OLHANDO O VAZIO
Diogo e Leonor casaram-se quando ambos tinham apenas 19 anos. Parecia-lhes impossível viver ou respirar um sem o outro, numa paixão desenfreada que pegou fogo aos corações. Os pais, desconfiados dos caminhos tortos do destino, apressaram-se a regularizar a situação, temerosos de algum escândalo fora de hora.
O casamento foi uma romaria: boneca no capô do carro, chuva de flores, fogo-de-artifício, salão de baile, versos intermináveis de “Óh beija, que é doce!”. No meio da confusão, os pais da Leonor não puderam ajudar com nem um euroos ordenados mal chegavam para a sopa e o garrafão de vinho tinto. Coube então à mãe do noivo, Alexandrina Alves, segurar as despesas todas. Por achar o próprio nome demasiado pomposo, pedia que a tratassem apenas por Xana Alves.
Xana Alves nunca gostou da ideia do filho andar com uma rapariga filha de quem gostava demais do copo. Mas quem segura um vento assim? Diogo jurava que Leonor não herdaria vícios, que o amor limpava tudo como o vento atlântico varre os telhados. Xana, preocupada, alertou:
Vê lá, filho… de um sobreiro não nascem laranjeiras. Bem podes amar, que amor às vezes é pó de pirilampo.
No início, Diogo e Leonor acreditavam ser donos do mundo inteiroalegria infinita, gargalhadas soltas, felicidade como pão fresco na manhã. Mas a vida, como sempre, contou-lhe outra história.
Como prenda de casamento, Xana e o marido deram-lhes um apartamento modesto num beco de Lisboa: Vão e sejam felizes, filhotes. No começo, havia paz, quase ventura. Leonor deu à luz duas meninas, Cecília e Beatriz. Diogo amava-as como um rei e sentia-se senhor do seu pequeno reino.
No entanto, nem cinco páginas de calendário passaram, e Leonor começou a desaparecer, ora à noite, ora de dia. O cheiro a aguardente denunciava-a. Diogo questionava, pedia explicações. Leonor calava-seaté que, num sopro, declarou que nunca amara Diogo de verdade, que tudo não passara de paixão acelerada dos verdes anos. Agora, sim, tinha encontrado o homem da sua vida. Iria viver com elenão importava ser já casado e pai de três.
O tempo virou nevoeiro na cabeça de Diogo. Sentia-se traído, perdido num inverno sem fim. Leonor fugiu com o amante para uma aldeia esquecida no Alentejo, dizendo Mais vale amor entre silvas que solidão em leito largo. As filhas, abandonadas, ficaram nas mãos do acaso.
Xana Alves, vivaça e zorra como só uma avó portuguesa sabe ser, acolheu as netas sem hesitar. Mimos, carinhos, e muitos bolos de arroz. Diogo, esmagado pelo abandono, deu por si enrolado numa seita religiosa, por conselho de um amigo. Casaram-no depressa com uma viúva de nome Clotilde, mãe de dois rapazes. Cedo também se benzeram segundo os estranhos costumes do grupo.
Aos poucos, Diogo foi perdendo o tempo todo para as novas obrigações. Sempre que falava das próprias filhas, Clotilde cortava:
Diogo, elas têm mãe. Que seja ela a cuidar. Leva antes o Tiaguinho à escola e vê se o João já jantou…
Diogo resignava-se. No fundo, nunca deixou de amar Leonor, mas sabia que por esse caminho só crescia mato.
Anos passaram.
Sete voltas deu o tempo quando, inesperadamente, Leonor tocou à campainha de Xana Alves. Pela mão, uma menina de cachos dourados e uns quatro anosMaria.
Xana não deixou passar:
Ai Leonor, o tempo não te poupou. Esta é filha tua?
Leonor, hesitante, respondeu:
É a Maria. Podíamos ficar cá uns dias?
Vejo que trouxeste surpresa. A vida correu-te mal?picou Xana.
Cansei-me, Xana. O homem agora só bate e bebe Fugi.
Foste tu que escolheste o destino, rapariga. Porque não voltaste antes aos teus pais? continuou a avó, já sem muita piedade.
