Olívia passou o dia inteiro a preparar-se para a passagem de ano: limpou a casa, cozinhou, pôs a mes…

A Margarida passou o dia inteiro a preparar-se para a passagem de ano: limpou a casa de cima a baixo, cozinhou e pôs a mesa com todo o carinho. Era o seu primeiro ano novo longe dos pais, ao lado do homem que achava amar.

Já fazia três meses que vivia com o António no apartamento dele. Ele era quinze anos mais velho, já tinha sido casado, pagava pensão de alimentos e, de vez em quando, gostava de beber mais do que devia… Mas tudo isso parecia pouco importante quando se gostava de alguém. Ninguém entendia o que ela tinha visto nele: estava longe de ser bonito, para dizer a verdade até era feio de doer, tinha um feitio tramado, era forreta como tudo e nunca tinha dinheiro. E se por acaso tinha, era só para ele próprio, para se mimar. E foi por este génio, como ela lhe chamava para si, que a Margarida se apaixonou.

Durante aqueles três meses, Margarida sempre acreditou que o António ia perceber o quanto ela era dedicada e prendada, e que, mais cedo ou mais tarde, ia querer casar com ela. Ele até lhe dizia: Temos de viver juntos primeiro, ver como te sais como dona de casa. Não quero repetir os mesmos erros do meu passado. Mas de como era a ex-mulher, ele nunca dizia nada de concreto, ficava sempre tudo no ar. Por isso, Margarida esforçava-se até não poder mais, mostrando sempre o seu melhor lado: não reclamava quando ele chegava bêbado, cozinhava, lavava, limpava, fazia compras com o seu próprio dinheiro (não fosse o caso de o António achar que ela era interesseira). Até a ceia de Ano Novo foi toda paga à conta dela. E ainda por cima comprou-lhe um telemóvel novo para lhe oferecer.

Enquanto Margarida se dedicava à festa, o seu querido António ocupava-se à sua maneira: foi para a tasca beber uns copos com os amigos. Chegou a casa já bem-disposto e logo anunciou que, para o Ano Novo, viriam amigos dele celebrar com eles amigos que a Margarida nem conhecia. A mesa estava posta, faltava uma hora para a meia-noite. O ambiente estragou-se logo, mas ela aguentou-se sem dizer nada não queria ser como a ex-mulher dele.

Meia hora antes da meia-noite, entra pelo apartamento uma turma de homens e mulheres já com uns copos a mais. O António animou-se logo, pôs todos à mesa e a festa virou regabofe. O António nem sequer se deu ao trabalho de apresentar a Margarida, e ninguém lhe dirigia palavra estavam todos ocupados a comer, a beber e a rir das suas piadas. Quando Margarida lembrou que faltavam dois minutos para o Ano Novo e sugeriu que servissem espumante, olharam para ela como se fosse uma intrusa.

E esta quem é? perguntou uma das mulheres, já enrolando a língua.

É a vizinha de cama respondeu o António, desatando a rir, seguido de todos os amigos.

Foram comendo a comida feita pela Margarida e, ainda por cima, gozavam com ela. À meia-noite faziam piadas sobre a ingenuidade dela, elogiavam o António por ter arranjado uma empregada grátis para cozinhar e limpar a casa, e o António, em vez de a defender, ria-se com eles. Enchia-se com aquela comida paga por Margarida e não perdia a oportunidade de a humilhar.

Silenciosamente, Margarida saiu do quarto, arrumou as suas coisas e foi para casa dos pais. Nunca tinha tido uma passagem de ano tão miserável. A mãe disse, como sempre: Eu bem te avisei, e o pai suspirou de alívio. Margarida, depois de desabafar toda a sua mágoa, percebeu finalmente em que enrascada se tinha metido.

Uma semana depois, quando o António ficou sem dinheiro, apareceu em casa de Margarida como se nada fosse:

Então, foste embora porquê? Estás chateada é? e vendo que ela não lhe abria a porta para reatar, começou a acusá-la: Bonita peça estás tu, em casa dos papás e eu aqui a passar fome! Estás a portar-te igual à minha ex!

Margarida ficou tão incrédula com a lata dele que nem conseguiu responder. Tantas vezes tinha imaginado o discurso perfeito para lhe dizer tudo o que pensava, mas agora só lhe saiu um: mandou-o dar uma volta e bateu-lhe com a porta na cara.

Assim, com a entrada do novo ano, Margarida abraçou uma nova vida.

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Olívia passou o dia inteiro a preparar-se para a passagem de ano: limpou a casa, cozinhou, pôs a mes…