamente.
António, eles esqueceram o meu aniversário. Não um qualquer, o dos quarenta. E nem sequer se desculparam. A Rita só ligou porque precisava de alguém que tomasse conta do cão, de graça. Não te parece que isto é um jogo só de um lado?
Parece, suspirou António. Mas são família
Precisamente. E família respeita-se. Não sou criada de ninguém. Acabou-se a Mafalda disponível para tudo, António. Daqui para a frente, as coisas mudam.
António nada disse, e não ficaram com o Max. Rita teve de gastar dinheiro no hotel de cães. Seguinte: duas semanas em que ninguém lhe falou. Falavam mal de Mafalda nas costas, chamavam-lhe vingativa e histérica.
Veio o grande evento do clã: os setenta da Filomena.
A sogra, senhora de mão de ferro e alma de anfitriã, quis chamar todos para a casa de campo, uma moradia enorme em Sintra, construída por António ao longo de cinco anos.
O guião era sempre o mesmo: duas semanas antes, telefonema da Filomena com o menu e lista de compras. Mafalda, por ter carro e queda para a cozinha, ia às compras, transportava tudo e passava horas de volta dos tachos, enquanto a sogra e Rita faziam-se belas para os convidados.
O telefonema veio em meados de janeiro.
Mafalda, querida! Tudo bem contigo? Não adoeceram aí em casa? Olha, temos que levantar mãos à obra para os meus setenta. Tenho aqui uma lista: três latas de ovas, daquelas boas, salmão para paté, carne para vinte pessoas, maionese do bom Toma nota!
Mafalda mexia o café e ouvia. Não escreveu nada.
Filomena, interrompeu a voz mansa. Desculpe-me, mas quem vai confecionar tudo isso?
Quem? Nós. Ou melhor, tu, que tens mão para a cozinha; eu supervisiono, não posso estar muito tempo de pé, as varizes sabes. A Rita ajuda a pôr a mesa, é o costume.
Filomena, temo não poder. Tenho compromissos nesse fim-de-semana. Irei como convidada, à hora combinada.
Silêncio, denso, no outro lado.
Compromissos? Que pode ser mais importante que o aniversário da mãe do teu marido? Estás-te a passar, Mafalda? Quem vai tratar da comida? Eu, velha e doente? Ou a Rita, que pode estragar as unhas?
Sempre podem contratar um catering, ou pedir a um restaurante. Hoje em dia tudo chega a casa, pronto a servir, e nem é preciso lavar loiça.
Restaurante? Bonne idée! Já viste o preço? E caseiro é sempre melhor. Pronto, Mafalda, chega desta mania! Considera-te castigada por causa do Max, já te ignorámos, mas agora é diferente, é festa da família! Espero-te sexta-feira à noite com as compras. Vou enviar-te o resto por WhatsApp, já que andas tão ocupada!
Desligou.
Nessa noite, António chegou claramente aflito.
A mãe está furiosa. Mandou a lista de compras, vinte mil euros, e quer que lá estejamos sexta para preparar tudo Que faço?
Vai tu, respondeu Mafalda, folheando uma revista. Compra tudo se quiseres, mas eu não aparecerei antes da hora da festa. E não vou cozinhar. Avisei a tua mãe.
Vai ser uma catástrofe, Mafalda! Chegam os convidados e não há comida? Ela nunca me vai perdoar.
António, lembra-te do meu aniversário. Lembras-te da mesa vazia? Mas comida não faltou. Faltaram pessoas. Faltei-vos eu. Portanto, faço igual. Vou à festa, dou os parabéns, e não mais serei criada. Se quer banquete, que contrate cozinheira ou peça à filha.
António rodou pela casa ao telefone. Acabou por comprar tudo, mas cozinhar é que não soube. Rita disse logo: eu não, estrago as mãos a descascar batatas.
Chegou o sábado, dia dos anos.
Mafalda levantou-se tarde, tomou banho de imersão, fez máscara facial. Vestiu o vestido azul-escuro, aquele que realçava a sua silhueta, e penteou-se com esmero. Estava magnífica.
António foi cedo para a casa de campo, em desespero para organizar alguma coisa. Ligou-lhe cinco vezes: Mafalda, vem mais cedo, é o caos, a mãe grita, a carne não está pronta, ninguém cortou saladas!
Chego às duas, como diz o convite, afirmava ela, desligando.
Mandou vir um táxi de luxo. Passou na florista e comprou um ramo simples de crisântemos, não a braçada de rosas de outros tempos. Comprou um presente discreto.
Ao chegar à moradia, já havia carros por todo o lado. Da casa ouvia-se o tilintar de tachos e discussões não música.
Assim que entrou, a visão era dantesca. Filomena, de avental e rolos na cabeça, ruborizada de raiva na cozinha; Rita, de vestido mas de cara fechada e avental, tentava abrir um frasco de pickles com risco para o gel das unhas; António, coberto de fuligem, titubeava com as brasas do churrasco lá fora.