Tenho saudades das minhas filhas. Deixem-me ao menos vê-las.
As netas entraram logo depois: Cecília e Beatriz já adolescentes, olharam a mãe sem reconhecer nada do passado. Não havia calor familiar, só uma mágoa azeda como limão. Xana suspirava, pesarosa por ver netas órfãs de pais vivos.
Mesmo assim, Xana acolheu Leonor e Maria tirar alguém à rua, nunca! Mas, um mês volvido, Leonor desapareceu de novo. Voltou para o amante na aldeia, deixando Maria para trás. Três netas nas mãos de Xana Alves e avô. O lar encheu-se de um carinho silencioso e uma solidariedade sem igual.
Os anos correram depressa.
Um dia, Xana partiu. O avô seguiu-a não muito depois, deixando as três meninas sozinhas.
Cecília casou, mas não conheceu filhos. Beatriz, de trança já grisalha, rendeu-se à solidão das mulheres que não encontram par. Maria, aos dezassete, teve uma criança de pais ignorados e partiu para a aldeia, para junto da mãe.
A juventude fugiu sem se despedir, a velhice chegou sem bater.
Leonor ficou sozinhaaté o companheiro lhe foi levado pelas filhas, doentes e zangadas, culpando-a de tudo e mais alguma coisa:
Olha, Leonor, cada um por si, não metas o nariz onde não és chamada!
Na aldeia falava-se dela como a desavergonhada, sempre amiga do copo. Numa terra pequena, os boatos ecoam altos, esquecendo-se paredes de ouvir. Tristeza era a fama que de si restava.
Diogo, desgastado pelo tempo, fugiu de casa de Clotilde e da seita. Ficou solitário, arranhando os dias no velho apartamento da mãe, sobrevivendo a pão duro e caldo de couve, dormindo numa cama fria, partilhando a vida com três gatos. Para não perder o juízo.
E pensar que a felicidade tinha tocado, em tempos, à porta de Diogo e LeonorNuma tarde de inverno, com o Tejo cinzento lá fora e a chuva a bater devagar na janela, Diogo sentou-se à mesa da cozinha e, por instinto de sobrevivente, preparou três canecas de chá. Pousou-as em fila como noutros tempos uma para si, outra para a mãe, outra para as netas. Silêncio, apenas quebrado pelo miar de um gato esfomeado e pelo chilrear discreto de pardais ao abrigo da tempestade.
Quando o apito do comboio ecoou, Diogo, sem saber porquê, sentiu um aperto. Foi até à janela, rasgou o nevoeiro com o olhar, à espera de um milagre: um aceno, uma reconciliação tardia, alguém a regressar da noite. Nada. Lisboa era uma manta de sombras e luzes trémulas, indiferente à dor dos que ficam.
Sentado na cozinha, de frente para as chávenas vazias, Diogo imaginou as filhas já mulheres, dispersas pelo mundo, Maria a caminhar pelos campos da infância, talvez a sorrir do outro lado das distâncias. Pensou em Xana Alves e no seu riso fácil, em todas as despedidas que nunca tiveram palavras certas. No fundo, desculpou Leonor, perdoou-a lá do íntimo, sabendo que o destino é como a maré: leva o que precisa, traz o que sobra.
Ergueu a caneca para o companheiro invisível do passado um brinde silencioso à sobrevivência. Sentiu uma paz estranha, como se a ausência já fosse companhia.
E ao olhar para o vazio à sua frente, finalmente soube: a vida não lhe devia explicações. Tudo estava onde devia estar, mesmo que as peças nunca se encaixassem. No fundo, ninguém é dono de ninguém. O amor, afinal, era só a coragem de ficar à espera, de perdoar, de continuar mesmo quando só restam chávenas por encher e memórias a aquecer o frio.
No preciso instante em que se ergueu, a chuva cessou. Um raio de sol entrou pela janela, iluminando a mesa pobre e fazendo brilhar o fundo da terceira chávena. Por um breve momento, Diogo sorriu. E, apesar de tudo, soube que tinha sido amado e, nisso, nunca esteve verdadeiramente só.