Os convidados, tias e tios, sentados à volta de uma mesa posta mas sem nada, só pratos e garrafas de água. Silêncio.
Ora aqui está ela! bradou Filomena, ao vê-la. Uma princesa! Vestida para o baile enquanto nós aqui, a afogar-nos! Não tens vergonha, Mafalda?
Boa tarde, dona Filomena! sorriu Mafalda, apresentando o ramo e uma caixinha. Felicidades, muitos anos de vida!
Isso é o quê? Filomena agarrou o presente, ignorando as flores. Vai já para a cozinha! Precisamos de ti para a salada e para a carne! Os convidados esperam!
Dona Filomena, sou convidada, declarou alto Mafalda. Avisei há duas semanas que vinha para a festa, não para trabalhar. Fico com os convidados.
Filomena bufou. Rita largou os pickles, um ar ofendido.
A sério, Mafalda? Estou aqui a arruinar o verniz por tua causa! Vai ajudar, imediatamente!
Rita, é a festa da tua mãe. Parece apropriado que a ajudes. Eu sou apenas a nora. E, como dizes quando se fala de heranças ou decisões importantes, sou uma estranha. Portanto, assumo o papel de convidada, como sempre quiseram.
Mafalda sentou-se na mesa com os convidados, sorrindo.
Olá a todos. O dia está bonito, não acham? Pena não haver comida, mas acredito que a aniversariante arranjará uma surpresa.
Nesta altura, António entrou, cheiro intenso de fumo.
O churrasco queimou-se, anunciou, exausto. Distraí-me com o telefonema da Rita, ficou tudo preto
A sala ficou suspensa. Mais de vinte pessoas famintas fitavam os anfitriões. Filomena desabou numa cadeira, mão ao peito, desta vez sem teatro sentiu o fracasso.
Foi ela! berrou para Mafalda. Sabotaste tudo, fizeste de propósito para me envergonhar! Serpente, ingrata!
Dona Filomena, cortou Mafalda, de novo de pé. Não envergonhei ninguém. Apenas fui espelho. Ignoraram o meu aniversário, desprezaram-me, usaram-me como robot de cozinha. Decidi lembrar-vos de que sou humana, também tenho direito a dias importantes. Olhe o presente, se faz favor.
Com mãos tremulas, Filomena rasgou o embrulho: era um calendário mural, simples, com gatos.
O que é isto?
Um calendário, claro. Marquei todos os aniversários da família a vermelho. O meu também. Assim não há esquecimentos. A memória é traiçoeira. Retribuo o vosso gel de duche do supermercado com um calendário. Quid pro quo.
Risos abafados. O tio Jorge riu-se alto.
Ela tem razão, Filomena! Passas a vida a gabar a nora, mas esqueceste o aniversário dela? Não fica bonito.
Cala essa boca! disparou Filomena.
A festa ficou arruinada. Só apareceram umas fatias de fiambre, umas latas e o tal pote de pickles para tapar buracos. Os convidados tristes, a beber vinhos baratos, cochichavam.
Após uma hora, Mafalda chamou um táxi.
Vou-me embora, António. Aqui sinto-me deslocada. Isto não é ambiente de festa.
Mafalda, mataste-me sussurrou António, levando-a à porta. A mãe nunca me irá perdoar.
Agora sabes o valor do meu trabalho, António. Só dão por ele quando acabam por perder tudo. Passa em casa mais tarde. Encomendo uma pizza decente, daquelas que gostamos.
Saiu.
Durante semanas o clã ficou em ebulição. Filomena, humilhada perante a família, descarregava o rancor na nora. Rita berrava que Mafalda era egoísta.
Mas algo mudou em António. Pela primeira vez desperto, viu a mãe não como matriarca indomável, mas como mulher perdida sem o esforço dos outros. Percebeu a diferença entre o calor da casa de Mafalda e o caos em Sintra.
Um mês depois, entrou em casa com rosas, sem motivo, numa quarta-feira qualquer.
São para ti, disse, olhos nos olhos. E olha disse à mãe que não vamos à horta no 1º de Maio. Reservei um fim-de-semana só para nós no Algarve. Vamos descansar juntos.
Mafalda sorriu, cheirando as flores.
E a batata?
Compramos, respondeu António, firme. E o afeto da família não se compra com o nosso esforço. Tinhas razão. O respeito tem de ser mútuo.
Filomena e Rita continuaram de trombas. Mas, pelo Dia da Mulher, Mafalda recebeu mensagem da Rita: Feliz dia, Mafalda! Que a primavera te traga alegria! E um emoji de tulipa.
Uma pequena vitória. Mafalda nunca seria melhor amiga da cunhada, nem Filomena a amaria como filha, mas perceberam o essencial: ninguém mais montava nas costas de Mafalda. A loja estava fechada. E só se abre com a chave do respeito e da memória.
O calendário dos gatos, soube depois, ficou pendurado na cozinha da sogra, marcando o aniversário da Mafalda a vermelho vivo. Por precaução.
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